Dado Villa-Lobos, guitarrista que ajudou a moldar o rock brasileiro da década de 1980 com a Legião Urbana, já está em contagem regressiva para soltar O Que Você Quiser, seu novo álbum de inéditas, cujo lançamento ocorrerá em 28 de maio.
O primeiro aperitivo desse trabalho foi "Adeus Bem-Vinda", single que saiu em março. Agora é a vez de "Dois Brilhantes", canção que chega nesta quinta-feira, 30, com uma aura de luminosidade e descoberta, tal qual os olhos de recém-nascidos tendo contato inicial com o mundo.
A inspiração para a faixa é profundamente pessoal. Nos últimos tempos, Dado viu sua vida ser tomada por uma "avalanche de netos", como ele define. Hoje são cinco, mas o nascimento em 2025 dos gêmeos Iolanda e Salvador, filhos de seu primogênito, Nicolau Villa-Lobos, foi o estopim para a criação do single.
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De seu estúdio pessoal, remodelado a partir de uma casa do final do século 19, no Horto, Zona Sul do Rio de Janeiro, Dado explicou à Rolling Stone Brasil:
"Eu lembrei de quando se tem bebês perto de você. De levar para dar um rolê na Lagoa (Rodrigo de Freitas), na praia, e eles estarem absorvendo aquela experiência que é a vida, né? Enfim, de tudo que está ali 'entrando' e que, de repente, você, já com a idade avançada, esquece que aquilo tem uma importância fatal na vida."
Embora a aparência não transpareça, Dado agora já é um sexagenário. Dos 60 anos completados em junho último, "40 foram vividos no Rio", e ele acrescenta:
"Você saber olhar para o mar e aquilo te acalmar. Essas relações com a natureza, que, na verdade, são primordiais. A música fala sobre isso. E no final, como era bom ser bebê, né? Tem sempre alguém para cuidar de você, te levar para os lugares."
Os "dois brilhantes", Dado admite, são justamente os olhos capturando as imagens do mundo antes que as barreiras da linguagem se imponham. Musicalmente, a faixa traz uma curiosidade: desta vez, o guitarrista não toca nenhum instrumento, apenas canta.
Os convidados
Se em "Adeus Bem-Vinda" Dado teve a parceria de Humberto Gessinger e Herbert Vianna, no segundo single o principal convidado é Tiago Iorc, que tocou violão e trouxe um andamento "mais pop" e solar à composição.
A bateria ficou a cargo do americano Jeremy Gustin, enquanto o baixo de Kassim remete às linhas melódicas de Paul McCartney no Álbum Branco (1968), dos Beatles — referência notada pelo amigo Fausto Fawcett.
Show em celebração a Dois
Ao mesmo tempo em que o lançamento de O Que Você Quiser se aproxima, Dado também se prepara para celebrar os 40 anos de um dos principais discos de sua carreira, em geral, e da Legião, em particular: Dois (1986).
O álbum, que contém clássicos do rock nacional como "Índios", "Eduardo e Mônica", "Quase Sem Querer" e "Tempo Perdido", será homenageado no festival C6 em Rock, no dia 23 de agosto.
Dado revela que o convite partiu da cineasta e produtora cultural Monique Gardenberg. A intenção é executar o disco na íntegra e na ordem original do repertório, incluindo faixas menos festejadas, como "Acrilic on Canvas", "Plantas Embaixo do Aquário" e a instrumental "Central do Brasil".
"Não tinha como eu negar um pedido da Monique. Eu já fiz tantos projetos com ela. E aí eu pensei: 'Bom, são 40 anos do Dois. Vamo embora! Vamos lá tocar na ordem, na íntegra. São 50 e poucos minutos. Partiu!'."
Para essa tarefa, Dado estará novamente lado a lado com o baterista Marcelo Bonfá, também integrante histórico da Legião Urbana. A ideia, porém, não é estender as comemorações para uma turnê ou algo do tipo, com múltiplas datas. Dado avisa que será um evento especial e único:
"Será uma apresentação pontualíssima ali. A gente já fez excursão de 30 anos de todos os discos, poxa. Durou 10 anos. Agora chegou a hora de cada um ir em frente. Vou lançar O Que Você Quiser e, enfim, partiu sempre em frente."
Divergências?
Sobre recentes declarações de Bonfá a respeito de um afastamento por "incompatibilidades ideológicas", Dado demonstra certa perplexidade e discorda:
"Ideologias? Não, acho que não tem nada a ver. Realmente não entendo. Eu acho que é assim: você ter uma banda e estar aí há 40 anos... Banda é banda, vai ter divergências. Não tem como."
Dado também rechaça possíveis divergências políticas com Bonfá e finaliza:
"Eu acho que não é uma questão de ideologia política, não. Acho que o lugar do artista é no palco, e o palco já é um ato político. Ali você tem as nossas canções, e eu acho que elas falam tudo."