O Detonautas não tinha pretensão nenhuma de lançar inéditas. A banda vinha de uma turnê acústica vitoriosa, tinha rodado o Brasil inteiro em grandes teatros, casas de shows e festivais. E a ideia era justamente manter esse acesso a um circuito que a banda quase nunca fazia antes. "A gente pensou: já que a gente conseguiu acessar esse mercado dos teatros, por que não criar um projeto para manter o Detonautas em datas alternativas nesses lugares"? conta Tico Santa Cruz em entrevista à Rolling Stone Brasil.
O plano era simples: um projeto de regravações. Versões de artistas e músicas que a banda gosta. Um show só com músicas versionadas. Nada de composições novas. "Era isso que a gente foi apresentar para algumas gravadoras na época".
Quando chegaram na gravadora Deck, o produtor Rafael Ramos viu a proposta, achou bacana. Mas não tinha muito interesse. E foi aí que Tico lembrou: "A gente tem uma música: Potinho de Veneno", que ainda não tinham mostrado para ninguém. Mostraram. Rafael pirou. "Ele ficou muito entusiasmado e acabou falando: 'Ó, é isso aqui que a gente quer. Isso aqui nos interessa. Vocês têm mais alguma música'?".
A resposta foi direta: "Não, só temos essa".
E aí veio o desafio: "Então tá bom. Então vocês vão ter que providenciar mais 10 faixas".
Isso aconteceu em março de 2025. O Radio Love Nacional (2026) foi entregue em setembro do mesmo ano. Seis meses para compor, gravar e finalizar um disco inteiro de inéditas. Sem planejamento, sem preparo, sem nada além de uma música pronta. "A probabilidade de você conseguir fazer um disco dessa forma é muito pequena", admite Tico. "Porque, normalmente, as pessoas se programam para fazer um disco de inéditas. Então foi tudo muito intuitivo e espiritual, digamos assim".
Frequência e orixás
Espiritualidade não é uma palavra à toa na boca de Tico. Ele, Pablo Bispo e Ruxell — os dois produtores que comandaram as sessões — compartilham a mesma frequência. "A gente compartilha desse lugar, que são as religiões de matriz africana. Então existem muitas referências aos orixás, às entidades mesmo com as quais a gente trabalha dentro do campo espiritual".
Para quem entende, músicas como "Antimonotonia" e "Capa Preta" deixam isso claro. Mas mesmo quem não tem essa leitura consegue sentir. É uma energia, uma frequência que permeia o álbum. "A espiritualidade, de alguma maneira, é uma frequência com que você se conecta. E eu acredito muito nisso".
E foi essa conexão que permitiu o impossível: fazer um álbum em seis meses, do zero, sem planejamento. "Quando a gente fechou a parceria com o Pablo e com o Ruxell, a gente falou: 'Cara, agora a gente tem que pegar essa frequência e materializar ela'. Traduzir ela em música. E aí eu acho que, de certa forma, foi o que aconteceu".
As coisas fluíram de uma forma muito forte, muito intensa. "É um tempo muito curto. Mas as coisas fluíram".
Laboratório Detonante
A pandemia tinha ensinado o Detonautas a trabalhar de jeitos diferentes. Até então, era jam sessions de estúdio. Tico levava uma música já escrita no violão, a banda fazia os arranjos, tudo acontecia ali, olho no olho. Mas, durante o isolamento, tiveram que aprender outra forma: ele compunha, gravava no WhatsApp e mandava clicado com metrônomo. Cada um, na sua casa, colocava os arranjos sem interferência. Depois todo mundo ouvia e fazia modificações.
Para Radio Love Nacional, essa experiência se mostrou valiosa. "A gente criou um grupo no WhatsApp chamado 'Laboratório Detonante'. E ali dentro, cara, tem tudo que você possa imaginar". Melodia cantada sem instrumento, letra enviada como texto antes de virar composição, ideias em estágios embrionários. "Foi um laboratório mesmo que aconteceu nesse processo presencial e de trabalho remoto".
Mas o diferencial estava em outro lugar: nos produtores. Pablo Bispo e Ruxell são nomes gigantes do pop brasileiro. Criaram sucessos para Pabllo Vittar, Anitta e uma lista enorme de artistas. Mas, mais do que isso, eram fãs do Detonautas.
"É diferente de você pegar um produtor que é um profissional e aí você fala: 'Não, eu quero produzir com aquele cara porque ele produziu fulana, fulana, fulana, e ele vai me produzir e vai ser legal'", explica Tico. "É uma outra relação. É diferente quando você pega dois caras que, além de serem produtores e criadores, têm uma relação afetiva com a banda. Eles eram fãs da banda. Conheciam a trajetória da banda. Conheciam as músicas da banda".
Essa familiaridade gerou uma conexão que facilitou tudo. Às vezes, Tico tinha uma ideia que não conseguia colocar no papel, não conseguia transcrever para um arranjo. E os dois produtores conseguiam captar justamente por conhecerem a história da banda. "Eu tenho uma gratidão enorme por eles dois. Eu acho que eles conseguiram explorar nuances da banda, nuances de arranjos, nuances de letras, que eu não vejo nenhuma possibilidade de isso acontecer como aconteceu se tivesse sido com qualquer outro produtor".
Sair da zona de conforto
Radio Love Nacional tem rock, reggae, pop e música eletrônica. Tem batidas que flertam com o tecnobrega. Tem momentos pesados e momentos dançantes. É um caldeirão. E isso só foi possível porque o Detonautas deu controle — no melhor sentido da palavra — para Pablo e Ruxell conduzirem.
