É curioso que O Fim da Rua chegue aos cinemas no mesmo ano em que Steven Spielberg lançou seu novo filme: Dia D. Mais curioso ainda é perceber que o novo filme de David Robert Mitchell (Corrente do Mal) tem muito mais cara de Spielberg do que o próprio Spielberg. Estão aqui os dramas familiares, os adolescentes em perigo em suas bicicletas, os jogos de câmera que transformam o subúrbio em ambiente épico, a trilha sonora incisiva de Michael Giacchino — responsável por trabalhos prestigiados como The Batman, Jurassic World, o novo Homem-Aranha e animações da Pixar como Up e Divertida Mente — e, claro, os dinossauros. Afinal, Spielberg fez o filme definitivo sobre essas criaturas em 1993 e, desde então, pouca originalidade apareceu quando eles voltam a ocupar a tela grande.
É justamente por isso que o que Mitchell consegue fazer aqui é tão louvável. O cineasta e roteirista parte de uma premissa que poderia facilmente resultar em mais uma variação de Jurassic Park: um misterioso evento cósmico arranca a Rua Oak de seu lugar e transporta todo o bairro para um ambiente desconhecido, onde a presença de dinossauros transforma uma comunidade suburbana em território de sobrevivência.
No centro disso está a família Platt, formada por Denise (Anne Hathaway, O Diabo Veste Prada), Greg (Ewan McGregor, Obi-Wan Kenobi) e os dois filhos adolescentes Brian (Christian Convery, Frankenstein) e Audrey (Maisy Stella, Meu Eu do Futuro), que já enfrentavam os próprios conflitos antes de precisarem lidar com uma ameaça muito maior. Isolados e sem saber exatamente onde — ou quando — estão, eles precisam reaprender a confiar uns nos outros para sobreviver e encontrar um caminho de volta para casa.
O resultado é um legítimo filme-pipoca que exala nostalgia das sessões dos anos 1990. Mitchell, um apaixonado pelo terror de gênero, leva para esse universo aparentemente familiar um lado mais sombrio que combina muito bem com a proposta. Porque, afinal, estamos falando de dinossauros soltos em um bairro tipicamente norte-americano: seria estranho esperar que tudo terminasse apenas em correria e sustos inofensivos.
Há violência, pessoas sendo devoradas, corpos mutilados e partes arrancadas — elementos que fazem O Fim da Rua parecer, em alguns momentos, uma espécie de sessão da tarde que decidiu subitamente ficar bastante desagradável aos olhos mais sensíveis. E há também espaço para o inesperado: se uma cena envolvendo fezes de dinossauro inevitavelmente remete a um clássico momento de Jurassic Park, Mitchell encontra uma maneira bem mais inusitada de explorar os animais: Prepare-se para testemunhar uma cena de sexo entre dinossauros que está entre os momentos mais absurdamente engraçados do filme.
O longa também é curiosamente despreocupado com algumas das perguntas que sua própria premissa levanta. Loop temporal, viagem no tempo, o evento cósmico, a origem daquele mundo e, principalmente, como exatamente os dinossauros foram parar ali: nada disso parece interessar muito a Mitchell. É uma escolha que pode frustrar quem espera respostas para cada detalhe, mas que também impede O Fim da Rua de se transformar em um exercício excessivamente explicativo.
Por causa dessa mistura de fenômenos inexplicáveis, ficção científica e criaturas pré-históricas, o filme chegou a ser associado por alguns espectadores ao universo de Cloverfield. A teoria ganhou força justamente pela ausência de explicações, mas não passa de especulação: não há qualquer confirmação de que O Fim da Rua faça parte do mesmo universo de Cloverfield: Monstro (2008), Rua Cloverfield, 10 (2016) ou O Paradoxo Cloverfield (2018).
No fim, O Fim da Rua não quer reinventar a ficção científica, explicar as regras de seu universo ou disputar com Spielberg o posto de filme definitivo sobre dinossauros. Mitchell parece muito mais interessado em recuperar uma experiência que o cinema comercial perdeu um pouco pelo caminho: a de entrar em uma sala sem grandes pretensões, acompanhar uma família em perigo, rir de uma situação absurda, tomar alguns sustos e sair pouco mais de 90 minutos depois com a sensação de ter visto algo genuinamente divertido.