Kiko Loureiro construiu sua carreira em turnês internacionais, discos físicos e grandes festivais, no Angra e no Megadeth. Agora, o guitarrista aposta em um território diferente: a educação musical digital. Ele se tornou sócio e CMO da Musixe, startup brasileira de ensino musical online fundada em Franca (SP), que, em 2025, alcançou a marca de 100 mil alunos e se posiciona como a maior escola de música da América Latina. A plataforma reúne mais de 64 cursos, 27 professores e 6 mil aulas para instrumentos como guitarra, violão, teclado, bateria, canto, saxofone e violino.
A entrada de Kiko no universo da educação digital é o resultado de uma reflexão de anos sobre como a transformação digital mudou a relação entre músicos, fãs e aprendizado. Enquanto parte do mercado ainda via a internet apenas como ferramenta de divulgação, ele percebeu cedo que o modelo estava mudando em níveis mais profundos — e passou a defender publicamente que o músico moderno precisa entender de empreendedorismo, posicionamento, comunidade e tecnologia, não apenas de instrumento. Dentro da Musixe, ele atua diretamente na estratégia de comunicação e expansão da marca, além de revisar o material didático das aulas de guitarra da plataforma.
O que chama a atenção na visão de Kiko é que ela não é ingênua em relação às redes sociais. Ele identifica o que chama de "obesidade mental", o excesso de informação fragmentada que faz com que muitos alunos cheguem interessados em dezenas de assuntos ao mesmo tempo, mas com dificuldade de manter profundidade e consistência no aprendizado. Para ele, o corpo humano, os dedos e a coordenação motora têm um tempo próprio de desenvolvimento que não acompanha a velocidade do algoritmo. Ao mesmo tempo, reconhece que as plataformas digitais democratizaram o acesso à música e despertaram curiosidade em milhões de pessoas que, décadas atrás, jamais teriam contato com um instrumento.
Esse paradoxo é o terreno em que a Musixe opera. A plataforma cresce em um contexto em que o TikTok mudou a forma como músicas viralizam, o YouTube se tornou ferramenta de formação para músicos autodidatas e a creator economy abriu espaço para que artistas monetizem conhecimento e audiência sem depender da lógica tradicional da indústria. O modelo de microlearning — conteúdos curtos e objetivos — já é apontado por estudos como uma das principais tendências educacionais entre públicos jovens e conectados. Na música, esse formato encontrou terreno fértil.