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Novo documentário do Rush se despede de Neil Peart, um rei do rock — e um grande amigo

'Neil Peart: No One's Disciple' é ao mesmo tempo um retrato e uma homenagem ao homem por trás das palavras e da energia do maior trio de todos os tempos

17 set 2026 - 14h48
Resumo
O novo documentário "Neil Peart: No One's Disciple" homenageia o lendário baterista e letrista do Rush, falecido em 2020. Exibido no Festival de Toronto, o filme celebra a trajetória do músico com registros de arquivo e depoimentos sensíveis dos parceiros de banda Geddy Lee e Alex Lifeson. A produção traz ainda grandes bateristas convidados, como Chad Smith e Danny Carey, tocando clássicos do trio, equilibrando a saudade com a celebração alegre e definitiva do legado e da amizade deixados por Peart.

"Dois dedos de largura" — é assim que Geddy Lee descreve a medida. O vocalista e baixista do Rush está sentado em uma sala privativa de um restaurante que também funciona como adega, e acaba de tirar algumas garrafas selecionadas da prateleira. Ele abre uma delas e serve Alex Lifeson, seu colega guitarrista e também membro fundador, que comenta com seriedade fingida: "Ah, eu parei de beber... mas vou recomeçar agora mesmo". Lee enche o copo dele a partir de uma segunda garrafa, conversando descontraidamente com seu amigo de longa data antes de pegar uma terceira. Não é vinho, mas uma bebida destilada de cor marrom intensa e sabor rico. Macallan 25, para ser exato. Essa era a bebida preferida de Neil Peart, baterista do Rush por mais de 40 anos. Sempre que terminavam o trabalho do dia no estúdio, ou quando Lee ou Lifeson passavam na casa de Peart para uma visita, ele geralmente servia o uísque escocês.

Neil Peart em 'No One's Disciple'
Neil Peart em 'No One's Disciple'
Foto: Reprodução/Youtube / Rolling Stone Brasil

Então, Lee posiciona os dedos junto à base de um copo baixo e despeja nele uma dose equivalente a "dois dedos de largura" de Macallan. O copo permanece ali, intocado e brilhando sob a luz. Eles fazem um brinde ao amigo ausente. "O parceiro que faz falta", diz Lifeson. "A cadeira vazia", acrescenta Lee.

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Não se passaram nem cinco minutos de Neil Peart: No One's Disciple — um novo documentário sobre aquele que é, sem rodeios, o maior baterista de rock de todos os tempos — e você já sente os olhos marejarem. As risadas e os aplausos espontâneos no Princess of Wales Theatre, onde o filme estreou nesta quarta, 16, no Festival Internacional de Cinema de Toronto, seriam pontuados por fungadelas audíveis durante o restante da exibição. Como um desdobramento de Rush: Além do Palco Iluminado (2010) — o retrato definitivo da banda feito por Sam Dunn e Scot McFadyen —, este olhar comovente sobre a vida e a obra de Peart é uma despedida à altura de um rei da bateria.

Mas é também uma celebração tardia da vida de um filósofo que forneceu as palavras e a pulsação para um trio que constantemente expandia os limites de onde uma canção de rock poderia chegar e o que ela poderia expressar. Em vez de lamentar uma ausência, o filme lhe proporciona uma presença. Nas horas seguintes, não se tem a sensação de que o companheiro de banda ausente esteja realmente faltando. A cadeira está ali, bem na sua frente.

Logo no início do documentário, Lee admite que há muito queria prestar uma homenagem a Peart — falecido em 7 de janeiro de 2020 —, mas a pandemia frustrou quaisquer planos imediatos para uma despedida em grande escala. Um show, que teria sido a maneira lógica de homenagear o músico e sua obra, acabou sendo descartado em favor de um documentário realizado por cineastas que ele e Lifeson sabiam que tratariam o assunto com sensibilidade. No entanto, apresentações musicais precisavam fazer parte do projeto, e os membros remanescentes do Rush conceberam uma forma criativa de viabilizar isso. Peart mantinha uma irmandade de "bateristas-irmãos" com quem fizera amizade ao longo dos anos — músicos com quem ele costumava conviver regularmente. Lee e Lifeson convidaram quatro deles para tocar clássicos do Rush. Todos esses bateristas conheciam as partes das músicas. Mais importante ainda: todos conheciam Peart pessoalmente, o que significava que eles tinham uma compreensão genuína da personalidade do homem que criou aquelas composições.

Então, é isso: se você sempre quis ver Stewart Copeland encarando "New World Man", ou Danny Carey (do Tool) detonando com aquelas viradas alucinantes em "Tom Sawyer", ou Chad Smith (do Red Hot Chili Peppers) mandando ver em "Working Man", ou Gavin Harrison (do King Crimson) mergulhando na faixa "Dreamline" (do álbum Roll the Bones), agora é a sua chance.

