Rodrigo Lombardi e Milhem Cortaz falam sobre o realismo fantástico de 'Vermelho Sangue'

Atores retornam à série do Globoplay e comentam os novos desafios dos personagens e os conflitos entre ciência, natureza, ancestralidade e tecnologia em entrevista ao 'Estadão'

22 set 2026 - 12h12
Resumo
A segunda temporada de Vermelho Sangue estreou no Globoplay unindo realismo fantástico e identidade nacional ao ambientar tramas de vampiros e lobisomens no cerrado mineiro. Rodrigo Lombardi e Milhem Cortaz protagonizam o embate central entre os limites da ciência genética e a força da ancestralidade ligada à natureza. Gravada no Santuário do Caraça, a produção valoriza o imaginário brasileiro enquanto reflete sobre manipulação científica, pertencimento e preservação ambiental.
Rodrigo Lombardi é Otto, personagem movido pela ambição e envolvido em pesquisas genéticas relacionadas aos lobos-guará
Rodrigo Lombardi é Otto, personagem movido pela ambição e envolvido em pesquisas genéticas relacionadas aos lobos-guará
Foto: Paulo Belote/Globo/Divulgação / Estadão

O universo fantástico de Vermelho Sangue ganha novos contornos na segunda temporada da série do Globoplay, que estreou na última quinta-feira, 17. De volta à trama, Rodrigo Lombardi e Milhem Cortaz vivem personagens que ajudam a conduzir os conflitos entre ciência, natureza, ancestralidade e os seres sobrenaturais que habitam a fictícia Guarambá, no cerrado mineiro.

Na história, Rodrigo interpreta o cientista Otto, personagem movido pela ambição e envolvido em pesquisas genéticas relacionadas aos lobos-guará. Já Milhem volta como Martín, pai de Luna (Letícia Vieira) e Juan (Lucas Leto), um homem ligado à natureza e à ancestralidade dos lobos. Os dois atores foram entrevistados pelo Estadão sobre a nova fase da produção, que teve dez episódios disponibilizados de uma só vez.

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Embora a segunda temporada chegue agora ao público, Rodrigo explica que a construção de Otto não foi influenciada pela reação à primeira fase. As duas temporadas foram gravadas simultaneamente, o que permitiu aos atores acompanhar a trajetória completa de seus personagens.

"Nós gravamos as duas temporadas de uma vez, então Otto, assim como todos os personagens, segue uma linha de raciocínio que vai até o fim da história e não ficamos esperando para ver a reação do espectador e decidir o que muda ou não. Claro que vão surgir 'surprises' no meio do caminho que vão colocar o personagem em dúvida, mas aí já é spoiler e não posso falar (risos)", conta.

Para o ator, uma das particularidades de Vermelho Sangue está justamente na maneira como a fantasia é incorporada à paisagem brasileira. Parte das gravações ocorreu no Santuário do Caraça, área de preservação em Minas Gerais conhecida pela presença de lobos-guará. Rodrigo guarda uma lembrança especial da experiência. "Foi uma experiência mágica! Aquele lugar é dos mais incríveis que já conheci. Uma energia, beleza e simplicidade que em poucos lugares consegui observar", pontua.

A relação entre fantasia e identidade nacional também aparece na própria concepção da série. Em vez de transportar a narrativa para grandes cidades frequentemente associadas ao gênero, a produção coloca vampiros e lobisomens no interior de Minas Gerais.

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Para Rodrigo, o chamado realismo fantástico permite justamente essa aproximação com o imaginário brasileiro. "Podemos fazer tudo em qualquer lugar. E contar essa história, de uma forma brasileira, sem precisarmos nos render a cenários que já estão no imaginário coletivo, como Nova York, Londres ou outra megalópole qualquer, mas no Santuário do Caraça, tendo como personagem central uma lobimoça que se transforma, lindamente, num lobo-guará, é motivo de muito orgulho", destaca.

A experiência também representou mais uma oportunidade de experimentar um personagem distante de outros trabalhos de sua trajetória. Depois de interpretar figuras como Alex, de Verdades Secretas, e Adriano, de Carcereiros, Rodrigo se depara agora com um cientista inserido em um universo de lobisomens e vampiros. Para ele, a novidade está no processo de mergulhar em cada personagem.

"Sempre tem novidades e isso vai depender do quanto você se aprofunda para entender aquele universo. Eu tive experiências incríveis em todos os papéis que executei e esse não foi diferente, muitas informações para construir um personagem para parecer simples ao público, faz parte da minha profissão e da entrega que gosto de dar", salienta.

