"Quanto mais desconfortável é dizer algo em voz alta, mais importante é colocar no papel". Para Jennette McCurdy, esse é o lema que a guia ao escrever. E foi o que a orientou na produção de Metade da Idade Dele, livro que chega às livrarias em abril pela editora Intrínseca, três anos depois da autobiografia Estou Feliz que Minha Mãe Morreu levá-la ao status de autora best-seller.
Hoje com 33 anos, a escritora americana ganhou fama jovem, quando deu vida à personagem Sam, nos seriados iCarly e Sam & Cat, da Nickelodeon. Se afastou da atuação e retornou aos holofotes anos mais tarde com revelações impressionantes sobre a sua adolescência, incluindo traumas deixados pela mãe abusiva e controladora, a luta contra um transtorno alimentar e um relacionamento problemático com um homem bem mais velho quando tinha apenas 18 anos.
Foi a raiva ainda acumulada sobre esse último tópico que a levou a escrever Metade da Idade Dele, que narra a relação entre Waldo, uma garota de 17 anos, e Sr. Korgy, um professor de escrita criativa casado e com filhos, já em seus 40 e tantos anos. "Eu começo qualquer projeto em que estou trabalhando de um lugar pessoal. Acho que essa é a única maneira de realmente injetar sua alma completamente em um trabalho. E acredito que a alma é necessária em qualquer obra de arte", diz Jennette ao Estadão.
Apesar da trama ser inspirada por uma história pessoal, ela reforça que o livro é uma ficção. "Waldo é sua própria personagem, e o mundo de Metade da Idade Dele é seu próprio mundo. Há muita pouca sobreposição entre as situações em que Waldo se encontra e aquelas em que me encontrei. Quer dizer, eu nem fui ao ensino médio [ela passou por educação domiciliar]."
Em Estou Feliz que Minha Mãe Morreu - livro que vendeu 4 milhões de cópias ao redor do mundo -, Jennette McCurdy narra brevemente este relacionamento com um homem mais velho, sem revelar sua identidade. Ele era produtor de televisão, tinha mais de 30 anos e mantinha uma namorada enquanto se relacionava com ela em segredo. A escritora teve suas primeiras experiências sexuais com ele; anos depois, entendeu como a situação era problemática.
(A autobiografia vai virar uma série da Apple TV, escrita e produzida por Jennette, com Jennifer Aniston no papel da mãe da autora. A equipe de relações públicas da escritora não permitiu perguntas sobre a produção. O Estadão também chegou a questionar como a repercussão da obra mudou a vida de Jennette, mas a pergunta foi cortada por um assessor.)
Em Metade da Idade Dele, a escritora não quis fugir das complexidades desse tipo de relação. Waldo, sua protagonista, é uma adolescente complexa: abandonada pelo pai e criada em um parque de trailers em Anchorage, no Alasca, ela vive sendo largada sozinha pela mãe, que passa mais tempo com o namorado do que com ela.
Waldo cuida da casa, se alimenta mal, passa tempo demais na internet e tem uma compulsão por compras diretamente relacionada aos problemas de autoestima. "A coisa que me atraiu para ela é que ela é muito espinhosa e multidimensional. Muitas vezes, quando você vê uma pessoa jovem retratada em qualquer tipo de mídia, especialmente mulheres, há esse instinto de torná-las mais palatáveis", diz Jennette.
Ela explica: "Há um instinto de torná-las excêntricas, de um modo desnecessariamente autodepreciativo e espirituoso. Não acho que essa seja uma experiência verdadeira de uma pessoa jovem. Essa não era a jovem que eu era, nem nenhuma das minhas amigas. Eu nunca vi uma pessoa jovem que não fosse complexa e lutando com essas complexidades."
Quando Waldo tem sua primeira aula com Sr. Korgy, o professor com quem se relaciona, imediatamente cria certa obsessão por ele. "Nas primeiras versões, eu o escrevi como um personagem mais explicitamente vilanesco. Acho que ele era mais óbvio, mais claramente manipulador em vez de ser sutil. Mas ele não parecia crível", conta a escritora.
