Com 700 mil pessoas em sete dias, o Rock in Rio 2026 encerrou com chuva constante e momentos marcantes. Elton John brilhou em performance histórica, enquanto o grupo Stray Kids fez uma estreia memorável com a consagração do k-pop no evento. Jon Batiste e Roupa Nova com Guilherme Arantes também figuraram entre os destaques positivos da edição. Em contrapartida, apresentações como as de MGK, deslocado no dia do metal, a previsibilidade do Maroon 5 e os shows de Luísa Sonza e Calvin Harris decepcionaram.
Mais uma edição do Rock in Rio chegou ao fim neste domingo, 13, com altos e baixos e shows históricos. O festival escolheu a dupla Twenty One Pilots para fechar a edição, com um show enérgico, além de nomes como Zara Larsson, com um pop solar, e Ivete Sangalo, sempre unanimidade do público.
Nos demais dias, o festival ainda tirou Elton John da aposentadoria, recebeu pela primeira vez o k-pop com Stray Kids e inovou com um telão gigantesco que impressionou no Palco Mundo. Ao todo, foram 700 mil pessoas em sete dias de evento, de acordo com dados divulgados pela organização do festival. Apesar disso, houve dias mais vazios, como este domingo.
O Estadão esteve em todos eles. O grande desafio do ano foi a chuva, que caiu com força especialmente no dia do headliner Calvin Harris, no domingo, 6. Tanto o público da data quanto do dia seguinte, que teve Elton John como headliner, teve de pular sobre enormes poças de água.
Em coletiva de imprensa realizada no domingo, 13, a empresária Roberta Medina, vice-presidente executiva do evento, abordou o assunto. Ela disse que a chuva, indiretamente, influenciou o comportamento do público, aumentando a interação das pessoas com as atrações. Segundo ela, com medo de molhar os celulares, muitos deixaram os aparelhos de lado e acabaram aproveitando mais o festival.
"Há 40 anos as poças eram de lama, eu acho que a poça de água tá tudo bem", disse ela, em uma referência ao primeiro Rock in Rio, em 1985, quando a Cidade do Rock se transformou em um grande lamaçal.
A reportagem do Estadão esteve no backstage no Palco Mundo no domingo, 13, quando a chuva castigava o Rio de Janeiro. Lá atrás, assim como na arena, também havia grandes poças de água, inclusive na área de camarim, o que mostra que, nesse sentido, o festival é democrático, não faz distinção de áreas. A chuva e os perrengues são para todos.
De k-pop a metal
Quem defende que Rock in Rio deveria ser apenas sobre rock pôde assistir a dois primeiros dias mais clássicos, com o rock "feijão com arroz" de Foo Fighters no dia 4 e as pirotecnias de Avenged Sevenfold no dia 5.
Mas foi o público dos dias mais pop que impressionou. Multidões compareceram em peso para os shows de Elton John, Black Eyed Peas, Maroon 5 e o k-pop do Stray Kids.
O histórico dia do k-pop teve até um aviso da produção pedindo para que as pessoas se afastassem da grade. O momento aconteceu antes do show da cantora Hwasa. O Stray Kids comentou sobre o comportamento dos fãs durante a apresentação: "Bebam bastante água, não empurrem e ajudem quem está ao lado."
A chuva chegou a dar uma trégua, especialmente na data dos k-fpopers, mas voltou a cair no último dia, domingo, 13, reforçando o clima de despedida da edição de 2026. A edição de 2028 já está confirmada, também para o mês de setembro.
Os melhores shows do Rock in Rio 2026
Neste ano, ao todo, 1,3 mil artistas se apresentaram em 190 shows, divididos em sete palcos. O Estadão acompanhou, especialmente, as apresentações no Palco Sunset e no Palco Mundo - apesar de o festival também ter recebido bons shows em palcos secundários.
