Uma das maiores vozes na cena do rap feminino, Ebony, nascida Milena, compartilhou com o POPline sua visão sobre assuntos que permeiam e baseiam sua carreira e identidade como artista. Profunda, a rapper comentou sobre interpretações acerca de suas letras, expectativas do público com seus lançamentos, nuances raciais, vulnerabilidade como compositora e outras questões que constroem a Ebony como conhecemos.
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A essência do rap e a conquista de novos ouvintes
A transição entre bolhas, para a rapper, é desafiadora: como manter a essência do gênero ao mesmo tempo que conquista novos ouvintes de cenários musicais diferentes? Ebony afirma que todas suas faixas surgem em versões bastante "depravadas", com muitos palavrões e trechos "sujos" que, posteriormente, são tratados e refinados.
"É sempre muito importante ter uma, ou duas, ou três músicas sem nenhum palavrão, que são as músicas que eu vou poder cantar quando eu vou na televisão, que são músicas que vão transitar melhor entre as bolhas. Então eu também sempre dou muita atenção pra essas e pra fazer essas músicas. Eu não quero ser vista como uma pessoa que sabe fazer de um jeito só."
Ainda, afirma que há um preconceito com o gênero, em geral, que busca quebrar: "'Se a Ebony tá rimando, ela vai falar palavrão'. Cara, não! Talvez ela [Ebony] vá te questionar sobre algo bem mais profundo. E meninas negras são bem mais profundas que isso. Então eu sempre sinto que tem esse lugar também de entender que eu não tô falando só por mim, que a forma que eu me movimento as pessoas vão usar para definir todo um grupo.", compartilha.
Ebony, então, entende que expor sua dualidade ao público é uma maneira inteligente de mostrar que sua arte também traz questionamento, conforto e desconforto. "Então como que eu me movo a partir disso sem perder a minha essência? Sendo inteligente, mostrando que eu consigo fazer os dois"Ebony X Milena: a linha tênue está ficando menor
Nascida Milena, a rapper adotou o nome artístico Ebony para subir ao palco como uma mulher confiante de si e inspiradora ao seu público. Porém, com o passar do tempo, a diferênça entre a pessoa pública e a garota de Queimados está ficando cada vez menor. Com a vulnerabilidade exposta por Ebony em "KM2", a rapper admite que a Milena se sentiu, pela primeira vez, vista.
"Muitas pessoas hoje em dia me chamam de Milena, tipo fãs. Isso nunca tinha acontecido antes. E foi um lugar de cura muito grande. Eu tinha muito medo de que as pessoas vissem de onde eu venho, por muito tempo eu tive muita vergonha. Quando eu era criança, eu tive muita vergonha de ser pobre, de ser uma garota que vem de onde eu vinha, que vem da rua de barro, que vem da charrete. [Eu tinha medo] de tipo: 'cara, se as pessoas descobrirem quem eu sou, de onde eu venho, e que a minha história não é feliz, elas não vão gostar mais de mim'."
A honestidade de "KM2", bem aceita pelo público, agiu como cura para Ebony, que admitiu ter ficado muito emocionada quando percebeu que, mesmo com diversos traumas e um passado carente de tantas coisas — adotada, cresceu com recursos financeiros bastante limitados —, seu público se manteve fiel. "Eu desmontei. Eu senti que aquela armadura não existia mais. Eu era Milena, nua ali, artisticamente falando."
A vulnerabilidade de Ebony
Forte, decidida, profunda e inteligente, Ebony também carrega muita sensibilidade e vulnerabilidade em si. Como compositora, a rapper afirma que suas canções surgem naturalmente, como desabafos sobre sua experiência como mulher, como mulher negra, e como mulher negra vinda da periferia. No entanto, compartilhar seus pensamentos e se mostrar vulnerável ao público é o grande desafio de Ebony, que afirma ser uma pessoa bastante tímida apesar de pública.
"Eu sempre escrevi tudo, pra mim é a forma que sai de mim. Eu sinto coisas, elas viram poemas, elas viram música. E eu acho que a minha maior dificuldade é botar pra fora, deixar as pessoas verem, deixar me verem nua artisticamente. Quando eu faço um poema como 'Sangue Ruim' [nova faixa da versão de luxo de "KM2"], eu estou nua ali. E é muito arriscado falar por toda uma classe, e por uma classe que é tão mal compreendida quanto mulheres negras."
"Eu sinto que eu sempre reverbero um pouco essa sensação quando se refere a falar de algo mais profundo assim. 'Sangue Ruim' é um poema que, se eu não sentisse que fosse extremamente necessário, ele não estaria no álbum. Só que o momento que a gente tá vivendo agora, pra mim, pedia algo mais denso e dolorido mesmo.", afirma.
Os poemas de "KM2 (De Luxo)"
A versão de luxo do álbum "KM2" traz uma dinâmica diferente e enriquecedora no consumo do conteúdo: poemas escritos pela rapper intercalam as faixas, trazendo uma outra compreensão das faixas originais aos seus ouvintes.
"Talvez você tenha ouvido o "KM2" pela primeira vez e achado muito bobo, mas se você ouvir de novo não vai ser a mesma experiência. Foi isso que eu quis trazer com esse deluxe e com essas poesias, que talvez para um ouvido despercebido possam soar sem sentido, mas para nós [mulheres negras] não soam".
Contar histórias como um processo de cura
Ebony acredita que, como artista, seu trabalho é contar histórias muito dolorosas de uma forma que machuquem um pouco menos. A rapper afirma que, por sua herança mineira e pelas experiências que teve em sua infância, quando contava histórias ao redor da fogueira, construiu uma relação muito profunda com a maneira a qual histórias podem ser compartilhadas.
"Abrir sobrevivências que são tão dolorosas é um ato de muita coragem. Muitas vezes o nosso trabalho como artista é fazer com que histórias extremamente dolorosas soem menos dolorosas. Eu sempre gostei muito disso. Eu tento fazer com que as coisas não machuquem tanto ao ouvir — mas nem sempre. Às vezes eu quero que machuque. Às vezes eu quero que você entenda exatamente o que aconteceu comigo. Eu gosto disso. E sinto que só de contar essas histórias já faz parte de um processo maior de cura."
O post "É importante ter músicas sem palavrão", defende Ebony sobre trabalho no rap (ENTREVISTA) apareceu primeiro em POPline.