A morte precoce de Lua Blanco, aos 39 anos por complicações de um câncer, relembrou sua trajetória singular. Neta de Billy Blanco, ela foi alfabetizada em inglês e teve uma criação comunitária rígida e ligada à natureza, sem TV ou doces. Estimulada pelo pai a cantar desde a infância, alcançou o estrelato na novela Rebelde. Com visão madura sobre os perigos da fama passageira, a artista priorizou a arte, unindo com paixão a música e a dramaturgia em peças e espetáculos musicais no teatro.
A despedida precoce de Lua Blanco, aos 39 anos neste domingo (18) por conta de complicações de um câncer, trouxe à tona diversas curiosidades sobre sua trajetória. Para além do sucesso avassalador que conquistou na juventude como a rebelde Roberta Messi, a artista teve um processo de formação nada convencional, sendo educada em um ambiente isolado dos costumes urbanos tradicionais e alfabetizada primeiro na língua inglesa.
Filha do artista Billy Blanco Jr. e da professora Maria Claudia Blanco, a cantora cresceu ao lado de cinco irmãos em um estilo de vida comunitário com forte ligação com a natureza. A rotina em casa impunha dinâmicas próprias, onde o uso da TV e o consumo de doces industrializados eram terminantemente proibidos.
Sobre essa criação diferenciada, a eterna estrela teen relembrou em entrevista antiga os detalhes dessa vivência singular. "Morávamos numa comunidade, mas tinha uma certa caretice que envolvia as crenças cristãs. Mas, além disso, eu, minha mãe (a professora e musicista Maria Claudia Blanco), meu pai e meus irmãos vivíamos numa realidade paralela: não víamos TV, não tínhamos acesso a coisas que as pessoas da cidade tinham. Já moramos em sete lugares diferentes do estado do Rio, além de Salvador (BA) e no Peru… Tínhamos muito contato com o verde, só comíamos alimentos naturais, não conhe tínhamos açúcar. Só fui saber o que era bala e goma de mascar na adolescência. Talvez por isso eu seja viciada em chiclete. Mas é sem açúcar ainda (risos)", pontuou a artista ao veículo O Globo.
Rituais em público e a influência musical da família
Como neta do consagrado compositor Billy Blanco, a música sempre esteve no DNA de toda a estrutura familiar. Para perder a timidez nos palcos da vida, o patriarca costumava submeter os filhos a apresentações de surpresa em locais públicos, gerando um certo constrangimento nos herdeiros durante os anos de infância.
Apesar da vergonha inicial, esse hábito ajudou a moldar a paixão de Lua Blanco pelos palcos. "A gente entrava cantando de surpresa, e isso aconteceu dos cinco anos à adolescência. Muitas vezes, eu tinha vergonha de ir a um restaurante porque alguém da escola podia me ver cantando. Eu dizia: "Pai, que vergonha!". E ele falava, até ver a gente maiorzinho, que nada tinha mudado e tínhamos que cantar", contou ela na época.
A influência do pai acabou sendo o divisor de águas para sua escolha profissional. "Sempre gostei de cantar e nada melhor do que poder trabalhar com aquilo que você gosta. Nunca soube a vida de outra forma, sempre cantei, desde pequena, com a minha família e, quando surgiu a oportunidade de trabalhar com isso, foi um prazer maior ainda, porque é o que gosto", ponderou a artista à revista CARAS Brasil, completando em seguida. "Foi meu pai quem me ensinou a cantar, a gostar e me cercar por música, a amar os Beatles e o Woody Allen, filmes musicais e cultura de uma forma geral. Com certeza ele influenciou meu amor pela arte e principalmente pelo canto", ressaltou a famosa.
Visão sobre os perigos da fama e o amor pelo teatro
Com a explosão de popularidade na televisão, a atriz precisou assimilar rapidamente o peso da projeção nacional. No entanto, ela mantinha uma postura bastante madura em relação ao assédio do público e à vaidade do meio artístico.
"A fama é perigosa, complicada, não pode ser o fator que motiva. O foco tem que ser a arte, o que você está criando, oferecendo ao mundo, de que forma esse trabalho vai tocar a vida de alguém. Isso eu aprendi. Tive um choque grande em Rebelde, foi um processo de digestão dessa ideia para mim. Pensava : 'Calma, o que quero?' E quando se entende que a fama é apenas o resultado fugaz do trabalho, então foca em atuar, cantar e fazer o melhor sempre, com a mesma paixão. Independentemente de ser uma peça para dez pessoas ou centenas", refletiu a carioca.
Dessa forma, a conciliação entre a dramaturgia e o canto tornou-se o grande objetivo de sua vida, consolidado através dos musicais no teatro. "Canto desde pequena, mas quando apareceu a interpretação, decidi que queria isso para a vida. Minha vontade sempre foi a de conciliar essas duas artes. Fiz o espetáculo O Despertar da Primavera, em 2009, e me apaixonei pelo gênero musical. Agora veio Se Eu Fosse Você. O processo de montagem foi intenso. Ralei para combinar os ensaios com a novela. Mas, agora, em cartaz e vendo o teatro encher todos os dias, não tenho dúvida de que valeu a pena o esforço. Faço o que amo", concluiu.