Como Paulo Gustavo e 'Tropa de Elite' inspiram 'Agentes Muito Especiais', ação com policiais gays

Filme é misto de comédia com ação, foi idealizado pelo ator, morto durante a pandemia, e por Marcus Majella, e estreia agora no cinema com Pedroca Monteiro e Dira Paes no elenco

9 jan 2026 - 05h41

Era uma tarde comum quando Marcus Majella e Paulo Gustavo saíram do cinema após assistir a Tropa de Elite. Os dois amigos estavam em êxtase com o filme, mas uma ideia começava a tomar forma nas cabeças deles. "Saímos com aquela sensação: poxa, poderia ter dois policiais gays também correndo atrás do bandido. Por que não podia ser a gente?", relembra Majella, ao Estadão, recontando o momento que plantou a semente do que viria a ser Agentes Muito Especiais.

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A conversa continuou mais um pouco. Os anos se passaram. Paulo Gustavo seguiu sua trajetória vitoriosa com a trilogia Minha Mãe é uma Peça, e o projeto dos dois policiais gays permanecia ali, guardado como um sonho compartilhado. Quando chegou ao terceiro filme da saga de Dona Hermínia, Paulo voltou a falar sobre aquela ideia com o amigo. "Ele disse que estava chegando a nossa hora e que ia começar a correr atrás disso", conta Majella.

A agenda estava toda organizada, o filme prestes a acontecer. Até que veio a pandemia e, com ela, a morte de Paulo Gustavo em maio de 2021.

'Agentes Muito Especiais' é estrelado por Majella e Pedroca
'Agentes Muito Especiais' é estrelado por Majella e Pedroca
Foto: Camilla Maia/Downtown Filmes/Divulgação / Estadão

Renascimento de 'Agentes Muito Especiais'

Para Majella, o projeto tinha morrido junto com o amigo. Era impossível imaginar fazer aquele filme sem Paulo Gustavo ao seu lado. Mas Déa Lúcia, mãe do ator, tinha outros planos. Algum tempo após a morte do filho, ela ligou para Majella com uma pergunta direta, questionando sobre o projeto. A resposta veio certeira. "Não, o filme está guardado. Só a ideia de Paulo Gustavo querer fazer esse filme comigo, para mim, já é muito importante. Isso eu vou guardar para sempre, vou contar para todo mundo", relembra Majella.

A insistência de Déa foi determinante. Majella tentou explicar que aquele era um projeto para celebrar 20 anos de amizade entre eles, e foi justamente esse argumento que Déa usou para convencê-lo. "Ela disse que era por isso mesmo. Ia celebrar fazendo esse filme. 'Nada mais justo. Celebre. Vai lá, faz. Era a vontade dele'", diz Majella, citando Dona Déa. As palavras da matriarca da família soaram como um chamado que não podia ser ignorado.

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Foi assim que Agentes Muito Especiais voltou à vida. Majella ligou imediatamente para o diretor Pedro Antonio, com quem já havia trabalhado em diversos projetos. A produtora Migdal Filmes, parceira de longa data de Paulo Gustavo, embarcou na empreitada. E para ocupar o lugar que seria de Paulo, Majella convidou Pedroca Monteiro, amigo próximo e ator que ele considerava "o único parceiro possível".

"Eu estava nervoso e apreensivo em uma viagem a trabalho e recebi uma ligação do Majella dizendo: 'Você se lembra daquele projeto incrível que eu tinha com o Paulo Gustavo? Eu queria te convidar para ser a minha dupla'. Na hora, dei um pulo da cama, muito emocionado", relembra Pedroca.

Mistura de Paulo Gustavo com James Bond

O filme traz a história do destemido Jeff, interpretado por Majella, e o medroso Johnny, vivido por Pedroca, que acabam juntos em um treinamento para entrar no Centro de Operações de Inteligência da Polícia. A missão inusitada é se infiltrar em uma penitenciária para desmantelar o Bando da Onça, quadrilha chefiada por uma misteriosa criminosa vivida por Dira Paes. O que começa com farpas entre a dupla se transforma em uma parceria profissional e pessoal.

'Agentes Muito Especiais' mistura comédia com ação
Foto: Camilla Maia/Downtown Filmes/Divulgação / Estadão

Para Dira Paes, que interpreta a vilã Onça, o convite foi irresistível pelas possibilidades da personagem. E sua escolha foi por criar uma vilã clássica ao estilo James Bond. "O personagem chama a Onça. O que a onça é? Ela tem um encantamento. Primeiro, de um deslumbre da beleza da onça. Temida e desejada", diz Dira, explicando como isso deu ideias até sobre como a personagem deveria andar.

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Enquanto isso, o diretor Pedro Antonio mergulhou no universo dos filmes de dupla e de ação policial para criar algo que funcionasse tanto como comédia quanto como cinema de ação. "O filme tinha que ser bom. Tinha que funcionar tanto como ação como comédia", afirma.

Dira Paes é a Onça, na comédia de ação 'Agentes Muito Especiais'
Foto: Camilla Maia/Downtown Filmes/Divulgação / Estadão

A preocupação era competir com as grandes produções em termos de entretenimento, ainda que com orçamento menor. "Estamos indo sempre com uma faca de bolo na mão contra uma bazuca americana. Nossa preocupação não era competir com eles nesse nível, porque não temos orçamento para isso. Mas de alguma maneira, tinha elementos do entretenimento que precisavam ficar muito legais e muito divertidos", explica o diretor.

Cada detalhe do roteiro, escrito por Fil Braz, respeitou as ideias originais de Paulo Gustavo e Majella. "Tudo que está ali foi realmente pensado pela gente, conversado. Tudo saiu realmente da nossa cabeça", garante Majella, que lembra das ligações de madrugada entre os dois amigos, criando situações absurdas e engraçadas para os personagens. "Papo de 3 da manhã um para o outro... Ele ligava e falava: 'Marquinhos, e se esses policiais se apaixonassem pelo bandido?' Aí a gente gargalhava e escrevia a cena", relembra.

Homenagem a Paulo Gustavo

A presença de Paulo Gustavo permeia cada frame do filme. Para Pedroca, trabalhar no projeto foi uma forma de manter viva a memória do amigo. "O Paulo é uma riqueza nossa. É uma mente criativa e uma figura corajosa que conseguiu atingir muitos feitos", diz o ator, emocionado. Dira Paes complementa. "O Majella, hoje, é a nossa conexão com o Paulo", arrisca.

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Assim, a sensação, segundo os envolvidos, é de que Paulo continua presente por meio do cinema que ajudou a sonhar. E o filme, no final das contas, representa não apenas a homenagem de um amigo a outro, mas a celebração de uma amizade que transcendeu a vida.

É, como define Majella, a concretização de um sonho que Paulo Gustavo não viveu para ver, mas que certamente está presente em cada cena, em cada risada, em cada momento de ação. Uma forma de dizer que, por meio do cinema e do amor, nenhuma despedida é definitiva.

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