Oito anos. Esse é o tempo que A$AP Rocky ficou sem lançar um álbum completo desde Testing (2018). Quando seu último trabalho chegou às plataformas, Tyler, The Creator tinha acabado de abandonar sua estética agressiva com Flower Boy (2017), Kanye West vinha numa sequência impressionante de cinco álbuns antes de se perder mentalmente, o BROCKHAMPTON ainda existia e o mundo do hip hop era completamente diferente. Desde então, o rapper de Harlem viveu intensamente: conheceu e iniciou um relacionamento público com Rihanna, tornou-se pai de três filhos, quase foi preso duas vezes, estreou como ator, consolidou-se como um dos nomes mais influentes da moda mundial e — talvez o mais significativo — viu seus números de streaming e avaliações crescerem exponencialmente. Curiosamente, quanto mais Rocky se afastava dos estúdios, mais o público redescobria e valorizava seus trabalhos anteriores. Mas a pergunta persistia: quando voltaria? E mais importante: valeria a pena?
A resposta chegou na última sexta, dia 16, com Don't Be Dumb (2026), o quarto álbum de estúdio do artista, que conta com 17 faixas e quase uma hora de duração. Enquanto seu antecessor se perdia em experimentos desconexos, aqui Rocky mergulha em terrenos diversos com confiança — e talvez o título do projeto anterior coubesse melhor neste. A produção passeia entre trap distópico, punk rock, jazz e música eletrônica, sempre com coesão. Mas o verdadeiro diferencial está na capacidade rara de unir beats incríveis com letras que, na maioria das vezes, dizem algo. No cenário atual, rappers ou têm produção impecável com letras vazias, ou mensagens profundas sobre beats genéricos. Rocky é um dos poucos que entrega ambos simultaneamente — junto de Kendrick e J. Cole, que vem na minha cabeça no momento. E por isso que o álbum é exatamente a essência de Rocky: cinematográfico e irregular, mas sempre autêntico.
https://www.youtube.com/watch?v=dteNMCNSczE
"Helicopter" funciona como cartão de visitas perfeito, com Rocky operando em plena potência. O single conta com Pretty Flacko em sua forma mais afiada, cuspindo versos provocativos sobre uma paisagem sonora agitada e carregada de adrenalina. "Stole Ya Flow" é o ápice confrontacional. A atmosfera ameaçadora amplifica o impacto enquanto Rocky mira em Drake — ou Travis Scott — com ataques calculados sobre seu estilo e relacionamentos.
"STFU" mostra Rocky no modo mais ousado e experimental, enquanto "Stop Snitching" com Sauce Walka destila anos de amargura contra colaboradores que viraram informantes — uma cutucada clara ao ex-membro do A$AP Mob que o levou a julgamento. Além delas, "Robbery" é um jazz incrível com Doechii sobre um assalto elegante e sensual.
"Stay Here 4 Life" com Brent Faiyaz merece um parágrafo a parte. Possivelmente a melhor faixa do álbum, desliza sobre instrumental hipnótico produzido por Hit-Boy e Loukeman, sampleando "Mewtwo" de Ken Carson (que por si só já é um sample), com refrões suaves de Faiyaz que dão a Rocky espaço para explorar o vínculo obsessivo com Rihanna sem exagerar na exposição.
Outros colaboradores também brilham. Tyler, The Creator aparece no relaxado "Fish N Steak"; Damon Albarn do Gorillaz empresta vocais fantasmagóricos em "Whiskey (Release Me)" — faixa centrada no relacionamento complicado de Rocky com a bebida, com ad-libs de Westside Gunn (embora sua participação curta frustre pelo potencial desperdiçado); e Hans Zimmer contribui com atmosferas cinematográficas que transformam faixas em paisagens sonoras.
https://www.youtube.com/watch?v=g1-46Nu3HxQ
Mas nem tudo funciona. "Punk Rocky" não é tudo isso; o trecho de "No Trespassing" até "Whiskey (Release Me)" perde momentum com mudanças abruptas de clima que parecem mais resultados de indecisão do que escolhas criativas e "The End" é didática demais, tentando abordar racismo sistêmico e aquecimento global de forma que destoa completamente do restante do álbum. Algumas outras faixas se perdem em produção excessivamente carregada, com elementos demais competindo por atenção, criando mais ruído do que atmosfera.
Entretanto, se musicalmente Don't Be Dumb tem seus tropeços, esteticamente é um show à parte — e aqui reside sua verdadeira força. Os visuais não são meros clipes: funcionam como extensão da mente criativa de Rocky. Com estética de videogame de tirar o fôlego, cores saturadas, experiências 3D e ângulos que transformam cada frame em fotografia de moda de alto nível, ele trouxe o clima de Hollywood, equipe de produção digna de blockbuster e uma visão criativa única. Sem contar a bela capa do álbum, desenhada por Tim Burton, que apresenta vários alter egos de Rocky.
Don't Be Dumb não é perfeito, mas é interessante. Não é o melhor projeto do artista, mas é divertido. A irregularidade do álbum reflete quem Rocky é: um perfeccionista que prefere destruir e reconstruir mil vezes a entregar mediocridade. Assim como MUSIC (2025) foi para Playboi Carti — volta após hiato, álbuns muito aguardados, vários adiamentos, vazamentos, estética ousada e significativos na carreira —, Don't Be Dumb representa um marco que justifica a espera. Oito anos transformaram quem ele é. Mas o importante é que ele voltou, e que 2026 está apenas começando.