O filme brasileiro "Precisamos Falar", dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, adapta o romance "O Jantar" ao retratar dois casais que descobrem o envolvimento de seus filhos no assassinato de uma mulher em situação de rua. Estrelado por Marjorie Estiano e Alexandre Nero, o longa expõe as contradições morais dos pais entre a justiça e a proteção familiar, provocando o público ao revelar a fragilidade das convicções éticas e o apagamento da vítima diante dos interesses dos privilégios.
Precisamos Falar parte de uma pergunta: o que você faria se descobrisse que seu filho participou da morte de uma mulher? Na adaptação brasileira do romance O Jantar, de Herman Koch, os diretores Pedro Waddington (Gilda, Lúcia e o Bode) e Rebeca Diniz (Sob Pressão) reúnem dois casais diante desse dilema e encontram nele um debate que vai além de um confronto entre proteção familiar e dever de justiça.
O crime obriga Sandra (Marjorie Estiano, Ângela Diniz: Assassinada e Condenada), Paulo (Alexandre Nero, Nos Tempos do Imperador), Celso (Emílio de Mello, Raquel 1:1) e Anna (Hermila Guedes, Céu de Suely) a defender valores que pareciam sólidos enquanto não exigiam deles uma escolha concreta. O filme acerta exatamente ao deixar que as contradições de cada personagem apareçam no debate.
O medo de entregar um filho à Justiça pode ser sincero da parte de Sandra, mas também pode servir para encobrir a recusa em responsabilizá-lo. Da mesma forma, Anna defender que ele responda pelo crime não apaga os vínculos afetivos nem a dúvida sobre o que acontecerá depois. As discussões rendem mais quando ninguém consegue se refugiar inteiramente em seus princípios: cada argumento revela tanto uma convicção quanto o interesse de quem o apresenta.
Há, porém, uma ausência que pesa sobre todas essas conversas. A mulher morta é o motivo pelo qual as famílias se encontram, mas os adolescentes e seus pais ocupam o centro das atenções. Essa desproporção é uma das provocações mais duras de Precisamos Falar. A vítima, em situação de rua, está distante do mundo protegido em que os jovens cresceram; para eles, a violência pôde começar como uma brincadeira justamente porque a vida dela parecia não ter consequência em suas próprias. O filme expõe o quanto o debate sobre o futuro dos meninos pode, ele mesmo, repetir esse apagamento.
O elenco dá força a esse embate ao reunir personagens que não reagem da mesma maneira à descoberta. Marjorie Estiano, Alexandre Nero, Emílio de Mello e Hermila Guedes sustentam uma história que depende principalmente das posições assumidas depois do crime. Em alguns momentos, essas posições podem soar enfáticas demais, como se os adultos representassem ideias antes de revelar sua intimidade. Ainda assim, essa intensidade combina com uma situação em que todos precisam convencer os outros — e talvez a si mesmos — de que estão agindo pelas razões certas.
Precisamos Falar é mais interessante quando resiste à tentação de oferecer ao público uma resposta óbvia e lhe faz questionar, por si só, qual atitude a ser tomada diante de seus próprios valores e méritos. Parece fácil sair da sessão declarando o que os pais deveriam fazer, ainda mais depois de conhecê-los, mas é justamente aí que o incômodo permanece: na possibilidade de que nossas convicções parecem honestas, mas que se tornam muito mais flexíveis quando é alguém da nossa família que irá pagar por elas.