Talvez tenha sido Martin Scorsese quem melhor definiu o cinema dos Irmãos Dardenne. No recente livro Diálogos sobre a Fé, uma investigação da religiosidade em sua carreira, o cineasta americano diz ser admirador dos diretores belgas: "Os Dardenne não desviam o olhar da feiura da vida. Fazem filmes difíceis, mas tocantes".
Esse estilo de filmagem humanista, social e empático que ficou caracterizado em obras prestigiadas como Rosetta (1999), O Filho (2001), O Garoto de Bicicleta (2011), Dois Dias, Uma Noite (2014), entre outras, volta a aparecer em Jovens Mães, que estreia nos cinemas brasileiros em 1º de janeiro.
O longa-metragem, vencedor do Prêmio de Melhor Roteiro e do Prêmio do Júri Ecumênico no último Festival de Cannes, retrata o drama feminino de forma terna ao acompanhar cinco adolescentes grávidas que vivem juntas em um abrigo para mães na região de Liège, na Bélgica.
No cinema europeu dos Dardenne, alheio a Hollywood, as temáticas nunca vêm antes dos personagens - elas emergem a partir deles. A pobreza, o desemprego ou a maternidade precoce, como no caso da nova película, aparecem mais para moldar as escolhas dos protagonistas marginalizados do que para ilustrar ou criticar um problema social.
Em entrevista por videoconferência ao Estadão, os irmãos septuagenários comentaram os principais conceitos de Jovens Mães e, em tom descontraído, disseram que apenas a morte seria capaz de encerrar a parceria fraternal. Eles também reagiram aos elogios de Martin Scorsese e de Wagner Moura, que recentemente os apontou como seus cineastas favoritos no mundo.
Leia abaixo a conversa completa.
Irmãos cineastas são cada vez mais raros. Os Coen se separaram, os Safdie também. E os senhores continuam colaborando após tantos anos. Qual é o segredo dessa parceria?
Jean-Pierre: O segredo é que não há segredo. Nós já estamos muito velhos e acho que vamos acabar igual aos irmãos Taviani, que só se separaram com a morte (risos).
Luc: Não há segredo, isso é verdade. É difícil dizer. Acho importante o fato de termos tido uma infância em comum. Não foi a mesma, mas foi em comum. É isso que nos permite trabalhar juntos.
'Jovens Mães' é mais um filme no qual os senhores olham com grande preocupação para os dramas femininos. O mundo é injusto com as mulheres?
Luc: Sem dúvida, sim. O mundo também é injusto com os homens em alguns aspectos. Mas acredito que ele seja mais injusto com as mulheres do que com os homens. Basta ver os salários que os homens recebem e os salários que as mulheres recebem. E também o número de mulheres que são mortas por homens. O contrário é muito raro. Estamos interessados ??em personagens que revelam a pobreza, a desigualdade, a injustiça que existe nas sociedades. Essa é uma das razões, não é a única, mas é uma das razões pelas quais nossas personagens também são mulheres. Porque elas vivenciam isso de forma muito mais severa do que os homens.
Seus filmes são muito diferentes do que é produzido em Hollywood, seja na temática, no visual, nas atuações. O fato de vocês não pertencerem ao universo de Hollywood solidificou as suas identidades como cineastas?
Jean-Pierre: Desde que começamos a trabalhar, só conseguimos fazer o que amamos. Hollywood não faz parte do nosso pensamento. Vivemos numa parte do mundo onde a indústria cinematográfica não existe. Portanto, Hollywood é uma indústria. Na Europa, não há indústria. Fazemos cinema artesanal, por assim dizer.
No livro de Martin Scorsese, sobre religião e fé, ele diz admirar o cinema de vocês: 'Os Dardenne admitem a possibilidade da redenção. Eles não desviam o olhar da feiura da vida. Fazem filmes de 'suspense espiritual' sobre pessoas que vivem às margens da vida. Não são filmes fáceis de assistir'. Concordam com isso?
Luc: De acordo, e agradecemos, pois esta homenagem nos honra. Nossos personagens vivem em condições de pobreza. Ou seja, se há uma garrafa de água para três pessoas e sabemos que não conseguiremos água por um mês, o que fazemos com essa garrafa de água? Compartilhamos ou bebemos tudo sozinhos? A moralidade começa com as necessidades materiais. Portanto, as necessidades materiais são imediatamente espirituais.
Quem também gosta muito de vocês é o ator brasileiro Wagner Moura. Ele disse: 'Os Dardenne são os meus cineastas favoritos no mundo porque eles conseguem falar sobre os jovens de uma maneira que eu nunca vi ninguém fazer'. É certo dizer que a juventude é um período que transborda os maiores dramas da vida?
Jean-Pierre: Que pergunta perversa! (risos) Os jovens que estão no centro dos nossos filmes são jovens que se deparam com situações que normalmente não se enfrenta nessa idade. Então, existe uma injustiça fundamental. E, ao mesmo tempo, essas são situações em que se tem a oportunidade de amadurecer rapidamente. Isso é algo que nos interessa. E a segunda coisa que também nos interessa é que os jovens, porque são capazes de tudo, normalmente têm esperança de que as coisas vão melhorar, de que vão sair das situações em que se encontram. Eles têm uma grande esperança de que as coisas podem mudar. Por exemplo, quando vemos que no centro do filme estão essas jovens mães, o espectador vê a maneira como essas pessoas enxergam o mundo.
Luc: Por fim, quero dizer que estamos muito felizes em ver que nosso filme será acolhido pelo público brasileiro e espero que por um grande número de espectadores. Amamos muito o cinema brasileiro, tanto o cinema atual quanto o de anos anteriores.
Jean-Pierre: E estamos muito empolgados com o filme do Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto.