'A Queda 2' mostra que aumentar o perigo não significa aumentar a tensão

Sequência do thriller de sobrevivência aposta em escala maior, mas deixa de lado a simplicidade que fazia o primeiro filme funcionar

3 out 2026 - 06h11
Resumo
Em "A Queda 2", a trama foca em Jax, que tenta superar o luto pela irmã Shiloh escalando o Monte Kwan com a amiga Luce, onde acabam presas nas alturas após um terremoto. Embora os diretores explorem bem a vertigem e a tensão física do isolamento na primeira metade, o longa enfraquece ao introduzir subtramas criminais e excesso de perigos externos. Ao desviar o foco da luta pura pela sobrevivência e do drama emocional, a sequência confunde mais ameaças com verdadeira tensão cinematográfica.

Existe uma ideia bastante simples por trás de A Queda: colocar duas pessoas no alto de uma estrutura gigantesca e tirar delas qualquer possibilidade razoável de voltar ao chão. O filme de Scott Mann transformava essa premissa quase banal em um exercício de ansiedade porque entendia que, naquele caso, menos era mais. A torre era o cenário, o obstáculo e o terceiro personagem. Bastava olhar para baixo para sentir o estômago embrulhar. A Queda 2, que estreou nesta quinta-feira, 1º, tenta repetir a operação, mas acrescenta a ela algo que não estava no centro do primeiro filme: o luto.

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Desta vez, a protagonista é outra: Jax Hunter (Harriet Slater), irmã mais nova de Shiloh Hunter — a personagem de Virginia Gardner que protagonizou o primeiro longa. Jax ainda está devastada pela morte da irmã quando se aproxima de Luce (Arsema Thomas), uma das amigas mais próximas de Shiloh e alguém que compartilhava com ela a paixão por aventuras. Juntas, as duas decidem atravessar as perigosas tábuas do Monte Kwan, na Tailândia. Um terremoto, porém, provoca um deslizamento de rochas e as deixa presas a centenas de metros de altura, obrigando-as a encontrar uma saída enquanto enfrentam não apenas a montanha, mas também aquilo que carregam consigo.

Novas alturas

É uma mudança importante em relação ao original. Se o primeiro A Queda fazia da sobrevivência uma experiência essencialmente física, a continuação tenta transformar a altura em uma extensão do processo de Jax para lidar com a perda. A montanha passa a representar uma espécie de chamado à aventura, mas também um enfrentamento pessoal. A palavra que atravessa o filme é coragem, e Jax precisa descobrir o que ela significa depois da morte da irmã.

Os diretores Peter e Michael Spierig (dos fraquíssimos A Maldição da Casa Winchester e Jogos Mortais: Jigsaw) sabem explorar esse espaço vertical: há momentos em que a câmera encontra ângulos capazes de provocar genuíno desconforto, especialmente quando as personagens precisam se deslocar por superfícies estreitas ou olhar para o vazio.

Quando a escalada começa, aliás, A Queda 2 encontra seu melhor momento. A montagem transforma movimentos simples em situações de enorme tensão, enquanto a câmera insiste na instabilidade das personagens diante da montanha. Sentimos o esforço físico, o desequilíbrio e a distância até o chão. Durante boa parte da primeira metade, o filme entende muito bem que não precisa fazer muito mais do que colocar Jax e Luce diante de uma situação extrema e nos obrigar a permanecer com elas.

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A irmã que continua presente

Essa eficiência aparece também na maneira como o filme recupera o longa anterior. Em vez de simplesmente presumir que o público se lembra de A Queda, a continuação transforma a história de Shiloh em acontecimento dentro de seu próprio universo. Jornais, redes sociais e vídeos publicados na internet retomam o que aconteceu no primeiro filme, fazendo com que a morte da personagem esteja presente antes mesmo de ela aparecer nas lembranças de Jax. É uma solução interessante porque não funciona apenas como recapitulação: mostra como aquela experiência passou a existir publicamente e como continua reverberando na vida de quem ficou.

Shiloh, portanto, é uma personagem ausente que permanece o tempo inteiro presente. Ela aparece nas memórias de Jax, nos flashbacks e, principalmente, nas decisões que a irmã toma no presente. O passado não está separado da aventura; é justamente aquilo que empurra Jax para ela.

Os Spierig, felizmente, não abandonam completamente o que funciona. Quando A Queda 2 se concentra em Jax e Luce tentando encontrar uma saída, o filme recupera sua melhor qualidade: a capacidade de transformar uma ação banal em uma ameaça. Subir, descer, alcançar um objeto ou atravessar uma pequena distância passam a ter peso desproporcional. A montagem acelera nesses momentos sem necessariamente transformar tudo em uma sequência de ação convencional, e a fotografia insiste em lembrar ao espectador a distância entre aquelas mulheres e o chão.

Há também um cuidado interessante na construção dos flashbacks. Em um deles, Jax e Shiloh estão prestes a encarar uma nova aventura quando as hélices de um ventilador de teto se transformam, pela montagem, nas hélices de uma pequena aeronave. O corte conduz a um salto de paraquedas realizado pelas duas e cria uma associação visual entre medo e coragem. Não é apenas uma passagem para o passado: é uma maneira de mostrar por que a aventura tinha um significado tão particular para as irmãs e por que Jax decide continuar seguindo esse caminho depois da morte de Shiloh.

