'Acampamento Miasma', com Gillian Anderson, usa o terror slasher para discutir cinema e sexualidade

Mesmo com final precipitado e excesso de informações, longa-metragem de Jane Schoenbrun traz ideias maduras sobre a sétima arte

24 ago 2026 - 10h06
Resumo
Em *Acampamento Miasma*, a diretora Jane Schoenbrun usa o terror *slasher* para debater metalinguagem cinematográfica, sexo e sexualidade. Estrelado por Gillian Anderson e Hannah Einbinder, o filme aborda os bastidores de um *remake* onde a ficção contamina a realidade e os desejos das personagens. Apesar de um desfecho precipitado e discussões sobre transexualidade menos assertivas, a obra se destaca pela maturidade narrativa e pela autoralidade de Schoenbrun, consolidando-se como imperdível.

Seria injusto falar sobre nomes promissores da nova geração de cineastas americanos e não falar de Jane Schoenbrun. Americana de Nova York, a diretora tem mostrado cada vez mais um olhar autoral para falar, sobretudo, do cinema que a move. Isso começou com o instável We're All Going to the World's Fair, passou pelo intenso e divisivo Eu Vi o Brilho da TV e chega agora a um estágio mais maduro com o interessante Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte, em cartaz nos cinemas.

Publicidade

Com toques de Pânico de Wes Craven, o longa mergulha no universo do terror slasher para falar de Kris (Hannah Einbinder). Cineasta independente em ascensão, ela é escalada para dirigir o remake de uma franquia de terror de sucesso, dessa vez com a missão de centrar a trama na icônica personagem que sobrevive nas cenas finais do filme original. O primeiro objetivo dela é conseguir colocar Billy (Gillian Anderson), a estrela que interpreta essa garota, no novo projeto. Não conseguir é como não ter Jamie Lee Curtis no novo Halloween.

Ela vai até a casa da atriz, que ainda mora, curiosamente, onde todo primeiro filme foi rodado. É esse reencontro, porém, que começa a ultrapassar os limites éticos esperados de uma produção de cinema -- e é a partir dele que o terror deixa de existir só no roteiro e passa a contaminar as próprias gravações, arrastando toda a equipe para um delírio crescente de tensão sexual e psicológica.

A partir daí, Schoenbrun começa a explorar pouco a pouco três temas que lhe são caros: cinema, sexo e, por fim, sexualidade. No primeiro, a nova-iorquina usa metáforas e brincadeiras visuais e narrativas para deixar tudo repleto de metalinguagem e comentários sobre os caminhos do cinema em si, indo desde a reciclagem exagerada de ideias, reinterpretações de filmes e, principalmente, comentários sobre o subaproveitamento de novas mentes pensantes da indústria.

Essa maturidade também aparece na execução: em vez de simplesmente imitar o slasher que cita, a diretora filma as cenas do filme-dentro-do-filme como se fossem visões oníricas, cruzando textura de época com projeções do presente. De longe, a trama mais interessante é a trajetória profissional de Kris, soterrada por propostas, exigências e oportunidades empurradas para ela como irrecusáveis. Quando tenta dar uma ideia nova, é interpretada como equivocada.

Publicidade

Schoenbrun nunca exagera nas piscadelas e comentários sobre a indústria do cinema - algo que Pânico, essa referência tão óbvia, tem perdido nos últimos anos, virando até mesmo uma espécie de pastiche. Tudo é elegante, refinado e, com isso, ainda mais efetivo.

Uma chamada de vídeo entre Kris e produtores do novo filme de terror, por exemplo, é um dos pontos altos da produção, com piadas que nunca soam como deslocadas. Tudo isso, ainda, com atuações de gala: além de Anderson estar caricata e até novelesca, Hannah Einbinder (Hacks) sabe ser intensa e insegura na mesma cena.

Slasher e sexo, sexo e slasher

Os outros dois temas, sexo e sexualidade, vão ganhando espaço conforme a trama avança e a relação entre Kris e Billy ganha novas camadas. É equivocado pensar, aliás, que Acampamento Miasma é um filme sobre cinema que também fala sobre sexo e sexualidade. Schoenbrun, que é uma mulher transsexual, se coloca tanto dentro dessa narrativa que tudo isso vira indissociável, uma coisa só.

Billy funciona ao mesmo tempo como contraponto e refúgio para Kris, alguém que acolhe sua insegurança e completa, com um olhar mais direto sobre o próprio corpo, as teses mais abstratas que a protagonista tem sobre arte. Conforme as gravações avançam, as duas começam um relacionamento que confunde os limites entre o que está sendo filmado e o que está sendo vivido -- e é essa mistura que faz o terror escapar do roteiro e passar a assombrar o próprio set.

Publicidade

Os desafios do orgasmo feminino se confundem com a própria história do assassino. Chamado de Little Death ("pequena morte", em inglês) e usando um duto de ar-condicionado na cabeça, o "vilão" age como um empecilho e o objetivo daquelas duas personagens que há tanto tempo não sentem prazer. É como se o próprio filme dentro do filme -- e o mal que ele carrega -- passasse a existir para impedir esse reencontro e se recusasse a deixar a ficção terminar.

O assassino serial, que emerge do fundo do lago tal qual Jason em Sexta-Feira 13, é o medo e o desejo; o objetivo e a pedra no caminho; a violência e a justiça. Uma complexidade simples e que nasce a partir dessa perspicácia já comum no olhar de Jane.

Uma pena, porém, que as discussões sobre sexualidade - também tão intrincadas dentro da narrativa, impossível de ser diluída ou separada - não tenham o mesmo efeito que os outros dois temas. Reflexões sobre transsexualidade, por exemplo, chegam menos assertivas do que todas as colocações sobre a indústria do cinema ou sobre orgasmos femininos. Parece uma certa dificuldade (ou seria da própria natureza complexa do tema?) em conseguir materializar os sentimentos que a cineasta entende tão bem sobre si própria.

O final, mais precipitado e atrapalhado do que deveria, joga um pouco de água na equação geral. Fica a sensação de que Jane Schoenbrun, assim como aconteceu em Eu Vi o Brilho da TV, não sabe como fechar o assunto, terminando Acampamento Miasma em uma nota mais baixa. Ainda assim, talvez isso seja simplesmente reflexo de um filme feito com coração, com vontade, com energia e entrega. Mais do que nunca, a cineasta se colocou na tela - com suas aflições ou desejos - e fez um filme sincero, mais do que tudo. E, independentemente da conclusão estragar de vez, o longa-metragem termina com uma certeza: todo e qualquer filme de Jane Schoenbrun merece (e deve) ser visto e discutido.

Publicidade
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações