Livro resgata poeta francesa esquecida que batizou o Rio de 'Cidade Maravilhosa'

Ao contrário do que muita gente pensa, a origem da expressão "Cidade Maravilhosa", imagem que se transformou internacionalmente no símbolo do Rio de Janeiro, não é a famosa marchinha de Carnaval de André Filho, escrita em 1935. Uma pesquisa inédita do jornalista Rafael Sento Sé resgata a verdadeira autora: a poeta francesa Jane Catulle Mendès.

2 mar 2026 - 14h21

Rafael Sento Sé revela a história no livro "A poeta da Cidade Maravilhosa; Jane Catulle Mendès e a viagem que criou o sonho de um Rio de Janeiro na Belle Époque", publicado pela editora Autêntica. A escritora e jornalista "engenhosa, de personalidade marcante, que na França desafiava convenções sociais" visitou o Rio de Janeiro em 1911 e foi a primeira a falar em "Cidade Maravilhosa".

Capa do livro "A poeta da Cidade Maravilhosa".
Capa do livro "A poeta da Cidade Maravilhosa".
Foto: © autêntica / RFI

Rafael Sento Sé conta que chegou à poeta quase por acaso, durante suas pesquisas sobre a memória e a história da cidade. Ele buscava a origem do epíteto e encontrou referências ao livro "La Ville Merveilleuse", escrito por Jane após sua viagem ao Rio. Ao tentar publicar trechos dos poemas, percebeu que jamais haviam sido traduzidos para o português. O espanto o levou a aprofundar a investigação.

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"Eu me dei conta de que nenhum dos poemas que ela escreveu sobre o Rio nunca tinham sido traduzidos para o português", diz.

A pesquisa se estendeu por 13 anos e envolveu consultas a acervos digitais e visitas a Paris. "O forte da pesquisa eu fiz remotamente, mas fui a Paris em duas ocasiões para complementar informações."

Jane Catulle Mendès (1867-1955), crítica teatral, jornalista e poeta, foi também uma pioneira em questões relacionadas à emancipação feminina. Quando chegou ao Rio, já era viúva de Catulle Mendès, um dos fundadores do parnasianismo, e percorria o mundo dando conferências, pagas, sobre literatura e a mulher francesa.

Embora não se declarasse feminista, sua postura influenciou outras mulheres do período. "A liberdade com a qual a Jane se expressava e expressava o desejo feminino em suas poesias me chamou muito a atenção", lembra o biógrafo.

Belle Époque carioca

No Rio da Belle Époque, ela encontrou um movimento feminino nascente. O Partido Republicano Feminino, fundado por Leolinda Daltro, tinha acabado de ser fundado. Durante sua visita, aproximou-se de Júlia Lopes de Almeida, que foi uma escritora que fez muito sucesso naquela época e foi uma das fundadoras da Academia Brasileira de Letras, embora, por machismo, nunca tenha ocupado uma vaga na instituição.

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Posteriormente, quando voltou a Paris, Jane homenageou Júlia em um dos "Gala Franco-Brésilien" que promovia para celebrar a cultura do Brasil e do Rio.

"Foi um momento de muito reconhecimento da cultura brasileira. E ela convidou as maiores escritoras francesas daquela época. Muitos artistas, tanto franceses quanto os brasileiros, também compareceram a esse jantar. Foi um momento do qual os cariocas e os brasileiros se orgulharam muito", ressalta Sento Sé.

O livro também reconstrói o cenário do Rio no início do século XX, quando a cidade disputava com Buenos Aires o título de "Paris dos Trópicos" e acabava de realizar grandes reformas urbanísticas inspiradas pelo barão de Haussmann. A recepção calorosa que Jane recebeu explica seu impacto. Ela pretendia ficar três semanas, mas acabou permanecendo três meses.

"Quando ela escreve que o Rio é uma cidade maravilhosa, aquilo foi um motivo enorme de orgulho", indica.

"La Ville Merveilleuse"

O livro "La Ville Merveilleuse" foi publicado em 1913, dois anos depois de Jane voltar do Brasil. Ele é composto por 33 poemas parnasianos, gênero já quase em desuso no momento da publicação. Além do título, o verso "Límpida manhã, oh cidade maravilhosa!", do poema "Meditação", reforça a imagem do Rio.

A obra foi muito bem recebida pela crítica, tanto brasileira, quanto francesa. O poeta Olavo Bilac e e o escritor João do Rio, por exemplo, elogiaram a publicação e ajudaram a difundir o epíteto.

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Rafael Sento Sé defende que, embora haja registros anteriores isolados da expressão, foi Jane quem realmente lhe deu sentido e propagação. "Teve quem falasse antes, mas caiu no esquecimento. O que a Jane falou foi referendado pelo João do Rio, pelo Olavo Bilac. Eu não tenho dúvidas de que foi ela que inventou esse epíteto."

Apagamento histórico

Apesar disso, "La Ville Merveilleuse" jamais foi traduzido ou publicado no Brasil, o que contribuiu para seu apagamento, acredita o biógrafo. "É um tipo de poesia muito rebuscado, difícil de acompanhar, e isso pode ter desencorajado tradutores", diz o autor.

Com a entrada dos poemas em domínio público agora em 2026, ele planeja lançar uma tradução integral.

O esquecimento da poeta, segundo ele, tem múltiplas causas: a ascensão das vanguardas após a Primeira Guerra, que desvalorizou o parnasianismo; a disputa de paternidade da expressão com a família do escritor Coelho Neto que reivindica a primazia; e o machismo da época.

"A marchinha 'Cidade Maravilhosa' foi o que consagrou definitivamente a expressão. Nnca mais ninguém deixou de cantar essa música. Este ano, são 90 carnavais da marchinha desde que ela se consagrou, estourou, no carnaval de 1936. E a Jane, o que aconteceu? Tem certamente uma dose de misoginia e de algum preconceito contra a mulher. É difícil dar o braço a torcer que uma mulher tenha criado algo tão popular", analisa.

Ao celebrar o resgate histórico de Jane Catulle Mendès, Rafael Sento Sé conclui a entrevista com um "viva a Cidade Maravilhosa", lembrando que o Rio de Janeiro completou 461 nesse 1° de março.

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