Nem só arte, nem só entretenimento: Rodrigo Teixeira fala sobre cinema e 20 anos da RT Features

Mostra na Cinemateca marca momento de balanço e projeção da produtora que nasceu brasileira, mas virou cosmopolita; veja filmes que vão ser exibidos de quinta, 26, a domingo, 29

26 mar 2026 - 05h40

Há 20 anos, um produtor brasileiro decidiu que queria fazer filmes em inglês. Não era uma ideia óbvia — era, na verdade, uma aposta bastante improvável. Rodrigo Teixeira fundou a RT Features em 2006 sem uma fórmula, sem um nicho fixo e sem muito interesse em seguir o manual do setor. Duas décadas, mais de 65 filmes e uma presença consolidada em festivais do mundo inteiro depois, o balanço pode ser feito com tranquilidade: a aposta funcionou.

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Para celebrar os 20 anos, a RT Features organizou uma mostra que está em cartaz na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, até domingo, 29 - e com entrada gratuita.

Aberta para convidados na sexta, 20, e já realizada no último fim de semana, a Mostra 20 Anos RT Features retoma a programação nesta quinta, 26. Ao todo, foram escolhidos 21 filmes da produtora — de A Bruxa e O Farol, de Robert Eggers, a Ad Astra, de James Gray, passando por Severina e outros títulos que marcaram a trajetória da empresa.

A fórmula de Rodrigo Teixeira

A fórmula de Rodrigo Teixeira, se é que pode ser chamada de fórmula, é mais simples de enunciar do que de executar: fazer filmes que ele próprio gostaria de ver. "O equilíbrio é pensar como a audiência. E eu me considero uma audiência boa, vejo muita coisa e faço apenas o que gostaria de ver no cinema", diz.

Mas há algo mais sofisticado por trás disso. Rodrigo cita uma frase que ouviu de Harrison Ford e que, segundo ele, leva consigo para sempre: a ideia de que um filme tem força e impacto gigantesco quando junta arte com entretenimento. "Eu penso que todo o cinema é autoral, e que precisamos equilibrar a arte com o entretenimento. Quando se tem isso, a gente pode fugir de nicho e abrir o horizonte para nos comunicar com mais pessoas", afirma.

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É uma postura que explica muito sobre o catálogo da RT: há Ali Wong e Meu Eterno Talvez, comédia romântica da Netflix; há Walter Salles e Karim Aïnouz com filmes profundamente brasileiros e autorais; há o James Gray de Ad Astra, com Brad Pitt, lançado por uma grande distribuidora de Hollywood. São mundos muito diferentes, mas a lógica é a mesma: fazer filmes de diretores, independentemente do orçamento ou do mercado de destino.

Cinema brasileiro

Ao mesmo tempo em que conquista espaço internacional, a RT nunca abandonou o cinema brasileiro. E Rodrigo vê com otimismo a evolução do setor nos últimos 20 anos, mas sem ilusões. "A circulação do cinema brasileiro está se consolidando. Para mim, pelo meu histórico, ficou mais fácil circular", afirma. O cuidado com as palavras é revelador: ficou mais fácil para ele, mas isso não significa que o terreno está plano para todos.

O produtor defende mais investimento em formação de profissionais, em desenvolvimento e produção, e mais assertividade do Estado. "O Brasil é um País que não só forma, como possui grandes cineastas. É um grande polo aqui na América Latina, um dos melhores", diz.

Navegar nas transformações

Vinte anos em qualquer setor já implicariam mudanças significativas. No audiovisual, foram mudanças tectônicas. O streaming reorganizou os hábitos de consumo, a pandemia acelerou a fuga das salas de cinema e o modelo de negócios da indústria mudou várias vezes. Rodrigo não finge que foi fácil de acompanhar.

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"As principais mudanças foram a relação com o público indo menos às salas de cinema e o fortalecimento das plataformas de streaming", diz. "A pandemia também mudou muita coisa. Mas é algo que está sempre em movimento, nós continuamos vivendo essas mudanças e temos que saber navegar e encontrar o caminho para os próximos 10, 20, 30 anos".

A frase "saber navegar" aparece como um princípio, não como uma resignação. A RT produziu para o circuito de festivais, para distribuidoras independentes, para plataformas de streaming — sem escolher um único caminho como o único correto.

Em um mercado cada vez mais orientado por franquias, universos expandidos e propriedade intelectual pré-vendável, a RT Features segue em direção oposta. "A proposta e direcionamento da RT é fazer e produzir filme de diretores, e será assim sempre, mesmo se tivermos que fazer franquias algum dia", diz Rodrigo. "A gente quer dar voz aos artistas e penso que todos os filmes da RT foram assim, por isso conquistamos tudo o que conquistamos nestes 20 anos".

A Mostra 20 Anos RT Features não é, portanto, apenas uma celebração nostálgica. É também um exercício de identidade — uma forma de a produtora se olhar no espelho e perguntar o que quer ser daqui para frente.

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Para Rodrigo, a resposta tem mais a ver com presença do que com escala. "Quero me comunicar com gerações: a minha, a que está por vir, a que estava antes de mim. Quero que a RT tenha relevância, além de tranquilidade e maturidade para poder prosseguir e trabalhar com o que eu gosto: cinema", diz.

Mostra RT Features na Cinemateca Brasileira

Quinta-feira (26/03)

  • 14h30 - Patti Cake$, de Geremy Jasper
  • 17h - Alemão, de José Eduardo Belmonte, com conversa com Gabriel Braga Nunes e Milhem Cortaz após a sessão
  • 20h - Call Me By Your Name, de Luca Guadagnino (2h10).

Sexta-feira (27/3)

  • 15h - Mistress America, de Noah Baumbach
  • 16h30 - Masterclass de Roteiro com Inés Bortagaray
  • 17h - Era El Cielo (O Silêncio do Céu), de Marco Dutra
  • 20h - Night Moves (Movimentos Noturnos), de Kelly Reichardt

Sábado (28/3)

  • 13h30 - O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia
  • 16h30 - Tarde Para Morir Joven (Tarde para Morrer Jovem), de Dominga Sotomayor
  • 16h30 - Masterclass de Produção e Distribuição com Rodrigo Teixeira
  • 19h - A Vida Invisível, de Karim Aïnouz
  • 23h30 - O Animal Cordial, de Gabriela Amaral Almeida

Domingo (29/3)

  • 14h30 - Frances Ha, de Noah Baumbach
  • 16h30 - Murina, de Antoneta Alamat Kusijanovic
  • 18h30 - Cerimônia de encerramento seguida exibição de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles

Já exibidos:

  • The Witch (A Bruxa), de Robert Eggers
  • Kontinental'25, de Radu Jude
  • Severina, de Felipe Hirsch
  • The Lighthouse (O Farol), de Robert Eggers
  • Love, de Gaspar Noé
  • Skate Kitchen, de Crystal Moselle
  • Armageddon Time, de James Gray
  • Ad Astra (Ad Astra - Rumo às Estrelas), de James Gray

Serviço

A Cinemateca Brasileira fica no Largo Sen. Raul Cardoso, 207 - Vila Clementino, em São Paulo. As sessões e as masterclasses serão gratuitas. Os ingressos serão distribuídos na bilheteria 1h antes de cada uma.

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