"Na medida em que a gente aposta e dá o controle para que os dois produtores pudessem atuar e nos conduzir por esse universo, a gente foi se permitindo ouvir e experimentar em lugares onde a gente não tinha ido ainda", conta Tico. "A gente falou: 'Cara, vamos experimentar o que vocês têm pra trazer pro Detonautas e, claro, com a experiência que a gente tem de estúdio, a experiência musical, quase 30 anos de história, a gente vai traduzir isso pro nosso universo'".
E foi o que aconteceu. O Detonautas saiu da zona de conforto. Apostou em lugares novos. "Vampira", por exemplo, virou polêmica. Tem uma quebrada melódica, uma batida que puxa para o funk. E isso incomodou parte do público que gosta de rock. "O rock já se sente incomodado", reconhece Tico. "Mas não tem nenhuma novidade na batida que a gente escolheu. O Gorillaz tem várias músicas com essa mesma batida. E é uma banda que as pessoas que gostam de rock tendem a gostar também".
https://www.youtube.com/watch?v=5zelEh9_xZc
A diferença é que está em português. E a língua que as pessoas entendem muda a percepção. "Agora, claro, cantado em português, com a língua que as pessoas entendem. Aí tem uma partezinha que puxa para o funk e rola uma polêmica. Mas eu acho que é saudável, para oxigenar também".
"Vampira" ganhou outro elemento inusitado: a narração de Milton Cunha. E ele não era a primeira opção. Quando fizeram a gravação de teste, tinha uma narração no começo. Seria Tico que faria com a própria voz. Mas aí veio a ideia: "Pô, seria legal se tivesse uma voz mais diferente da minha, mas ao mesmo tempo marcante".
A primeira pessoa que veio na cabeça foi Zé Ramalho. Faz sentido: cantor, voz marcante, referência do rock brasileiro. Mas Tico teve outra ideia: "Não, não. Que tal a gente tentar o Milton Cunha"?.
A galera estranhou. Milton Cunha? Mas Tico insistiu: a voz é marcante, a energia é vibrante, e a música tem uma coisa lúdica, que tem a ver com o carnaval. Mandou mensagem no Instagram. Milton respondeu, topou. "Foi perfeito".
E faz todo sentido quando você entende que o álbum dialoga com Rita Lee, não só em "Potinho de Veneno", mas em toda a atmosfera carnavalesca, irônica e rebelde que permeia o disco. "A Rita tem uma característica muito particular. Ela consegue fazer rock em português com muita ironia e, ao mesmo tempo, tem um ar carnavalesco".
Como nomear o projeto?
O título do álbum foi decidido no último momento possível. A banda tinha duas opções: "Antimonotonia" ou "Radio Love Nacional", nomes de duas faixas do disco. E deixou a coisa tomar sua própria forma. "Cada um fez as suas ponderações".
"Antimonotonia" tinha força. Mas tinha o "anti". E talvez a banda não quisesse soar contra nada. "Embora, a nosso ver, 'Antimonotonia' tenha um significado positivo".
"Radio Love Nacional" venceu porque sintetiza melhor. "Rádio" como uma estação com várias músicas diferentes. "Love" como brincadeira com a língua — embora não seja uma palavra do vocabulário brasileiro, todo mundo entende. E "nacional" como contradição proposital, um abrasileiramento. "Então a gente fez muita questão de deixar claro que era um abrasileiramento, um aprofundamento nesse Brasil que pega a linguagem de outro país, que pega a linguagem de uma música, de um outro gênero, e traduz para si mesmo, e coloca isso com orgulho de ser brasileiro", conta.
Nova era
Radio Love Nacional inaugura uma nova fase. Tico é direto: "É um capítulo novo do Detonautas. Eu acho que é um álbum que abre um precedente para que a gente possa explorar mais esse universo em que a gente entrou".
A banda tem sucessos do primeiro, do segundo, do terceiro, do quarto e do sexto álbum, mas chegou num teto de criatividade fazendo sempre a mesma coisa. "Muita gente fala: 'Pô, mas vocês não fazem mais som pesado, vocês não fazem mais aquelas músicas mais rápidas, mais pesadas'". Nesse momento, talvez a banda não faça.
https://www.youtube.com/watch?v=W53VKQhq4Lo
Mas agora, com RLN, o Detonautas conectou com um caldeirão brasileiro mais amplo. "Diferente do que a gente vinha fazendo, que talvez tivesse influências do rock brasileiro dos anos 1980, de algumas referências dos anos 1990 do rock também. E talvez agora a gente esteja numa referência mais ampla da música brasileira. E isso abre um leque de oportunidades para o futuro".
O Detonautas foi fazer um projeto de versões. Acabou fazendo um álbum de inéditas. Foi mostrar uma música para a gravadora. Saiu de lá com a missão de criar mais 10 em seis meses. Tinha tudo para dar errado, mas deu certo. Radio Love Nacional é o álbum que não era para existir. E talvez por isso mesmo seja o mais importante da nova fase da banda. Um disco feito na intuição, na espiritualidade e na frequência. Com Milton Cunha narrando, Pablo e Ruxell produzindo, orixás abençoando. Rock, pop, reggae, música eletrônica e funk. Tudo junto. Tudo abrasileirado. "É uma característica desse trabalho a busca por uma sonoridade das faixas como se fossem nomes de filmes", resume Tico. E Radio Love Nacional funciona exatamente como uma estação de rádio: com muitas frequências diversas, muitas experiências. Agora é apertar o botão de tocar e sintonizar.