Abaixo, a reportagem selecionou dez dos melhores shows da edição de 2026 do Rock in Rio. Como também houve decepções, separamos as piores apresentações do evento.
Elton John
Não teve para mais ninguém. O show desta edição foi um cara de 79 anos, já aposentado de grandes turnês. John deixou a todos impressionados com sua disposição para uma apresentação de mais de duas horas sem demonstrar cansaço. Sua voz e sua habilidade nas teclas do piano continuam as mesmas. Seus clássicos da carreira, como Saturday Night's Alright, Sacrifice e Rocket Man são imortais e resistiram ao tempo. John ainda proporcionou uma cena dessas que entram para a história do festival: o público cantando e batendo palmas puxadas por ele em Crocodile Rock. Inesquecível.
Jamiroquai
Como esperado, o público que foi assistir ao Jamiroquai no Palco Sunset antes da apresentação dos headliners Stray Kids em plena estreia do Rock in Rio não foi o mais expressivo do dia. Mesmo assim, a banda de acid jazz sustentou um dos melhores shows da edição, com um groove impecável e o excêntrico Jay Kay em ótima forma. Engajando os mais velhos e também os mais jovens, o grupo provou que é atemporal.
Roupa Nova convida Guilherme Arantes
Grupo que deu voz ao hino do Rock in Rio, Roupa Nova se apresentou pela segunda vez no festival. Com sucesso. O grupo baseou o reportório do show em seus grandes hits que tocaram em novelas, como Dona e A Viagem. A banda ainda corrigiu uma injustiça: Guilherme Arantes estreou - e brilhou - no festival. Cantou Cheia de Charme, como coro do público, e Lindo Balão Azul. Uma verdadeira catarse. Arantes merecia mais do que ninguém essa consagração.
Jon Batiste
Sempre imprevisível e hipnotizante, o cantor mostrou que o segredo para um bom show não é se fechar em um roteiro, mas ter muito talento musical. Jon desfilou sua habilidade como multi-instrumentista, tocou Mas Que Nada e Chega de Saudade e chamou a bailarina carioca Ingrid Silva para subir no palco. Provou que ostenta com propriedade a sucessão de Sam Cooke e Marvin Gaye e sustentou o peso de se apresentar no Palco Mundo antes de Gilberto Gil e Elton John.
Demi Lovato
Demi reuniu uma das maiores multidões da edição e convidou até Pabllo Vittar para o palco para cantar com ela Cool For The Summer. Uma das vocalistas mais poderosas da atualidade, a cantora deixou o microfone ligado para sua volta triunfal ao pop depois de um período se dedicando ao rock. Foi um show bem construído e ficou difícil entender por que Demi não foi escolhida para ser headliner de seu dia, posto que ficou com o Maroon 5.
Péricles canta Motown
Por sugestão do diretor artístico do Rock in Rio, Zé Ricardo, Péricles se apresentou no Palco Sunset em show que reverenciava os artistas da Motown, gravadora americana que ajudou a consolidar a música negra. O repertório já dava ao cantor uma larga vantagem: músicas como I'll Be There e ABC, do Jackson Five, How Sweet It Is, de Marvin Gaye, e For Once In My Life, de Stevie Wonder. Péricles é cantor dos bons e tem propriedade para encarar esses clássicos. Soube adaptar os tons quando isso foi preciso e ofereceu um grande espetáculo. Merece virar turnê de carreira.
Stray Kids
Uma esperada multidão se aglomerou com seus lightsticks (os bastões de luz dos kpopers) para ver a estreia histórica do grupo Stray Kids e do k-pop no Palco Mundo. O octeto formado por Bang Chan, Lee Know, Changbin, Hyunjin, Han, Felix, Seungmin e I.N até se impressionou com a dimensão: "Não consigo ver o final dessa galera". De coreografias impecáveis ao uso bem-sucedido do telão do Palco Mundo, o grupo deu um gostinho de quanto o gênero merece mesmo espaço em grandes festivais.
