'Doces Bárbaros' completa 50 anos: o encontro que uniu Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia no mesmo palco

Universal Music Brasil celebra meio século do álbum duplo ao vivo que condensou Bahia, contracultura e liberdade artística em um dos discos mais marcantes da música brasileira

24 jun 2026 - 14h32

Em 24 de junho de 1976, quatro dos maiores nomes da música brasileira subiram juntos ao palco do Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo, dando início a uma turnê que se tornaria histórica. Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia formaram os Doces Bárbaros — projeto que depois seguiu para o Canecão, no Rio de Janeiro, e outras capitais — e que resultou em um álbum duplo ao vivo, hoje comemorando 50 anos.

Universal Music Brasil celebra o álbum duplo ao vivo que uniu Bahia e contracultura em show marcante de 1976 e que segue influente 50 anos depois
Universal Music Brasil celebra o álbum duplo ao vivo que uniu Bahia e contracultura em show marcante de 1976 e que segue influente 50 anos depois
Foto: Divulgação / Rolling Stone Brasil

Segundo material enviado à imprensa, o nome do projeto surgiu como uma resposta irônica à maneira como parte da imprensa do eixo Rio-São Paulo tratava a presença baiana na cultura nacional — o jornal O Pasquim havia apelidado o grupo de "baianos", de forma pejorativa, quase como se fossem invasores. Os quatro artistas transformaram essa acusação em força criativa: a barbárie virou doçura, e a invenção, resposta. Num Brasil ainda sob o regime militar, a liberdade do espetáculo dispensava discursos panfletários, ela estava no corpo, na roupa, na dança e na própria ousadia de ocupar o palco daquela forma.

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O repertório do álbum atravessa diferentes linguagens e tradições da música popular brasileira sem perder coesão. "Fé Cega, Faca Amolada", de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, aproxima os baianos do Clube da Esquina. "Chuck Berry Fields Forever", de Gil, cruza o rock americano com a diáspora negra e a mitologia afro-brasileira. "Tarasca Guidon", de Waly Salomão, mergulha na poesia marginal da época, com influências indígenas e africanas na própria construção da língua. Já "Pássaro Proibido", rara composição de Maria Bethânia em parceria com Caetano Veloso, fala de perigo e vigilância — temas que ressoavam diretamente com a realidade política do país.

A faixa de abertura, "Os Mais Doces Bárbaros", entra em entrada gradual, como se o grupo viesse chegando de longe para anunciar a própria presença, um arranjo longo e circular que já estabelece a repetição como elemento de transe, uma das marcas centrais do disco. Curiosamente, o título originalmente concebido por Caetano Veloso era "Os Mais Doces dos Bárbaros", mas um erro de grafia da gravadora consolidou a versão sem a preposição, que se manteve ao longo das décadas seguintes. No segundo disco do álbum duplo, o clima se transforma: faixas como "Esotérico", cantada por Gal Costa e Maria Bethânia, e "O Seu Amor", em que os quatro artistas alternam versos para subverter o slogan autoritário "Brasil, ame-o ou deixe-o", reposicionam o amor como forma de resistência e liberdade afetiva.

"Poucos projetos na história da música brasileira conseguiram reunir tanta força criativa quanto os Doces Bárbaros. Cinquenta anos depois, esse encontro entre Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia continua impressionando pela liberdade artística, pela coragem de experimentar e pela forma como traduziu um momento muito especial da nossa cultura", afirma Paulo Lima, presidente da Universal Music Brasil. A capa do disco, criada a partir de fotografia de Orlando Abrunhosa, resume visualmente essa força coletiva: os quatro artistas aparecem deitados, com as cabeças reunidas em um centro comum — quatro identidades distintas formando, por um instante, uma só figura.

Rolling Stone Brasil
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