Ex-chefão da Globo pede demissão após infarto na redação do ‘JN’ e expõe crise nos bastidores

Além da saúde, Fabrício Marta alegou que deixou o canal por estar 'sucateando' profissionais, coisa que ele não compactua

24 mar 2026 - 12h49
(atualizado às 13h38)
Fabrício Marta e Valéria Almeida
Fabrício Marta e Valéria Almeida
Foto: Reprodução | Instagram

O jornalista Fabrício Marta, que por décadas liderou o setor de produção de reportagem da Globo, decidiu pedir demissão do canal recentemente. De acordo com ele, sua saída foi motivada por uma série de mudanças organizacionais que estariam “sucateando” os profissionais e gerando caos nos bastidores.

Fabrício Marta começou relatando que, antes de se demitir --às vésperas do Carnaval--, sofreu um infarto em plena redação do Jornal Nacional. “Foram dois infartos: um sem cura e outro tratável, ao sabor da resiliência. A fisio cardíaca começará em três meses. Por enquanto, estamos tentando liquidar os trombos na área necrosada do coração. E tudo se deu às vésperas do Carnaval, na redação do Jornal Nacional. Foram duas semanas de CTI e um turbilhão de pensamentos de gente que não morre”, iniciou o ex-executivo em postagem nas redes sociais. 

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Em seu desabafo, para além da saúde, Fabrício Marta citou diversos problemas internos, como mudanças no programa Estagiar, o corte de horas extras e até ordens dadas por William Bonner às vésperas de deixar o Jornal Nacional. Tudo isso teria contribuído para sua decisão de deixar o canal após décadas de trabalho.

“O pedido [de demissão] foi feito aos meus chefes [por WhatsApp], ainda no hospital, e não está atrelado aos infartos, mas a conjunturas internas que não combinavam mais com quem eu sou. Minha missão, na Globo, foi encerrada por escolhas mal dimensionadas. Para mim, com ou sem stents, sempre valeu o escrito. Não sou moleque e muito menos signatário de atitudes incoerentes”, relembrou.

“Talentos mal aproveitados”

Fabrício Marta
Foto: Reprodução | Instagram

Em um dos trechos, Fabrício Marta fala sobre a sobrecarga de profissionais e o que considera descaso do canal com seu trabalho. “Muita gente ainda me pergunta, no privado, se pedir demissão da Globo foi, de fato, a decisão mais acertada. Sim, foi. Esse meu amigo está de férias e, talvez, fique bravo com essa postagem, mas ele é o somatório da minha desesperança naquele lugar. Vou dizer o nome — qualquer coisa, me processa. Helton Setta, produtor do Jornal Nacional: 25 anos de Globo”.

Em seguida, detalhou: “Você já ouviu falar na polilalamina?! Pois então: Setta acompanhou essa pesquisa por sete anos. O Fantástico exibiria uma reportagem especial sem sequer creditá-lo. O espanto partiu da fabulosa dra. Tatiana Medeiros. O tema ganhou notoriedade na imprensa mundial, mas as chefias do Jornalismo Globo foram incapazes de redigir um e-mail sequer celebrando o colega”.

“Além de jornalista (Uerj), Setta é graduado em Ciências Sociais (UFRJ) e agora retornou à Uerj para integrar a primeira turma de Arqueologia. Fala inglês, espanhol, alemão e italiano, mas nunca foi convidado para qualquer função nos escritórios internacionais da Globo. E, agora, a cereja do bolo: está há 10 anos sem uma promoção. Repetindo: 10 anos. Eu, como chefe de produção, jamais assinaria esse recibo”.

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“Diversidade para inglês ver”

Ju Massaoka e Fabrício Marta
Foto: Reprodução | Instagram

Outra razão que motivou a saída de Fabrício Marta, segundo ele, foi a “desconfiguração” do programa Estagiar, espécie de processo seletivo da Globo que permitia que estudantes de diferentes origens se candidatassem a vagas no jornalismo.

“Roberto Marinho ainda não havia criado a Globo, mas já existia o Projeto Estagiar. Um programa dedicado a garimpar estudantes de diferentes nichos. No Jornalismo, não havia perfumaria: entravam os que tinham parafusos soltos e sangue na boca. Quanta gente fabulosa avançou na empresa, ocupando cargos de chefia, via Estagiar. Agora a Globo fechou uma parceria com a PUC-Rio, em busca de novos estagiários: 100 pessoas entraram nessa primeira leva”.

“São pessoas afáveis, dedicadas, comuns. Mas o questionamento é: a PUC não trará o rapaz do Quitungo, a mocinha de Rocha Miranda, o carinha de Realengo, o cria da Maré. O Estagiar cansou de pescar estagiários na PUC, porque eram tão maravilhosos quanto os cotistas da Uerj, UFRJ, UFF, UFRRJ e por aí vai. Os tempos mudam, mas não há nota em pingo d’água. Sabe aquela tal diversidade? Pois é!”.

“O fim das horas extras”

Fabrício Marta e Fátima Bernardes
Foto: Reprodução | Instagram

Ainda em seu desabafo, Fabrício falou sobre um dos pontos que o levaram ao estopim: o fim das horas extras. Segundo ele, um dos pedidos mais difíceis de seus superiores foi comunicar o corte aos subordinados.

“Fui convidado a convocar produtores que ganhavam horas extras e avisá-los sobre o corte, no facão, já no mês corrente. Esse mal ajambrado foi lavrado e validado pela antiga direção regional de Jornalismo, mas coube a mim anunciar a nova condição salarial da equipe. Um produtor tinha cinco horas extras por dia — apalavradas de boca — e quase passou mal ao saber do corte”.

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“Ele estava pagando a faculdade da mãe. A mim coube aquietá-lo, mas também incentivá-lo a buscar alternativas profissionais dignas. E esse produtor trabalha, viu?! Deixar a Globo é deixar um sistema adoecido pela falta de sensibilidade e nutrido pela malandragem. Por que não houve um comunicado oficial? Por que cada caso não foi avaliado individualmente? Aos meus produtores, podia ser unha encravada — eu dizia: ‘Pode dizer que eu autorizei o Uber!’. A mesquinharia de um ambiente mofado de sobrevivência ao trabalho se dá pela pobreza de espírito que o cerca”.

O ex-chefão Marta ainda afirmou que, após oficializar sua saída da emissora, decidiu se voltar à fé. “Quando fiz a minha homologação, em seguida rezei uma missa, na Igreja de São José, na Lagoa, em intenção a Roberto Marinho. Sou grato, se não fosse ele, não seria quem sou hoje. A missa foi também um jeito de dar um ‘pedala, Robinho’ no ‘Dr.’, amistosamente. Disse a ele que o patrimônio está virando pó”.

'O pedido de William Bonner'

Placa colocada após ordem de William Bonner
Foto: Reprodução | Instagram

Para além das críticas com relação a mudanças organizacionais, Fabrício Marta ainda alfinetou uma das ordens de William Bonner antes de sair da bancada do noticiário. "Ele proclamou, dias antes de deixar o JN, que o cenário do telejornal era um 'santuário' e exigiu providências quanto o acesso de visitantes. No dia seguinte, brotou essa placa medonha e antipática na redação. A marca de um cara que tinha tudo pra ser Deus resumida a um recado de síndico decadente", opinou ele, sobre a decisão do também jornalista.

O Terra busca contato com a assessoria da Globo. O espaço segue aberto para manifestação. 

Fonte: Portal Terra
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