Apresentadora Petria Chaves defende a construção do silêncio e a intuição como caminhos para uma vida mais saudável

Em seus livros, a radialista da CBN ressalta a importância de um ‘mergulho interno’ para sobreviver ao mundo caótico

31 ago 2026 - 08h45
(atualizado às 08h46)

“Todos os problemas da humanidade derivam da incapacidade do homem de ficar quieto, sozinho, em silêncio”, afirmou o filósofo e matemático francês Blaise Pascal.

Talvez ele tenha sido radical, mas há coerência.

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Decisões erradas, capazes de mudar para pior o rumo de uma pessoa ou do planeta, podem ser evitadas a partir de alguns minutos de reflexão silenciosa.

Mas eis o problema: a incapacidade da maioria de nós de suportar a ausência de estímulos auditivos.

TV ligada, música no fone de ouvido, vídeos no celular, buzinas nas ruas, vizinhos barulhentos… Por isso, o silêncio tão necessário precisa ser construído.

É o que defende e explica a jornalista Petria Chaves, apresentadora do ‘Revista CBN’, da rádio CBN, em seu livro ‘Escute Teu Silêncio’ (selo Academia).

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Em conversa com a coluna, ela ressalta também o valor da intuição, essa percepção tão pessoal cada vez mais difícil de ser ouvida devido ao volume de influências externas.

A jornalista Petria Chaves afirma ser necessário treinar a escuta da voz interior para ter mais consciência de si mesmo
A jornalista Petria Chaves afirma ser necessário treinar a escuta da voz interior para ter mais consciência de si mesmo
Foto: Divulgação

O silêncio seria perturbador para algumas pessoas por obrigá-las a ouvir a voz interior?

Sim, justamente por obrigá-las a ouvir a própria voz interior, que, em primeiro lugar, elas nunca foram ensinadas a escutar. Em segundo, têm muito medo de ouvi-la, porque tudo o que lhes foi ensinado é que aquilo que elas são está errado, que o que desejam para si mesmas é errado. Somos ensinados culturalmente a seguir padrões, até mesmo de profissão e de comportamento. Isso não quer dizer que vamos sair tresloucadamente fazendo tudo o que quisermos, tudo o que nossa mente maluca desejar apenas porque estamos escutando nossa voz interior. Não. O treino dessa escuta interna traz muita paz e muita sabedoria, além de um contato profundo com a natureza de dentro e de fora.

Estamos desconectados de nós mesmos?

Por estarmos tão cercados de barulhos diversos, de condicionamentos, de opiniões alheias, do nosso autojulgamento e também do nosso auto-ódio, esse encontro pode ser difícil. Dou o exemplo das mulheres e falo sobre isso no meu primeiro livro (‘Escute Teu Silêncio’): essa construção cultural de auto-ódio em relação ao próprio corpo, sempre querendo ser mais jovem, mais magra, diferente do que se é. Quando você para tudo para ouvir sua voz interna e perceber quem de fato é, sem todos esses nomes que o mundo coloca em nós, isso pode ser muito assustador, porque é simples demais e também porque não nos leva ao autoengano. Deparamo-nos com as máscaras e os personagens que criamos durante a vida inteira para sobreviver, com as couraças que construímos para suportar este mundo difícil. Talvez, então, nós nos vejamos muito vulneráveis, muito frágeis, quando tentamos ouvir essa voz interior.

Petria Chaves ressalta que mergulhar no silêncio pode ser assustador e requer acompanhamento especializado
Foto: Divulgação

Como exercitar essa autoescuta a partir do contato com o silêncio?

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Para algumas pessoas, pode ser muito assustador, como ocorreu, por exemplo, na pandemia. Havia pessoas que, sozinhas em casa, ficavam com o rádio ou a televisão ligados o dia inteiro para não permanecer em silêncio. Tinham medo do silêncio. Isso é muito interessante e é algo muito ocidental. Não somos ensinados, desde pequenos, a lidar com o nosso mundo interior. Ao entrevistar a Monja Coen, ela disse que, assim como não mergulhamos sozinhos em uma piscina de oito metros de profundidade sem um instrutor, mergulhar no mundo interno sem orientação também pode ser assustador e nos levar a lugares muito estranhos. Por isso, não recomendo que façamos sozinhos esse mergulho no silêncio interior. Há muita literatura, muita filosofia e muitos professores, principalmente conectados às filosofias do Oriente, que podem nos ensinar a realizar esse mergulho interno — por meio da meditação e do silêncio — de maneira gentil, já que, durante uma vida inteira, fomos ensinados a não nos ouvir.

Por que esse medo de se conhecer profundamente?

É normal sentir medo, sentir aflição. A mente, de certa maneira, quer nos proteger de tudo o que é desconhecido e nos proporcionar conforto. A mente é algo muito precioso, porém, hoje, nós a usamos para nos machucar. Portanto, o treino da mente, para que ela seja uma aliada, é feito com o treino do silêncio e precisa da orientação de professores já letrados e versados nessas técnicas. É difícil ser autodidata. Eu mesma, desde os meus 18 ou 19 anos, estudo com professores e professoras sobre meditação, yoga e essa engenharia interior. Então, por um lado, pode ser muito assustador. Mas é justamente por isso que, da mesma maneira que fazemos faculdade, mestrado, doutorado ou PhD, da pele para fora, também temos de nos versar da pele para dentro. É preciso estudar de maneira profunda e não achar que se trata de algo simples ou leviano. Deve ser levado a sério.

A apresentadora afirma que ter momentos de silêncio é imprescindível à saúde mental de moradores de grandes cidades como São Paulo
Foto: Divulgação

Em uma cidade barulhenta como São Paulo, ter silêncio é quase impossível. Dá para encontrar algum silêncio particular numa metrópole?

Com certeza, é possível encontrar silêncio, e precisamos construí-lo. Esse silêncio precisa ser intencional e consciente. No meu segundo livro, ‘Como Sei o que Sei’ (selo Academia), falo muito sobre essa atitude consciente na criação de bolsões de silêncio. Falo sobre isso justamente depois de ter pesquisado profundamente a escuta e o silêncio no meu primeiro livro. ‘Escute Teu Silêncio’ é a obra na qual aprofundo a pesquisa sobre a necessidade que temos do silêncio como ferramenta de autorregulação. Por exemplo, em uma cidade tão barulhenta como São Paulo. É aí que o silêncio se faz ainda mais necessário, porque, convidados ao estímulo a todo momento, saímos continuamente do nosso equilíbrio.

Na prática, como agir?

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Assim como fazemos dietas e buscamos uma alimentação saudável, precisamos também de uma dieta saudável, por assim dizer, em relação aos sons, aos estímulos, às redes sociais e a tudo o que, de certa forma, entra no nosso campo de informação pela visão, pela escuta e pela cognição. Criar conscientemente bolsões de silêncio é administrar o remédio de que precisamos justamente para enfrentar a crise de ansiedade que vivemos nas grandes cidades, além de tanta depressão e tanto Burnout (estado de esgotamento físico e emocional). Digo isso com base em dados do Ministério da Saúde a respeito do recorde de afastamentos do trabalho em razão desses males emocionais e mentais. Precisamos criar a autorregulação do sistema nervoso simpático e parassimpático. Sair do modo de luta ou fuga e ir para um modo de equilíbrio e contemplação, mesmo em meio ao caos.

Petria Chaves defende a escuta de dentro para fora e não somente ouvir o externo
Foto: Divulgação

Por que pessoas em silêncio ou que valorizam a pontual ausência de sons incomodam tanta gente?

Justamente por causa da nossa cultura, que é voltada da pele para fora. O que é valorizado hoje? A oratória, os grandes cargos, as fórmulas de como ‘chegar lá’ por meio de uma exposição melhor. Quando uma pessoa é versada da pele para dentro, nessa engenharia interna, nesse silêncio, ela incomoda porque emana uma espécie de poder. A pessoa que tem a capacidade de observar a si mesma e ao outro causa esse incômodo porque, geralmente, quem é muito extrovertido ou excessivamente voltado para fora percebe que a pessoa silenciosa está enxergando coisas que ele não está, e isso incomoda. “O que será que ela está pensando que eu não sei? O que será que ela está vendo que eu não estou vendo?” Inconscientemente, isso também causa desconforto porque, desde a infância, somos levados a nos expor. Você tem de falar, tem de preencher todos os espaços. Não. Não é preciso preencher todos os espaços. A harmonia se faz por meio dos silêncios entre as notas musicais. Para haver uma bela música, é preciso existir o ritmo harmonioso do silêncio. E assim também é com a vida.

Como isso interfere na nossa saúde mental?

Estamos diante de uma grande epidemia de males mentais, como depressão, ansiedade e Burnout. Hoje, valorizam-se apenas a ação e a atitude, e não o recolhimento, o ócio e a vida contemplativa. Quem fala muito bem sobre isso é o filósofo Byung-Chul Han, um dos meus grandes mestres no campo da filosofia, um dos autores que acompanho, leio e em quem me inspiro. Então, sim, incomoda porque, em algum lugar, uma sociedade muito barulhenta percebe os próprios erros, mas não quer parar, não quer respirar, quer continuar no automatismo. As pessoas contemplativas colocam o dedo no machucado de uma sociedade doída por tanto barulho. Precisamos ter mais harmonia e mais conexão entre os polos da vida. Costumo dizer, recorrendo um pouco à filosofia védica, que são prakriti e purusha, as duas dimensões (a consciência e a energia da matéria). O Ocidente, porém, não está habituado a cultivar a harmonia entre opostos. Tudo é polarizado. Hoje, estamos no auge da polarização, incentivada ainda mais pelas redes sociais e pelos algoritmos, que funcionam nessa lógica. Torna-se cada vez mais difícil percebermos as nuances que precisam ser notadas por meio do silêncio.

(Nota da coluna: o sul-coreano Byung-Chul Han é professor de Filosofia em Berlim. Um dos conceitos centrais de sua obra é o de sociedade do desempenho, na qual o indivíduo é induzido à autoexploração para produzir cada vez mais, o que pode levá-lo à completa exaustão.)

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A jornalista e escritora diz que a sociedade está "machucada" pelo excesso de barulhos
Foto: Divulgação

Pelas pesquisas para o seu livro ‘Como Sei o Que Sei’, chegou a concluir se a intuição é a voz da consciência, da experiência ou de algo que transcende a própria razão?

A intuição é a voz da sabedoria, que fala conosco por meio do silêncio. É a voz da sabedoria da natureza. Para Spinoza (filósofo holandês), a intuição é o terceiro grau de conhecimento, o ápice da inteligência humana. É um treino sofisticado de comunicação com a própria natureza. Temos também Henri Bergson, proeminente filósofo francês e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. Ele é considerado o filósofo da intuição porque realiza um estudo profundo, principalmente a partir do repertório das filosofias do Oriente, para entender onde está esse desencaixe ocidental em relação ao tempo, à experiência e à conexão com aquilo que não é visível. O mundo não é apenas aquilo que a matemática pode comprovar. Tanto que grandes cientistas, movidos pela intuição, sabem que o universo é muito maior do que a nossa lógica consegue explicar. A intuição é justamente essa ciência, essa sabedoria que opera em uma lógica diferente da lógica do intelecto e que capta as informações de maneira direta. Ela não passa por etapas, como o pensamento lógico ou matemático, chega a uma conclusão de forma direta. Isso pode ocorrer tanto pela soma da sabedoria que carregamos no próprio corpo — a sabedoria somática, a inteligência somática do corpo — quanto pela capacidade que temos de captar respostas do meio ambiente por meio da conexão com a natureza e com o inconsciente coletivo. 

Há estudos a respeito?

Hoje, pesquisas de ponta tentam comprovar se existe aquilo que, por exemplo, o professor Miguel Nicolelis chama de ‘brain net’ (rede cerebral, em tradução livre), uma sincronização cerebral coletiva, uma transferência de informação e de conhecimento entre seres humanos, entre organismos vivos, que colaboraria para a unidade dos povos, para o avanço das civilizações e para a conexão política. É também aquilo que Jung (psiquiatra e psicólogo suíço) estudava quando falava do inconsciente coletivo. Há, portanto, muitas maneiras de trocarmos informações além da forma que conhecemos intelectualmente. É aí que entra a intuição, como uma inteligência que acontece de maneira muito sutil, rápida e sem explicação lógica. Justamente pela dificuldade de a ciência definir como a intuição acontece, muitas vezes o discurso religioso se apropria dela e tenta explicá-la de forma mágica. Perdemos muito com isso, porque a intuição acaba transformada em misticismo. Foi por esse motivo que, em determinados momentos históricos, ela foi tão rechaçada e diminuída, quando é, na verdade, o grau máximo da evolução da inteligência humana. Por meio da intuição, do silêncio e do treino do corpo, conseguimos, com atenção e presença, captar respostas melhores para o nosso cotidiano, para a nossa vida e para o nosso próprio caminho.

Petria Chaves defende a criação de "bolsões de silêncio" nas grandes cidades para melhorar a qualidade de vida dos moradores
Foto: Ilustração feita por IA

Você tem longa carreira no rádio. O veículo continua sendo uma companhia intimista para os ouvintes diante da popularização dos podcasts?

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Sim, o rádio é uma companhia preciosa e analógica neste mundo tão veloz. O podcast tem uma proposta diferente, porque o rádio continua ligado ao que está acontecendo, ao que chamamos de factual. Ele traz informação. Tanto que durante os conflitos que vemos atualmente, sobretudo entre Rússia e Ucrânia, com a Europa sob risco de desabastecimento de carvão, uma das orientações dadas à população é ‘se alguma emergência acontecer, ligue o rádio, ouça o rádio’. Ele tem essa característica analógica de continuar transmitindo informação mesmo diante de um apagão. No caso do Brasil, o país é grande demais, e percebo, na prática do meu programa, como o rádio faz companhia. A nossa conexão com a audiência é diferente daquela estabelecida por outras mídias, principalmente as da internet. O rádio continua mais vivo do que nunca. Espero que assim continue.

Petria Chaves apresenta o programa ‘Revista CBN’ aos sábados e domingos, às 12h, na rádio CBN.

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