No ano passado, eu estava no sótão da casa onde cresci, cercado por caixas antigas, poeira acumulada e um silêncio que apertava meu coração. Eu e meus irmãos havíamos voltado ali depois da morte da nossa mãe, com a tarefa de organizar tudo o que ficou para trás.
Achávamos que encontraríamos papéis, objetos comuns, fotos e lembrancinhas previsíveis... mas o que não esperávamos era descobrir versões dos nossos pais que nunca nos foram apresentadas.
Se você faz parte da chamada 'geração sanduíche', dividida entre cuidar dos pais e criar os próprios filhos, talvez acredite que já sabe tudo sobre eles. Eu também acreditava, até perceber que algumas verdades só descobrimos quando já não temos mais ninguém para explicá-las.
Cartas de amor de antes de você existir
Entre caixas esquecidas, encontrei uma simples caixa de sapatos. Dentro delas estavam muitas cartas. Não eram apenas do meu pai para minha mãe, mas de um amor anterior, da época da faculdade. Palavras intensas, sonhos compartilhados, promessas de um futuro que nunca aconteceu... ler aquilo foi como conhecer uma mulher que nunca vi: apaixonada, poética e, por mais incrível que pareça, vulnerável.
O que mais me marcou não foi o conteúdo, mas o fato de ela ter guardado tudo por décadas, inclusive as cartas do meu pai. Foi como presenciar dois amores, duas fases, duas versões dela mesma, preservadas no silêncio do sótão de casa. Aquilo dizia mais sobre quem ela foi do que qualquer conversa que tivemos.
Registros financeiros que cont...
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