Milhem Cortaz volta como Martín, pai de Luna (Letícia Vieira) e Juan (Lucas Leto) em 'Vermelho Sangue'
Foto: Paulo Belote/Globo/Divulgação / Estadão

Natureza, ancestralidade e pertencimento

Se Otto representa a vertente científica da história, Martín ocupa o outro lado desse conflito. Na segunda temporada, o personagem reencontra os filhos e passa a ter papel importante na descoberta das origens de Luna e Juan. Para Milhem, ele funciona como uma espécie de ponte entre a natureza e a ciência.

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"O Martín volta para trazer esse questionamento entre a natureza e a ciência. Ele vem trazer o conhecimento para a filha das origens dela, da ancestralidade, essas coisas todas. É um homem ligado ao que é mítico, à natureza, aos deuses, à ancestralidade, ele representa isso, o contrário da ciência, que, na minha opinião, ela vem para explicar aquilo que é inexplicável, a diferença dele com a mãe", diz.

O ator acredita que um dos desafios da nova temporada foi abordar esses elementos sem transformar a fantasia em uma explicação excessivamente racional. "Acho que o maior desafio dessa segunda temporada é conseguir trazer tudo isso sem ser didático, porque estamos trabalhando com o imaginário, com o fantasioso, é o principal dessa história. A gente está discutindo a ciência, mas na verdade a gente está fazendo aí a intuição, aquilo que é nosso, que é o inexplicável. É muito bonita essa série", pontua.

O contato com o ambiente onde a série foi gravada também ajudou Milhem a construir o personagem. O ator, que é paulistano, conta que tem uma relação antiga com o estado e que a convivência com os lobos-guará no Santuário do Caraça trouxe novas referências para Martín.

"O Cerrado Mineiro faz parte da minha vida. Minas Gerais para mim acho que é o estado mais completo, o que me completa por inteiro. Eu moraria em Minas Gerais fácil, me adapto muito fácil lá. Conheço, sinto cheiro, entendo", fala.

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A observação dos animais ajudou o ator a imaginar como seria um homem que vive praticamente isolado no meio da mata. "E falar sobre a preservação do lobo-guará, ter contato com caraças, ter contato com os lobos, me fez entender a expertise deles na natureza. O quanto eles são desconfiados, a cara que eles têm de assustados me trouxe uma dimensão desse homem que vive sozinho no meio dessa mata, que caça e que nunca tem a companhia de ninguém, o quanto ele está acostumado inserido nisso tudo, mas o quanto o medo e o espanto está estampado na cara dele", fala.

A identidade brasileira é outro ponto central para Milhem. Na avaliação do ator, falar sobre família e pertencimento passa necessariamente pela relação com o território e pelas origens: "Acho que pra gente falar de pertencimento, a gente tem que falar do nosso país, das nossas terras, das nossas origens. Eu acho que a gente só consegue falar da família quando a gente encontra as nossas origens. Acho que a série fala disso tudo, mas fala do Brasil, desse Brasil com 'S'".

O cientista Otto (Rodrigo Lombardi) e a 'lobimoça' Luna (Letícia Vieira), em 'Vermelho Sangue'
Foto: Paulo Belote/Globo/Divulgação / Estadão

Fantasia diante dos avanços da tecnologia

A oposição entre natureza e ciência ganha ainda outra camada na segunda temporada diante das pesquisas genéticas conduzidas por Otto. A trama aborda a tentativa de interferir nas características dos personagens e explorar o sangue dos lobos-guará para desenvolver um sérum, enquanto o mundo real discute os avanços da inteligência artificial e da manipulação genética.

Para Milhem, essa aproximação torna a história especialmente atual. "Acho muito atual essa coisa de manipular, é muito perigoso. Ao mesmo tempo que toda essa tecnologia vem para nos ajudar, ela também pode nos prejudicar demais. A manipulação genética, essas coisas todas, ainda não sabemos qual é o perigo disso tudo", reflete.

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Ele vê na série uma oportunidade de discutir justamente os limites diante de tecnologias cujas consequências ainda são pouco conhecidas. "É uma discussão muito pertinente na série, acho que ela vem de encontro muito certeiro, porque como é muito desconhecido pra gente, ela ainda é um pouco assustadora, as revelações, a forma como o mundo se abre para os nossos olhos", explica.

O ator defende cautela diante das transformações tecnológicas e relaciona esse debate diretamente ao universo da produção. "Acho que a gente tem que tomar cuidado, para termos certeza, para sabermos se a gente está preparado para receber tudo isso. Que a gente entende, que a gente compreende, que a gente consegue assimilar. Tem que ter muita calma para não se perder nesse momento", alerta.

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