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Fran Gil transforma três anos de estúdio em 'Onda': 'Lugar onde eu depositava as cicatrizes'

Seu novo álbum nasce de depressão, meditação, viagens ao Oriente e da última chance de compartilhar com a mãe antes de seu falecimento

16 set 2026 - 18h18
Resumo
Após três anos de produção, Fran Gil lançou "Onda", seu novo álbum autoral com 11 faixas. Marcado pela superação de um quadro depressivo e pelo diagnóstico da mãe, Preta Gil, o disco reflete dualidades entre vulnerabilidade e força. Pela primeira vez assinando a própria produção musical, o artista transita por MPB, rap, samba e referências orientais, contando com participações de nomes como BK' e Péricles para marcar uma nova e mais íntima fase criativa fora do trio Gilsons.

Há um dia capaz de marcar a vida de qualquer artista; talvez seja o dia em que decide compartilhar com o mundo sua obra mais íntima. Para Fran Gil, esse dia chegou em 8 de agosto — data em que a mãe, Preta Gil, completaria 52 anos —, quando anunciou 'Onda', o novo álbum, após três anos em estúdio, gravando, regravando e lapidando cada detalhe. Hoje, 16 de setembro, o disco de 11 faixas finalmente chega às plataformas.

Fran Gil /
Fran Gil /
Foto: Bonin (bonin____) / Rolling Stone Brasil

Em entrevista à Rolling Stone Brasil, o artista descreve o turbilhão de sensações que o cerca: "Muita coisa ao mesmo tempo, cara. Foram anos me preparando para esse momento [do lançamento]; eu tô me achando até calmo, na verdade". Há algo de paradoxal nessa calma: ansiedade e segurança convivem. As canções que o acompanham há anos agora ganham o mundo. "Eu tô produzindo esse disco há três anos. Tem algumas músicas que têm até cinco anos de composição. Então, são canções e produções que me acompanham durante esse tempo todo, pelas quais eu tenho um apego danado… é como se fosse aquele meu segredo, aquela coisa íntima. E agora vai pro mundo, vai ganhar novas histórias".

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Onda nasceu de travessias. Os últimos três anos foram marcados por grandes shows com os Gilsons — trio junto com José e João Gil —, mas também por noites em quartos de hotel, cidades que chegavam e partiam e uma rotina que alternava entre a euforia de plateias lotadas e o vazio das horas sozinho. "Aquela coisa de você tá viajando pra fazer um monte de show, pra um público gigante; aí, de repente, você está num quarto de hotel sozinho. E, numa viagem gigantesca, no dia seguinte você tá em casa sem energia nenhuma". Então veio o diagnóstico da mãe, que reorganizou tudo. No meio disso, a depressão se impôs.

"As coisas todas me levaram pra esse lugar sério de depressão, e eu tive que lutar pela minha vida mesmo".

Com isso em mente, decidiu praticar yoga, meditação e esportes — práticas que o salvaram — e, com elas, redescobriu a si mesmo. "Nisso veio essa mudança radical. Essas práticas começaram a entrar na minha vida. Aí veio uma autoestima, né? Eu fui criando uma autoestima… e o outro lado do disco é muito sobre isso: esse lugar de empoderamento, de um momento em que eu tava indo fundo e conhecendo mais sobre a minha sexualidade".

O título Onda sintetiza a dualidade que atravessa o álbum. "A onda está totalmente ligada aos movimentos, a um lugar até quântico. O disco passeia por dois lugares: um muito ligado à introspecção, à vulnerabilidade e à tristeza de um período em que eu tive uma depressão muito forte; e esse lado que surgiu dessa força, dessa forma de encarar a depressão". Os dois coexistem porque assim funciona a vida.

"A vida é essa movimentação imprevisível, constante. Às vezes a gente tá confiante e, de repente, vem uma parada pra derrubar. E o que vai mantendo a gente na linha é a capacidade de abraçar essas ondas da vida. A vida tem suas surpresas, suas porradas, suas bênçãos, suas coisas incríveis… mas eu acho que, na hora que acontece esse êxtase, é a hora em que a gente também consegue trazer um pouco de sabedoria pra lidar com o inverso".

