Uma das cenas mais fortes de Pequenas Criaturas, longa premiado que chegou aos cinemas nesta quinta, 23, mostra uma libélula - muito provavelmente já morta - flutuando na piscina do condomínio da protagonista Helena, vivida por Carolina Dieckmmann, também produtora associada do filme. Segundos antes, a mulher, sozinha com seus dois filhos, havia descoberto um segredo do marido, Luiz, interpretado por Michel Melamed.
O homem viaja a trabalho, enquanto o restante da família precisa se adaptar a uma mudança a Brasília. Na verdade, os três precisam lidar com uma sequência de novidades, enquanto o próprio País passa por um dos maiores processos de mudança da história: o ano é 1986, época da redemocratização.
André (Théo Medon), o filho mais velho de Helena, enfrenta a melancolia da adolescência. O caçula, Dudu (Lorenzo Mello), funciona como uma espécie de contraponto da mãe e do irmão. O personagem é um dos alívios cômicos do filme, anda para cima e para baixo com uma máscara de gorila e mantém a pureza da infância sem perder a esperteza.
Ao longo do filme, a rotina de férias da família é atravessada por uma série de personagens - que, como na vida, se mostram bem diferentes da primeira impressão. Mesmo assim, Helena se prova como a personagem mais complexa do filme. E Carolina Dieckmmann tem a difícil tarefa de atuar no silêncio.
"Interpretar no silêncio vai muito do que você tem que equalizar. Se está muito perto, pode ficar muito; se está muito longe, pode não ficar nada. Você depende do trabalho da direção para se achar", comenta a atriz em entrevista ao Estadão ao lado da diretora do filme, Anne Pinheiro Guimarães, e de Théo Medon. "Eu saí exausta porque tinha que estar o tempo inteiro preenchida de tudo que não ia dizer, de tudo que a personagem engole e silencia."
Apesar dos silêncios, como define Théo, o filme passa longe de ser extremamente pesado e deprimente. "Ele fala sobre uma densidade emocional grande, mas mantém a esperança na vida, nos laços e de que as dificuldades vão passar", afirma o ator.
Pequenez diante da vida
Os poucos diálogos e a vagareza de uma época sem celular poderiam até dar a impressão de que Pequenas Criaturas é um filme monótono. Mas é impossível não querer saber o que vai acontecer com cada um dos personagens.
"É um filme de espaços amplos e de sentimentos grandes, porém muito contidos. Existe essa dicotomia do grande e do pequeno", resume Anne Pinheiro. "Temos que sentir como aquilo é difícil para os personagens que vivem em uma Brasília com códigos diferentes, onde você se sente um estrangeiro, um alienígena chegando. O ritmo do filme é importante para sentirmos o que o personagem sente."
Mesmo retratando o período da redemocratização, em nenhum momento o tema é citado pelos personagens. As incertezas da época aparecem de outra forma: em questionamentos sobre a pequenez diante da vida e do universo e o medo do desconhecido. Afinal, quem nunca teve medo de pensar no futuro ao enfrentar um período difícil no presente?
Mas os personagens são conduzidos a uma jornada de esperança pelo caçula, Dudu, ansioso para completar 8 anos e se adaptando ao perceber que o pai não estará presente nas comemorações.
"No filme, falamos do futuro de maneira temerosa, sem saber o que vai acontecer, e o final dá a sensação de que o futuro pode ser melhor do que esperamos", afirma Théo. "Acho o filme muito esperançoso na vida. Se esses personagens, dentro de tudo o que passaram, conseguem ter esse olhar para a vida, qualquer um pode ter", diz Carol.
E o mercado internacional?
A aridez de Brasília dá o tom brasileiro às reflexões do filme. "No panorama da produção nacional, ele é diferente porque não traz as temáticas habituais, mas sim temas universais", diz Anne.
A complexidade e a universalidade do longa renderam à produção o Troféu Redentor de Melhor Filme de Ficção no Festival do Rio 2025, além do troféu Redentor de Melhor Direção de Arte.
Com as recentes vitórias do Brasil no Oscar e outras competições internacionais, as expectativas em torno de um filme que possa chamar a atenção do mercado fora do Brasil são muitas. Pequenas Criaturas chegou a marcar presença no Göteborg Film Festival, na Suécia, e no Festival Internacional de Cinema de Cartagena (FICCI), na Colômbia.
"Na Suécia, o público ficou encantado com a paisagem de Brasília e a fotografia... Tinham curiosidade sobre como é esse lugar tão diferente", conta Théo, que acompanhou Anne na viagem a Gotemburgo.
Mesmo assim, a diretora diz que o filme foi feito para o público nacional. "Não tive a pretensão ou pensei nele para ir para fora. Gostaria que as pessoas fossem ao cinema no Brasil assistir e sentir junto com os personagens", afirma.
Anne diz que deseja que o público saia da sala do cinema com o mesmo sentimento dos personagens ao final do filme: de encantamento. "[O final] é uma experiência desse grupo — uma família ampliada com amigos e conhecidos — que passa por algo que só eles viveram juntos. Isso os une de uma forma especial."