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A ideia pode parecer um mero artifício promocional, até que você vê: a) o entusiasmo contagiante de todos — especialmente de Geddy e Alex — enquanto tocam; e b) como a música lhes permite homenagear coletivamente o companheiro falecido. Você testemunha a humildade necessária para esses ícones consagrados tentarem dominar compassos irregulares, mudanças de ritmo inusitadas e sequências exaustivas pelos tons; até mesmo Carey — alguém capaz de alternar com fluidez entre compassos 5/8 e 7/8 na mesma música — precisa de várias tentativas para acertar em cheio a introdução de "Overture", de 2112. Além disso, ouve-se todo mundo usar essas faixas para relembrar a generosidade de Peart, sua gentileza, seu senso de humor afiado e sua maneira de filtrar a visão de mundo por meio de polirritmos.

Vale ressaltar que esse é apenas um aspecto de No One's Disciple: Dunn e McFadyen podem ter tido a sorte de registrar sessões verdadeiramente únicas e irrepetíveis, mas o foco permanece em documentar a trajetória de Peart até ele se tornar um deus do rock de renome mundial. Utilizando diversas entrevistas realizadas com o baterista para o documentário Além do Palco Iluminado, bem como depoimentos de antigos amigos de Neil e de outros bateristas, o filme se aprofunda na ética de trabalho do músico, seus interesses literários e em como a decisão de se mudar para Londres, aos vinte e poucos anos, ampliou seus horizontes.

Ao conhecerem seu futuro colega de banda, Lee e Lifeson imediatamente julgaram aquele sujeito magricela como alguém "pateta" e nem de longe descolado o suficiente para integrar o grupo. Então, ele começou a tocar tercinas e... adivinhe quem, de repente, se tornou muito legal? Como nem o guitarrista nem o vocalista tinham interesse em assumir o papel de letrista da banda, Lifeson recorda-se de ter dito a Peart: "Percebemos que você lê de seis a sete livros por dia — o que você acharia de escrever letras?" O resultado foi "Anthem". O resto é história.

Ao longo do caminho, há inúmeros marcos importantes: desde Peart estudando com o músico de jazz Freddie Gruber e reinventando seu estilo de tocar até a escrita de Ghost Rider: A Estrada da Cura, um livro de memórias sobre suas viagens de moto e o luto pela perda da esposa e da filha. Tanto Lee quanto Lifeson relembram com carinho o sujeito apelidado de "o Professor", chegando a ficar com a voz embargada em alguns momentos. No entanto, o tom nunca é excessivamente sentimental ou piegas. Lifeson não hesita em fazer uma imitação hilária de Peart recitando a letra de "Working Man" com uma cadência rígida e entrecortada, e todos comentam como ele podia ser notoriamente arredio em relação aos fãs e à fama. (O cara compôs uma música incrível sobre isso!) Peart era conhecido por ser extremamente reservado e praticamente inacessível para a maioria do público, mas todos no filme compartilham a imagem do Peart com quem tiveram a sorte de criar laços — alguém que valorizava a lealdade, a amizade e o prazer de tomar um uísque com quem amava e admirava, tanto quanto valorizava sua feliz solidão.

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Não surpreende que o público de Toronto presente na estreia tenha entrado no clima de tudo isso — quando "The Spirit of Radio" tocou durante os créditos finais, todos imediatamente acompanharam com as palmas que são marca registrada da versão ao vivo da música. Mas Neil Peart: No One's Disciple não busca agradar os fãs de forma gratuita. O documentário quer apenas ser a homenagem que Lee e Lifeson desejavam prestar ao amigo, além de um olhar alegre sobre a vida que Peart merece. Seria mais triste vê-los tocar músicas do Rush com um elenco estelar de convidados famosos, não fosse pelo epílogo, que apresenta Anika Nilles e lembra a todos — como se alguém precisasse ser lembrado — que a atual turnê Fifty Something os mostra novamente em forma extraordinária. (Durante uma sessão de perguntas e respostas após a exibição, os cineastas mencionaram que descobriram que a banda voltaria à estrada no meio das filmagens, mas já desconfiavam disso ao ouvir as músicas, pois parecia claro que a dupla havia ensaiado bastante antes de as câmeras começarem a rodar.)

Todos sabem que Peart é insubstituível. Ninguém está tentando substituí-lo. Ao ouvir seus amigos tocarem essas músicas no filme e ver Nilles recriar suas partes no palco, você percebe que eles não estão apenas honrando o legado, mas preservando-o. Peart não está mais aqui, mas permanece vivo nessas canções. E, embora o público presente na estreia demonstrasse reverência, coube a Lee e Lifeson trazer leveza à ocasião e evitar que o clima ficasse fúnebre.

Após subirem ao palco sob aplausos durante a apresentação inicial, Lee apresentou seu amigo de infância como "Alex Lifesberg", um visitante recente de Toronto. "Eu apenas reforçaria o que o Ged disse... se tivesse entendido uma palavra sequer", brincou Lifeson. Ambos agradeceram aos cineastas e deram espaço para que Chad Smith, também presente, dissesse algumas palavras. Depois, deixaram que o filme — e a música — falassem por si sós. Parecia que Peart estava ali no cinema, aprovando com um aceno de cabeça a ausência de pompa e circunstância. Quem dera ele estivesse também saboreando uma dose generosa de uísque Macallan.

Neil Peart: No One's Disciple chega à televisão canadense em 23 de setembro, mas ainda não tem data de lançamento confirmada no Brasil.

https://www.youtube.com/watch?v=3gkam227u_g

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Rolling Stone Brasil
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