A ideia para o livro surgiu pela primeira vez quando ela tinha 24 anos, durante uma viagem para o Japão. Mas ela só retomou a história depois que seu primeiro livro foi publicado. Para sua estreia na ficção, Jennette queria que sua história e seus personagens fossem os mais verdadeiros possíveis, até mesmo o homem que comete um crime ao se relacionar com uma menor de idade.
Sr. Korgy (como Waldo se refere a ele durante todo o livro, vale notar) é um escritor frustrado, que se conformou com a vida de professor, mas secretamente acha que merece mais do que tem. "Tive que não apenas torná-lo um pouco mais complicado, mas também realmente me colocar no lugar dele e ter empatia por ele, por mais desconfortável que seja dizer isso", explica.
Segundo a escritora, isso era importante também para que Waldo fosse uma narradora mais confiável. Ao ler o livro, estamos na mente dessa jovem que desenvolve uma fixação por seu professor, que corre atrás dele e que, conforme a relação progride, começa a moldar a própria aparência e personalidade em torno dele.
Muitas pessoas vão associar a trama ao clássico Lolita, de Vladimir Nabokov. A diferença aqui é que estamos vendo tudo acontecer do ponto de vista de uma menina - alguém que pensa saber muito, que provavelmente não enxerga a manipulação ao seu redor. É preciso ler as nuances, e Jennette afirma que confia em seus leitores para isso.
"Eu confio no meu público leitor. Na verdade, agora há pouco eu estava assistindo a resenhas que as pessoas fizeram de Metade da Sua Idade no TikTok. E eu vejo essas pessoas e penso que são inteligentes, interessantes e bem resolvidas que eu gostaria de conhecer", afirma. "E confio que meus leitores são capazes de lidar com temas complexos e chegar a conclusões por conta própria. Confio que eles não precisam que o material seja mastigado para eles."
E nada é mastigado mesmo. O livro tem cenas de sexo explícitas, que, para a autora, eram uma maneira de explorar como as dinâmicas de poder mudam ao longo da trama. "Tentei fazer essa coisa em que, se você pegasse o livro e tirasse qualquer capítulo que seja apenas uma cena de sexo e isolasse essas cenas, você poderia ver Waldo em um lugar emocional diferente em cada uma dessas cenas", conta.
"Não acho que seja apenas um produto do desejo", continua ela. "Acho que há muito mais por baixo disso. Há raiva, vergonha, humilhação, decepção. Você pode realmente sentir muito do que uma pessoa está passando se você conseguir entrar na mente dela durante o sexo. Felizmente, conseguimos fazer isso com a Waldo."
Sem perda de tempo
Tudo isso torna o livro difícil e bastante desconfortável de ser lido. Ao mesmo tempo, é uma leitura muito rápida, com capítulos curtos, diretos e pouco floreados. "Quero ir direto ao ponto e manter as pessoas envolvidas sem desperdiçar o tempo delas", diz Jennette.
Ela quer, sim, que o leitor se sinta desconfortável, mas não quer que ele pare de ler. "Estes não são leitores à procura de uma leitura leve e divertida para a praia. São pessoas que realmente conseguem lidar com temas complexos e eu acho que anseiam por isso", argumenta.
Anteriormente, ela chegou a dizer que o livro não era para homens héteros e que não acreditava que eles leriam a obra. Ao Estadão, a escritora esclarece: "Em geral, acho que a maioria dos homens heterossexuais não se interessaria por um livro assim, mas acredito que existe um pequeno grupo que se interessaria, e essas são exatamente as pessoas que o leem. Um livro te acha quando é a hora de lê-lo, eu realmente acredito nisso."
Jennette não parece preocupada com a percepção das pessoas. Depois de uma infância e adolescência conturbadas, ela se encontrou na escrita, e não pensa em parar. "Eu realmente espero que as pessoas me vejam como uma autora que inicia conversas e convida as pessoas a formarem suas próprias opiniões sobre assuntos complexos", afirma.
Metade da Idade Dele
- Autora: Jennette McCurdy
- Tradução: Carolina Simmer
- Editora: Intrínseca (256 págs.; R$ 69,90 | E-book: R$ 46,90)