Foi também a primeira vez que Fran produziu um disco musicalmente. A jornada começou ao conversar com vários produtores, tentando entender caminhos. Mas algo se revelou: "Eu comecei a entender que o que eu tinha na minha cabeça tava muito mais claro do que eu imaginava e que eu teria capacidade de executar aquilo… comandar aquilo". O privilégio do tempo, já que não queria fazer nada com pressa, virou também prisão: perfeccionismo absoluto. "Eu não terminei o disco; na verdade, eu abandonei. Eu criei uma forma tão perfeccionista de trabalhar… Quando eu sentia que tava perfeito, no dia seguinte eu encontrava uma coisa. Foram três anos trabalhando nisso, me permitindo isso. A galera tinha que virar pra mim e falar: 'Cara, tá bom pra c*ralho, meu. Solta isso logo'." A confiança construída ao longo dos anos — esse empoderamento como produtor — aparece em cada faixa.

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Musicalmente, Onda é um passeio por tudo o que Fran consumiu nesse tempo: MPB, samba, música brasileira contemporânea, rap e até pagode.

"É um disco que, por mais que passe por várias camadas, gêneros e lugares, todo mundo que escuta sempre me fala como eu consigo colocar uma linha que percorre todas as faixas e, ao mesmo tempo, elas vão se diversificando umas das outras".

Isso reflete a própria musicalidade de Fran. "Como artista, eu jamais conseguiria me colocar dentro de uma caixa, porque eu tenho referências que vão de lugares muito distantes uns dos outros". Bebe de tudo: viagens ao Japão e à Índia o aproximaram de arquitetos como Tadao Ando e de filosofias orientais. "Eu tive uma paixão muito grande pela arquitetura das coisas, e isso era uma coisa que eu tentava levar pro meu som".

Na música, as referências também são vastas: BK' — cujo DRLE marcou a produção —, Kendrick Lamar, Aminé e seu disco colaborativo com Kaytranada. Tudo isso convive com nomes brasileiros que o cercam, como a musicalidade de Péricles, de Júlia Mestre, Ana Frango Elétrico e Bruno Berle. "A gente tem muita coisa foda acontecendo, né?", relembra.

Sobre os feats, "só faz sentido quando é de verdade, quando há sinergia, quando há encontro". Fran conta:

"Primeiro eu ia identificando o que as músicas pediam. Eu gravei o disco inteiro sem participações primeiro. E depois fiz os convites. O Péricles, por exemplo, foi uma pessoa de quem eu fui me aproximando nesse período. Ele criou uma relação muito forte com a minha mãe. A gente teve vivências em meio a isso. Eu já conhecia ele, mas a gente foi se encontrando mais… de repente a gente malhava na mesma academia, de repente a gente cantou junto num prêmio. Já o BK' foi lá no estúdio, a gente ficou um tempão falando sobre a vida, foi muito interessante".

Mas há um peso nessas músicas que vai além do artístico: "Essas músicas do meu disco foram as últimas músicas minhas que minha mãe ouviu. O disco dos Gilsons, por exemplo, ela não ouviu nada. Mas esse meu disco… eram músicas com as quais a gente tinha relação".

Quando decidiu anunciar o álbum em 8 de agosto, sentiu um chamado. "Eu comecei a sentir esse impulso de fazer uma coisa pra ela, sabe? De que aquilo fosse um presente pra ela". A viagem à Índia, que inspirou o clipe de "Reconstruir", havia sido combinada entre os dois. Ele resolveu seguir com o plano. "Eu sei que ela tá aí olhando por mim, que tá acompanhando isso tudo. Eu penso nela o tempo todo em cada processo desses".

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Onda mal chegou, mas já aponta os novos caminhos para Fran. "Esse disco realmente propõe exatamente isso: sair totalmente da zona de conforto. Ele propõe uma sonoridade bem diferente do que eu já venho construindo. É um disco muito orgânico; muitas coisas a gente gravou ali junto, com músicos".

O álbum, em si, é a resposta — não apenas um documento de três anos de trabalho obsessivo, mas um manifesto do que virá. "A proposta que eu tenho para o show, para a forma como eu vou trabalhar esse disco, é uma proposta nova relacionada ao meu trabalho. Eu pretendo tá no palco mais livre sobre diversas intimidades, conhecer o que vem por aí também".

A travessia que começou em silêncio, há três anos, está longe de acabar. "Essa travessia segue justamente porque ainda tenho muita coisa pra aprender e me aprender aí no caminho".

Rolling Stone Brasil
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