Toy Story 5 mescla entretenimento e aprendizado em fábula sobre a tecnologia — mas simplifica um problema mais complexo

Mantendo a leveza típica do universo Toy Story, quinto longa da franquia aposta em temas atuais, como dependência tecnológica e bullying virtual, para refletir sobre as transformações na experiência de ser criança

18 jun 2026 - 12h11

Toy Story cresceu ao lado de seus personagens e de seu público. Desde a estreia em 1995, a franquia busca dialogar com a realidade da infância como ela é, para além do imaginário dos brinquedos. Mas o quinto filme acompanha ainda mais de perto as mudanças do seu tempo: sem abandonar a dimensão lúdica e fantasiosa, o longa traz a tecnologia, e suas consequências, para o centro da narrativa. 

'Toy Story 5' (Foto: Divulgação/Disney
'Toy Story 5' (Foto: Divulgação/Disney
Foto: Pixar) / Rolling Stone Brasil

O grande mérito da trama vai com certeza para a cowgirl Jessie, que finalmente ganha o protagonismo merecido após décadas à margem de Woody e Buzz. Agora, ela precisa lutar para garantir que sua dona, Bonnie, consiga fazer amigos.

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Bonnie quer se aproximar dos vizinhos, mas é impedida pela timidez. E sua dissonância com as outras crianças também é um problema: ela é a única que ainda "perde tempo" com brinquedos, enquanto todos os outros já têm tablets (ou Lilypads, como são apelidados).

Na tentativa de ajudá-la a socializar, os pais de Bonnie finalmente cedem e lhe dão um Lilypad, dispositivo eletrônico cheio de games e chat entre amigos. Assim começa o principal conflito da história: o dispositivo passa a competir com os antigos brinquedos pela atenção Bonnie, apresentando à garota um irresistível novo mundo virtual. Para que os brinquedos ainda tenham uma chance, Woody precisa reencontrar seus companheiros e ajudá-los a enfrentar os novos desafios.

Dirigido por Andrew Stanton (Wall-E, Procurando Nemo) e McKenna Harris (que trabalhou em Luca e Elementos), o filme mantém a excelência técnica característica da Pixar, e, embora seja voltado ao público infantil, garante uma boa diversão para espectadores de qualquer idade. 

Toy Story 5 também apresenta novos brinquedos, retratados como "tecnologias ultrapassadas" — Amigo Rolinho, que ajuda crianças no processo de desfralde, e Snappy, inspirado nas primeiras câmeras digitais. Blaze, sua dona, também ganha relevância ao longo da trama.

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Um dos principais acertos do filme é que a tecnologia não é completamente demonizada. Lilypad é um brinquedo assim como os demais e, apesar de ter seu próprio funcionamento, também entende os efeitos negativos que pode causar na vida da garota.

Outro destaque é a representação da atenção fragmentada devido aos estímulos constantes que vivenciamos na sociedade atual. A virtualidade aparece como parte consolidada da infância e da adolescência contemporâneas; o problema está em como ela reduz o interesse por outras experiências.

A pauta mais intrigante levantada pelo filme não é a disputa entre os brinquedos em si, mas a dificuldade crescente de construir vínculos e estar realmente presentes num ambiente com infinitos estímulos. A infância é apenas uma das faces desse fenômeno: a tecnologia também parece irresistível para os pais, constantemente conectados aos celulares ou ao trabalho remoto. 

Mas, apesar desse retrato certeiro, a crítica termina por aí — e é nesse ponto que Toy Story 5 encontra sua principal limitação.

Limitações de Toy Story 5

O longa evita adentrar territórios mais complexos do mundo digital, concentrando toda a discussão tecnológica na figura de Lilypad. O problema é que a tecnologia "ultramoderna" representada pelo dispositivo já está, na verdade, ultrapassada. É claro que o vício em tablets e jogos continua sendo uma preocupação, mas está em debate desde a década passada. As questões alarmantes sobre a tecnologia hoje, que põe em risco a socialização, a educação e até mesmo a saúde infantil, já atingiram outro patamar: são o uso de redes sociais em idade imprópria, a nocividade dos algoritmos ou até mesmo as inteligências artificiais.

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Algo parece vazio na discussão moral do filme, pois, seguindo o estilo da Disney, o dilema da tecnologia é apresentado sem riscos ou impactos profundos, de forma polida para não gerar desconforto no seu público. Mas como trazer à tona uma discussão sobre o maior transformador da nossa sociedade neste século sem incomodar o público em nenhum momento? 

A impressão é que o roteiro evita qualquer crítica que possa fazer crianças ou pais se sentirem responsabilizados pelo uso (ou pela falta de supervisão) da tecnologia. Existe uma linha que não pode ser cruzada. A resolução parece deslocada de seu momento histórico, simplificando uma questão complexa.

Toy Story 5 é sustentado pela nostalgia dos fãs de longa data e carisma de sua protagonista. Apesar disso, a narrativa pode ficar um pouco cansativa: todos os personagens (que agora são dezenas de brinquedos) já foram explorados extensivamente nos longas anteriores. Algumas escolhas, como as 50 versões do Buzz Lightyear que surgem e somem algumas vezes, sem se conectar muito com o restante da trama, parecem uma tentativa exagerada de trazer novas camadas para uma franquia que já viveu o seu ápice. 

A personagem de Jessie, imaginação e conscientização

Para além da discussão tecnológica, talvez uma das partes mais profundas (e interessantes) do filme seja a reflexão de Jessie sobre ser substituída — pela tecnologia, pelo amadurecimento das crianças ou simplesmente pelo envelhecimento do brinquedo. Ela revisita as tristezas que carrega desde que viveu o "abandono inexplicável" de sua antiga dona, Emily, e é emocionante acompanhá-la entendendo o que verdadeiramente aconteceu. 

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Outro ponto positivo da obra é a representação visual da imaginação infantil. Quando as crianças brincam, o desenho se transforma em um retrato fantasioso do que está se passando em suas mentes. É um verdadeiro ode à forma de brincar mais ancestral que existe, o faz-de-conta — e uma abertura para pensarmos como a tecnologia muda também a nossa capacidade de imaginar o mundo.

Mantendo o excelente tom de comédia característico da franquia, Toy Story 5 entrega muitas risadas e alguns momentos de encher os olhos d'água. Apesar de suas limitações, o filme tem potencial para estimular conversas importantes dentro de casa: ele convida as crianças a deixarem as telas de lado e se aventurarem no velho e bom mundo do "faz-de-conta", enquanto os pais são incentivados a refletir sobre os impactos que o uso pouco supervisionado da tecnologia pode ter na vida dos filhos.

Em coletiva de imprensa, a produtora Lindsay Collins afirmou que a Pixar não descarta novas continuações. Já são trinta anos habitando o mesmo universo, e, por mais rico que ele seja, o desgaste é inevitável. Resta a dúvida se ainda há algo a ser descoberto em Toy Story sem que a franquia sature os próprios temas que a tornaram tão marcante.

+++ LEIA MAIS: ENTREVISTA | Como Toy Story 5 quer conscientizar o público: 'Bonnie e os brinquedos vivenciam o que o resto do mundo está vivenciando'

Rolling Stone Brasil
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