Criolo, Amaro Freitas e Dino D'Santiago
Show que abriu o sábado, dia 6, e, por isso, juntou público pequeno no Palco Sunset, a apresentação que uniu o rapper brasileiro Criolo, o português Dino D' Santiago e o pianista pernambucano Amaro Freitas era certeza de boa música. O álbum que eles lançaram juntos, Criolo, Amaro e Dino, com uma liga interessante e criativa de jazz, rap e e ritmos afro-lusófonos, traz o piano genial de Freitas e os versos afiados de Dino e Criolo. Tudo isso fica ainda mais interessante ao vivo. Eles ainda apresentaram covers, como Pérola Negra, de Luiz Melodia, e Oceano, de Djavan, a música mais aplaudida. A plateia ainda vibrou quando Criolo cantou seu clássico Não Existe Amor em SP.
Black Eyed Peas
Mesmo com a expectativa frustrada pela ausência de Fergie, o grupo se saiu bem ao fazer afagos ao Brasil e manter o público nas mãos. O show teve Papatinho - que lançou uma música com will.i.am - no palco, homenagem a Sergio Mendes e, claro, um setlist só de hits. Os integrantes will.i.am, apl.de.ap e Taboo comandaram de forma bem-sucedida uma festa com clima de anos 2000 e a plateia respondeu acolhendo bem a cantora J. Rey Soul, que faz as vezes de Fergie na banda. Parecia até que o grupo ainda estava no auge.
Ivete Sangalo
Mesmo sem grandes novidades no repertório, Ivete Sangalo, em sua vigésima apresentação no festival, conseguiu fazer show envolvente, calcado na exaltação de suas origens espanholas e a sonoridade latina que sempre usou em suas canções. Mesmo debaixo de uma chuva forte, o que costuma esfriar a plateia, a cantora foi bem recebida e confirmou que sempre é uma boa escolha para o line-up.
Os piores shows do Rock in Rio 2026
mgk
O cantor, também conhecido como Machine Gun Kelly, ficou deslocado como atração do Palco Mundo no dia do metal. Até tentou engajar o público com um setlist mais pop punk do que pop e um discurso um pouco mea culpa ("mesmo que não me amem, eu amo vocês", disse em certo momento), mas não adiantou. Para piorar, o mesmo palco recebeu o ótimo show de Bring Me The Horizon logo em seguida, com uma energia completamente diferente da apresentação de mgk.
Maroon 5
O show da banda americana já se tornou previsível. Mesmo com um vocalista carismático como Adam Levine, a mera repetição em cena é incômoda, embora encontre acolhida dos fãs. Há uma exceção: quando o excelente tecladista PJ Morton canta - e toca muito - a primeira parte de Heavy, com clara influência da mistura de soul e R&B que molda o som da banda. A espera é que Maroon 5 volte - e eles voltarão ao Rock in Rio mais vezes - com novidades. Estão devendo essa.
Luísa Sonza
A equipe de Luísa Sonza reclamou bastante nas redes sociais sobre as críticas que ela recebeu pela apresentação no Rock in Rio. O fato é que, tentando atirar para todos os lados, Luísa acerta o próprio pé. De bossa nova ao funk, ela, sim, tem condições e liberdade para cantar o que quiser. Porém, é preciso que isso não soe desconexo no palco. É hora de respirar e voltar para a próxima edição com intenções e humildade renovadas.
Calvin Harris
O DJ escocês ganha e perde na comparação com o brasileiro Alok. Para ser justo e contrapor os dois grandes DJs desta edição, é preciso dizer que Harris tem mais hits universais que Alok. O brasileiro, no entanto, sabe fazer um espetáculo melhor. Se Harris fez uma grande balada, Alok criou um universo, simbolizado por uma nave especial que parecia flutuar no imenso telão do Palco Mundo, e encantou o público. Um preferiu o conforto; o outro, o risco.