A nova adaptação de "Razão e Sensibilidade" (2026), dirigida por Georgia Oakley, traz um bem-vindo olhar feminino ao clássico de Jane Austen. Com estética intimista e naturalista, o longa foca na profunda relação entre as irmãs Dashwood diante das pressões sociais da época. Apesar de um ritmo por vezes apressado, a produção emociona e se destaca especialmente pela atuação sutil e magnética de Daisy Edgar-Jones como Elinor, além do forte trabalho de Esmé Creed-Miles no papel de Marianne.
Apesar de não precisarmos de uma nova adaptação do clássico de 1811 de Jane Austen (o filme de 1995 já havia feito um excelente trabalho), a nova versão de Georgia Oakley (Blue Jean) de Razão e Sensibilidade (2026) traz um olhar feminino mais do que bem-vindo à trama. É uma releitura cuidadosa, que não tenta competir com o impacto da adaptação anterior ou da obra original, mas muito bem executada e delicada à própria maneira.
Na trama, já conhecida pela maioria, o espectador acompanha as irmãs Elinor (Daisy Edgar-Jones) e Marianne Dashwood (Esme Creed-Miles), que, após a morte do pai, precisam deixar a propriedade da família e recomeçar a vida ao lado da mãe (Caitriona Balfe) e da irmã mais nova, Margaret (Bodhi Rae Breathnach).
Com uma herança limitada e poucas perspectivas, as mulheres passam a depender da generosidade de parentes e enfrentam as dificuldades de uma sociedade em que o casamento é também uma questão de sobrevivência econômica. Enquanto Elinor tenta manter a compostura diante de seus sentimentos por Edward Ferrars (George MacKay), Marianne se apaixona perdidamente por John Willoughby (Frank Dillane), mas também desperta o interesse do reservado Coronel Brandon (Herbert Nordrum).
O maior destaque definitivamente vai para a atuação de Daisy Edgar-Jones. A atriz, que ganhou reconhecimento com o papel dramático de Marianne Sheridan na série Normal People, prova mais uma vez sua capacidade de transmitir sentimentos com total sutileza.
Apesar de interpretar a irmã da "razão" — contida, séria, discreta e muito ligada aos seus valores —, são as nuances da personagem de Edgar-Jones que tornam sua atuação tão magnética. Por trás da postura controlada, Elinor deixa transparecer a frustração, a tristeza e o sofrimento inerentes à própria experiência de ser mulher e de ser a irmã mais velha da família, ambos papéis que exigem que ela coloque as necessidades dos outros acima das próprias.
Esmé Creed-Miles, por sua vez, dá vida a uma Marianne igualmente intensa, guiada pela idealização e pelo romantismo. Marianne parece incapaz de esconder suas emoções como sua irmã, mas Creed-Miles consegue transmitir a paixão da personagem tão bem quanto sua vulnerabilidade.
Razão e Sensibilidade (2026) pode exagerar na dramatização em alguns momentos, com constantes trilhas sonoras de sofrimento e várias cenas impactantes em sequência. Talvez isso se deva às incontáveis reviravoltas da narrativa: há pouco tempo para que algumas situações amadureçam, e determinadas passagens acabam perdendo parte da força por parecerem "apressadas". (Embora as reviravoltas também estejam presentes na obra original, é difícil evitar essa sensação de pressa quando se tenta condensar mais de 500 páginas em apenas duas horas de filme).
Apesar disso, este não é um defeito que atrapalha a experiência do espectador. A narrativa mantém o envolvimento e, mesmo quando recorre a soluções mais melodramáticas, não abandona a sensibilidade que sustenta a história.
Protagonismo feminino
Mais marcante do que as tramas românticas com seus respectivos pretendentes, entretanto, é a relação que se estabelece entre as irmãs. A intimidade profunda entre Elinor e Marianne é o verdadeiro coração do filme: as duas discordam e se frustram uma com a outra em diversos momentos, mas o carinho permanece mesmo nos momentos em que elas não conseguem compreender suas diferenças.
Elinor e Marianne são extremos opostos — como o título diz, a representação da razão e da sensibilidade —, mas também são reflexo do companheirismo e do cuidado que sustentam a família. Ao lado da mãe e da caçula, elas formam um núcleo feminino carismático, que remete à dinâmica de Adoráveis Mulheres (2019).
O olhar feminino na direção é particularmente bem-vindo em uma história que, embora ambientada no século XIX, tem observações sobre as relações humanas que continuam tão pertinentes. Existe algo especialmente acolhedor em acompanhar essas mulheres tentando encontrar seu lugar no mundo, apesar das limitações impostas a elas.
Estética
Afastando-se do tom puramente romântico, a direção de fotografia de Arnaud Potier concede uma atmosfera mais naturalista, intimista e melancólica ao filme. À revista Vogue, Edgar-Jones revelou que a diretora e a designer de cabelo e maquiagem Nadia Stacey não permitiram nem mesmo que as atrizes usassem protetor labial no set.
As cenas à luz de velas e as belas paisagens do sudoeste da Inglaterra também dão esse tom mais cru à Razão e Sensibilidade (2026). A natureza contribui para a esfera emocional da narrativa, acompanhando os momentos de contemplação e autodescoberta das personagens.
Razão e Sensibilidade (2026) não revoluciona o mundo das adaptações cinematográficas, mas é um ótimo exemplo de um trabalho maduro e bem feito no ramo. O longa é doce, emocionante, cuidadoso com os temas que aborda e muito bonito de se ver — com uma execução de design de produção, cenários e figurinos que respeita as características de seu tempo e a sutileza da obra original (algo que faz bastante falta em outras adaptações, como O Morro dos Ventos Uivantes de 2026).
Muito além da ambientação de época e do elenco afiado, é impossível não sair da sala do cinema com o mesmo quentinho no coração que se sente ao fechar um livro de Jane Austen. E isso, nós (e Georgia Oakley) devemos somente a ela: uma autora capaz de criar histórias cujos impactos vão muito além do seu tempo.
https://www.youtube.com/watch?v=Ue8ltp4ekgU