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O filme também planta outros elementos que parecem prometer uma função maior. É o caso da câmera filmadora que acompanha as personagens. Durante boa parte da narrativa, ela parece estar ali à espera de uma importância que só será revelada mais tarde. Quando as imagens finalmente são recuperadas, o dispositivo ajuda a explicar melhor a relação de Luce com Shiloh e uma obsessão que, até então, parecia excessiva. É uma solução funcional, embora o objeto pudesse ter sido integrado de maneira mais orgânica à narrativa.

Essa revelação, aliás, dá uma nova dimensão à relação entre Luce e Shiloh. A intensidade da ligação entre as duas inicialmente parece difícil de compreender, sobretudo diante dos riscos que Luce aceita correr. Quando o filme revela o que estava escondido, a obsessão ganha uma justificativa. O problema é que o impacto poderia ser maior: a informação esclarece a personagem, mas não necessariamente transforma tudo o que vimos antes.

Harriet Slater e Arsema Thomas também ajudam a manter o filme de pé — literalmente. As duas trabalham bem com a exaustão física e com o medo, sem transformar cada dificuldade em uma grande cena de sofrimento. Existe uma fisicalidade importante nas atuações, principalmente porque o filme depende de acreditar que aquelas personagens estão realmente cansadas, assustadas e sem opções.

Slater, sobretudo, precisa carregar uma personagem cujo conflito emocional está sempre misturado ao perigo físico. Jax não está apenas tentando sobreviver: ela está tentando entender o que fazer com a ausência da irmã. Thomas, por sua vez, sustenta a energia mais destemida de Luce, criando um contraste importante com a hesitação de Jax. É essa diferença entre as duas que mantém a relação funcionando mesmo quando o roteiro começa a se afastar de seu melhor material.

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Quando o filme procura outro abismo

Mas há um limite para o quanto atores e imagens conseguem compensar um roteiro que insiste em aumentar a aposta quando deveria simplesmente sustentar a situação. Quanto mais A Queda 2 tenta encontrar uma nova maneira de surpreender, menos assustadora fica a própria ideia de estar presa a centenas de metros do chão.

Isso fica mais evidente quando entra em cena a trama das drogas. O filme já havia plantado essa história logo no começo, em uma sequência que inicialmente parece apenas estabelecer o perigo da montanha. Mais tarde, porém, o homem responsável por levar as drogas à região reaparece, e tráfico e extorsão passam a ocupar espaço dentro da narrativa.

É nesse momento que a continuação começa a perder parte da força construída na montanha. O conflito deixa de ser exclusivamente Jax e Luce contra a natureza e passa a dividir espaço com uma trama criminal que desloca o centro de interesse. A ideia até está amarrada à estrutura do filme desde o início, mas parece pertencer a outro tipo de thriller — e sua presença reduz justamente aquilo que a continuação tinha de mais interessante, numa mudança fatal para um filme como esse.

O suspense de sobrevivência depende de uma espécie de pacto com o espectador. Não é preciso acreditar que tudo aquilo aconteceria exatamente daquela maneira, mas é necessário aceitar que, naquele universo, os riscos são concretos. A Queda 2 consegue esse pacto quando olha para a montanha e para o medo de Jax. Quando introduz elementos externos demais, porém, começa a pedir que o espectador acompanhe as engrenagens do roteiro em vez de simplesmente sentir o perigo.

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É aí que a continuação repete um problema comum a sequências desse tipo: confunde aumentar o perigo com aumentar a tensão. Uma coisa não necessariamente produz a outra. É possível colocar uma ameaça ainda maior diante das personagens e, mesmo assim, produzir menos ansiedade. O primeiro A Queda entendia isso intuitivamente. Seu terror vinha menos do que poderia acontecer do que da espera pelo inevitável.

No segundo filme, há ainda momentos capazes de provocar aquela reação física diante da altura — e eles são, de longe, os melhores. Quando Jax e Luce estão suspensas, sem saber como avançar ou recuar, a franquia recupera sua razão de existir. A câmera encontra o vazio, a montagem prolonga o instante e o espectador volta a sentir o peso de cada movimento.

O problema é que o filme nem sempre confia nesses momentos. Ele acrescenta explicações, flashbacks, revelações e uma trama criminal quando talvez fosse mais potente permanecer justamente onde havia encontrado sua melhor força: na relação entre Jax e Shiloh, no luto, na coragem e na experiência de estar suspensa a centenas de metros do solo.

A Queda 2 é mais barulhento, mais movimentado e, em alguns momentos, visualmente mais ambicioso. Mas também é mais interessado em expandir sua própria história do que em explorar até o limite a ideia simples que o colocou nas alturas.

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No fim, a continuação descobre que o maior problema de uma franquia baseada em vertigem não é necessariamente encontrar uma montanha mais perigosa. É saber o que fazer depois que o espectador já conhece o abismo. E talvez A Queda 2 não precisasse procurar outro. Bastava continuar olhando para aquele que estava diante de Jax.

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