Após a Apple Corps, gravadora dos Beatles, processar a Apple de Steve Jobs pelo uso da marca no setor musical, nasceu uma provocação histórica. Durante a disputa em 1991, o engenheiro Jim Reekes precisou renomear sons do Mac e batizou um bipe como "Sosumi", trocadilho irônico para a frase em inglês "so sue me" ("então me processe"). A batalha sobre o uso do nome durou décadas, custou milhões em multas e só foi pacificada em 2007, atrasando a chegada da discografia da banda às plataformas digitais.
Quem usou um Mac a partir do System 7, lançado em maio de 1991, provavelmente já ouviu uma provocação aos advogados dos Beatles. O deboche se trata de um bipe chamado "Sosumi", criado pela equipe de Steve Jobs.
A origem da briga entre o magnata da tecnologia e os Fab Four está no amor compartilhado por maçãs. A Apple Corps, gravadora fundada pelos Beatles em 1968, utilizava desde seus rascunhos a imagem e nome da fruta, assim como a fabricante de computadores criada em 1976 por Steve Jobs, Steve Wozniak e Ronald Wayne. A confusão, com ambas as empresas levando o mesmo nome e representações similares da mesma fruta, tomou porte legal apenas dois anos após a criação da Apple Inc.
A primeira ação judicial veio em 1978, e só três anos depois a Apple fechou um acordo. Além de uma multa de 80 mil dólares, os futuros gigantes da tecnologia assinaram um contrato se comprometendo a não entrar no mercado da música. (via TMDQA!). A promessa durou até os Macs ganharem recursos de gravação e reprodução de áudio e MIDI. Com a possibilidade musical no instrumento, a empresa dos Beatles voltou aos tribunais em 1989, alegando que o acordo havia sido quebrado.
Um novo acordo foi firmado em 1991, em que a Apple Corps manteve os direitos sobre "criação musical", enquanto a Apple Inc. ganhou a possibilidade de "reproduzir e entregar" conteúdos musicais. Mais uma vez, a empresa teve que pagar uma multa, dessa vez de exorbitantes 27 milhões de dólares.
Foi nesse clima que o engenheiro de som Jim Reekes foi encarregado de renomear todo efeito sonoro com nome musical. Um deles, um bipe de xilofone chamado Xylophone, precisava de outro título. Reekes pensou em Let It Beep, uma referência a "Let It Be", porém sabia que o departamento jurídico jamais aprovaria. Ao pensar em "so sue me", expressão que em tradução livre significa "então me processe", percebeu que aquele era o nome certo. Só faltava escrever de forma diferente, e assim nasceu "Sosumi".
Em entrevista à CNBC, Reeks relembra ter dito aos advogados que o novo nome era uma palavra japonesa, sem nenhum significado musical. "Foi assim que surgiu o som do Sosumi", explicou o engenheiro de som. "Na verdade, eu estava debochando dos advogados." Confira o bipe abaixo:
Em uma cena cortada do documentário Welcome to Macintosh (2008), recuperada por Reeks em seu site oficial, o engenheiro confessa que uma música dos Beatles inspirou outro de seus bipes mais famosos. "No final de "A Day In The Life", dos Beatles , após o longo crescendo atonal, há um som incrível. Lembro-me de tê-lo escutado com muita atenção diversas vezes. Provavelmente um dos acordes mais famosos. Foi uma inspiração fundamental (com o perdão do trocadilho) para o som de inicialização do meu Mac. Ouça o acorde final de "A Day In The Life" e, agora que conhece minha piada interna, espero que dê uma risada". Confira um comparativo aqui.
"Numa interessante ironia do destino (e eu adoro ironias), o som Sosumi surgiu devido a uma disputa de marca registrada. Meu som mais famoso agora é oficialmente uma marca registrada da Apple (por que demoraram tanto?)", continuou Reeks. "Uma marca registrada de som é rara. Alguns dos poucos exemplos são a fanfarra orquestral da 20th Century Fox , os sinos da NBC (que também são baseados em um acorde de Dó Maior) ou a " nota grave " da THX." Sobre o processo técnico da criação do áudio, o engenheiro de som recaptula: "Gravei o som com uma variedade de sintetizadores e efeitos. O som principal foi feito em um Korg Wavestation . Ainda o tenho guardado no armário. Talvez eu devesse leiloá-lo para conseguir algum dinheiro."
Em 2003, com a chegada do iTunes, a Apple foi processada de novo, dessa vez por usar o tradicional logotipo com o formato de uma maçã na operação do aplicativo. Em 8 de maio de 2006, um tribunal de Londres deu ganho de causa à Apple Inc. A paz total veio em 2007, quando a Apple Inc. passou a deter todos os direitos sobre a palavra "Apple" (maçã) e cedeu parte do uso da marca à empresa dos Beatles. Na época, Jobs comemorou em um comunicado, afirmando que "era doloroso estar em disputa com eles" (via TMDQA!).
Mesmo assim, a banda só entrou no iTunes em 201o. Se a batalha jurídica ou a organização tecnologicamente conservadora da banda foi a responsável pelo atraso na entrada dos Beatles no mundo digital ainda é debate. Os Beatles foram praticamente a última grande banda a chegar ao streaming, adentrando a plataforma na véspera do Natal de 2015.