Quando surgiu para o mundo, na primeira metade da década de 1980, o Metallica era a força mais revolucionária da história jovem do metal. Uma banda que despiu todos os excessos atribuídos ao gênero em favor de velocidade, técnica e agressão pura. Não à toa seu álbum de estreia, Kill Em All (1983), quase foi batizado Metal Up Your A** (Metal na sua bund*). Em comparação a isso, Load (1996) parece obra de outro grupo.
Em 1996, o quarteto apareceu de cabelo curto, delineador e com um som mais semelhante aos artistas que eles tiravam sarro. Os fãs de longa data ficaram estupefatos, mas até que deu certo do ponto de vista comercial.
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Vida no topo
O Metallica havia alcançado o patamar mais elevado do mainstream com o disco Metallica (1991), apelidado pelos fãs de The Black Album. Nele, a banda já havia abdicado de parte dos elementos sonoros que a levaram a esse ponto. As músicas não eram mais tão rápidas e a agressividade começou a suavizar, a ponto do álbum ter baladas como "Nothing Else Matters" e "The Unforgiven".
Entretanto, o cenário em torno do grupo mudou drasticamente em menos de três anos. Kurt Cobain faleceu, acabando com o Nirvana e derretendo a ascensão do movimento grunge. O Guns N' Roses virtualmente implodiu em meio a excessos. O Pearl Jam começou a boicotar seu próprio sucesso.
De repente, o Metallica se viu sozinho no topo da hierarquia do rock. James Hetfield (voz e guitarra), Kirk Hammett (guitarra), Jason Newsted (baixo) e Lars Ulrich (bateria) encararam isso como prova de sua invencibilidade. Enquanto todo mundo tropeçou, a banda continuava de pé. E agora eles queriam esbanjar.
Cinco anos de material
Quando Hetfield e Ulrich finalmente se sentaram para trabalhar no material do que seria o sucessor de Metallica, a quantidade de ideias era superior a qualquer outro álbum. Em entrevista à Metal Hammer, James atribuiu isso a um acúmulo devido ao espaço entre discos:
"Todo esse material se acumulou na estrada. Havia sacos e sacos de fitas com riffs... coisas que havíamos acumulado em cinco anos sem compor. Primeiro foi tipo: 'Ok, vamos parar em 20 músicas'. Então continuávamos e dizíamos: 'Tudo bem, vamos parar em 30'. Foi completamente louco."
Um aspecto dessas fitas era a presença de um som completamente diferente do thrash metal que os deixou famosos. Os integrantes nunca esconderam suas influências além da música pesada, com blues, southern rock e hard rock setentista sendo mencionados juntos de Black Sabbath, Motörhead, Diamond Head e afins. Agora, o Metallica estava se apoiando nesses artistas fora do metal para seu próximo trabalho.
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Entretanto, não houve uma decisão consciente de mudar tudo sobre o som da banda. Também durante entrevista à Metal Hammer, o produtor Bob Rock explicou que a principal mudança nas sessões de Load, realizadas entre 1995 e 1996, foi colocar todos os quatro para gravar juntos, como se estivessem ao vivo. Fora isso, ele afirmou tudo ser fruto da vontade do Metallica:
"Uma das coisas mais admiráveis sobre a banda é que eles realmente não pensam em termos de reações das pessoas. Eles apenas fazem o que sentem ser certo para eles. Eles não levam em conta o que as pessoas pensam. Quando seguem em uma direção e assumem um compromisso de fazer algo, eles simplesmente fazem. E não se limitam."
O álbum em si
Apesar de ser bem avaliado na época e ter passado por uma nova apreciação com o passar do tempo, é impossível falar de Load sem apontar: não foi esse álbum que iniciou o movimento de fãs pedindo para o Metallica retornar à sua sonoridade clássica. Há de se argumentar que isso começou com Metallica. Entretanto, o Black Album conseguiu vencer o ceticismo do público na força de seu material — como resultado, dezenas de milhões de cópias vendidas e o trabalho mais bem-sucedido da história do heavy metal.
https://www.youtube.com/watch?v=4FKYsUEuvIo&list=RD4FKYsUEuvIo&start_radio=1&pp=ygUObWV0YWxsaWNhIGxvYWSgBwE%3D
Load não teve o mesmo privilégio. A razão é simples: as músicas não são do mesmo nível daquelas feitas para seu antecessor.
O primeiro single, "Until It Sleeps", estabelece um padrão de músicas que começam lentas e contemplativas para explodir no refrão, mas estas frequentemente falham em atingir a catarse adequada. A balada com toques de country "Mama Said" é bonita, mas soa estranha vinda do Metallica, em parte pelo o som do álbum em geral.
As influências além do metal ficam em conflito constante com a produção moderna de Bob Rock. "King Nothing", é talvez a melhor faixa do trabalho justamente porque soa mais confortável nessa sonoridade. O fato de soar como Black Album também ajuda.
https://www.youtube.com/watch?v=Xz9DX_VMXdI&list=RDXz9DX_VMXdI&start_radio=1&pp=ygUObWV0YWxsaWNhIGxvYWSgBwE%3D
O álbum pode ter sido feito por uma banda que se via em plenos poderes, mas essa não é a impressão passada pela obra. Há uma tensão constante, como se o Metallica quisesse manter sua identidade sonora e ser 20 outras coisas paradoxais ao mesmo tempo.
Criou-se então um conflito. O Metallica queria ser como seus heróis, quando seus fãs queriam que a banda fosse ela mesma. O problema, como o próprio Bob Rock apontou, era simples: Load, que ainda assim vendeu 5 milhões de cópias somente nos Estados Unidos, era o grupo sendo verdadeiro a si próprio, para incômodo do público. O mesmo vale para Reload (1997), disco de sobras dessas sessões.
O momento no qual Hetfield, Hammett e Ulrich perceberam a crise de identidade só ocorreu em St. Anger (2003). Mesmo assim, demoraram mais cinco anos para fazer as pazes com seu passado em Death Magnetic (2008).