'Saí exausta': Carolina Dieckmmann recorre ao silêncio no premiado 'Pequenas Criaturas'

Vencedor do Festival do Rio 2025, filme estreou nesta quinta, 23, com reflexões sobre mistérios da vida na aridez de Brasília nos anos 1980; leia entrevista com elenco e diretora

24 jul 2026 - 12h11

Uma das cenas mais fortes de Pequenas Criaturas, longa premiado que chegou aos cinemas nesta quinta, 23, mostra uma libélula - muito provavelmente já morta - flutuando na piscina do condomínio da protagonista Helena, vivida por Carolina Dieckmmann, também produtora associada do filme. Segundos antes, a mulher, sozinha com seus dois filhos, havia descoberto um segredo do marido, Luiz, interpretado por Michel Melamed.

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O homem viaja a trabalho, enquanto o restante da família precisa se adaptar a uma mudança a Brasília. Na verdade, os três precisam lidar com uma sequência de novidades, enquanto o próprio País passa por um dos maiores processos de mudança da história: o ano é 1986, época da redemocratização.

André (Théo Medon), o filho mais velho de Helena, enfrenta a melancolia da adolescência. O caçula, Dudu (Lorenzo Mello), funciona como uma espécie de contraponto da mãe e do irmão. O personagem é um dos alívios cômicos do filme, anda para cima e para baixo com uma máscara de gorila e mantém a pureza da infância sem perder a esperteza.

Carolina Dieckmmann interpreta a protagonista Helena em 'Pequenas Criaturas'.
Carolina Dieckmmann interpreta a protagonista Helena em 'Pequenas Criaturas'.
Foto: Pablo Baião/Filmes do Estação/Divulgação / Estadão

Ao longo do filme, a rotina de férias da família é atravessada por uma série de personagens - que, como na vida, se mostram bem diferentes da primeira impressão. Mesmo assim, Helena se prova como a personagem mais complexa do filme. E Carolina Dieckmmann tem a difícil tarefa de atuar no silêncio.

"Interpretar no silêncio vai muito do que você tem que equalizar. Se está muito perto, pode ficar muito; se está muito longe, pode não ficar nada. Você depende do trabalho da direção para se achar", comenta a atriz em entrevista ao Estadão ao lado da diretora do filme, Anne Pinheiro Guimarães, e de Théo Medon. "Eu saí exausta porque tinha que estar o tempo inteiro preenchida de tudo que não ia dizer, de tudo que a personagem engole e silencia."

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Apesar dos silêncios, como define Théo, o filme passa longe de ser extremamente pesado e deprimente. "Ele fala sobre uma densidade emocional grande, mas mantém a esperança na vida, nos laços e de que as dificuldades vão passar", afirma o ator.

Pequenez diante da vida

Os poucos diálogos e a vagareza de uma época sem celular poderiam até dar a impressão de que Pequenas Criaturas é um filme monótono. Mas é impossível não querer saber o que vai acontecer com cada um dos personagens.

"É um filme de espaços amplos e de sentimentos grandes, porém muito contidos. Existe essa dicotomia do grande e do pequeno", resume Anne Pinheiro. "Temos que sentir como aquilo é difícil para os personagens que vivem em uma Brasília com códigos diferentes, onde você se sente um estrangeiro, um alienígena chegando. O ritmo do filme é importante para sentirmos o que o personagem sente."

'Pequenas Criaturas' usa Brasília nos anos 1980 para refletir sobre temas universais.
Foto: Pablo Baião/Filmes do Estação/Divulgação / Estadão

Mesmo retratando o período da redemocratização, em nenhum momento o tema é citado pelos personagens. As incertezas da época aparecem de outra forma: em questionamentos sobre a pequenez diante da vida e do universo e o medo do desconhecido. Afinal, quem nunca teve medo de pensar no futuro ao enfrentar um período difícil no presente?

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Mas os personagens são conduzidos a uma jornada de esperança pelo caçula, Dudu, ansioso para completar 8 anos e se adaptando ao perceber que o pai não estará presente nas comemorações.

"No filme, falamos do futuro de maneira temerosa, sem saber o que vai acontecer, e o final dá a sensação de que o futuro pode ser melhor do que esperamos", afirma Théo. "Acho o filme muito esperançoso na vida. Se esses personagens, dentro de tudo o que passaram, conseguem ter esse olhar para a vida, qualquer um pode ter", diz Carol.

E o mercado internacional?

A aridez de Brasília dá o tom brasileiro às reflexões do filme. "No panorama da produção nacional, ele é diferente porque não traz as temáticas habituais, mas sim temas universais", diz Anne.

A complexidade e a universalidade do longa renderam à produção o Troféu Redentor de Melhor Filme de Ficção no Festival do Rio 2025, além do troféu Redentor de Melhor Direção de Arte.

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'Pequenas Criaturas' foi o grande vencedor do Festival do Rio 2025.
Foto: Pablo Baião/Filmes do Estação/Divulgação / Estadão

Com as recentes vitórias do Brasil no Oscar e outras competições internacionais, as expectativas em torno de um filme que possa chamar a atenção do mercado fora do Brasil são muitas. Pequenas Criaturas chegou a marcar presença no Göteborg Film Festival, na Suécia, e no Festival Internacional de Cinema de Cartagena (FICCI), na Colômbia.

"Na Suécia, o público ficou encantado com a paisagem de Brasília e a fotografia... Tinham curiosidade sobre como é esse lugar tão diferente", conta Théo, que acompanhou Anne na viagem a Gotemburgo.

Mesmo assim, a diretora diz que o filme foi feito para o público nacional. "Não tive a pretensão ou pensei nele para ir para fora. Gostaria que as pessoas fossem ao cinema no Brasil assistir e sentir junto com os personagens", afirma.

Anne diz que deseja que o público saia da sala do cinema com o mesmo sentimento dos personagens ao final do filme: de encantamento. "[O final] é uma experiência desse grupo — uma família ampliada com amigos e conhecidos — que passa por algo que só eles viveram juntos. Isso os une de uma forma especial."

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