O álbum Da Lata ocupa um lugar singular na música brasileira. Lançado em 1995, o disco consolidou a identidade artística de Fernanda Abreu ao transformar o Rio de Janeiro em matéria-prima sonora, misturando funk, samba, soul, música eletrônica e cultura de rua quando essa combinação ainda parecia improvável para o mercado. Exibido na 21ª CineOP, Fernanda Abreu - Da Lata 30 Anos, o Documentário, do diretor Paulo Severo, entende a dimensão desse marco e prefere investigar como ele foi construído. Em vez de simplesmente celebrar um clássico, o filme desmonta peça por peça seu processo criativo, revelando por que aquele disco continua tão influente três décadas depois.
A estrutura é quase didática. O documentário percorre o álbum faixa a faixa, recuperando imagens inéditas gravadas durante as sessões de estúdio no Rio de Janeiro, a mixagem em Londres, a produção dos videoclipes e dos ensaios fotográficos, enquanto reúne depoimentos atuais dos músicos e colaboradores que ajudaram a dar forma ao projeto. Nomes como Ivo Meirelles, Liminha, Marcos Suzano, DJ Memê, Will Mowat, Walter Carvalho e Luiz Stein ajudam a mostrar que Da Lata nasceu da colaboração entre artistas de diferentes universos, mas sempre sob a liderança de Fernanda, que conduzia cada escolha estética e musical com uma visão bastante definida.
O filme deixa claro que o disco não criou apenas uma coleção de sucessos, mas uma linguagem. As conversas sobre a incorporação da percussão, a fusão entre tecnologia e instrumentos orgânicos, a influência do samba, do funk e da dance music revelam como Fernanda ajudou a desenhar um novo caminho para o pop brasileiro. É curioso perceber como músicas que funcionavam como uma espécie de "polaroid" do Rio de Janeiro dos anos 1990 permanecem atuais, enquanto o documentário também recupera histórias saborosas sobre expressões populares, referências culturais e o ambiente criativo que cercava o álbum.
Como cinema, porém, a produção raramente busca uma personalidade própria. Sua construção lembra aqueles extras generosos de DVDs ou especiais televisivos feitos para preservar a memória de uma obra, muito mais interessados em organizar informações do que em criar uma narrativa audiovisual marcante. Falta um olhar mais autoral capaz de transformar esse vasto material de arquivo em algo que dialogue também com quem desconhece a importância de Da Lata. Em alguns momentos, a sensação é de assistir a um conteúdo complementar — extremamente rico, mas pouco ambicioso em sua linguagem.
Ainda assim, a simplicidade acaba sendo compensada pelo valor histórico do registro. Poucos documentários brasileiros se dedicam com tanta minúcia a entender a fabricação de um álbum, explorando desde as decisões musicais até a concepção visual que ajudou a definir uma artista. Ao revelar os bastidores daquele que foi o primeiro disco de ouro de Fernanda Abreu e o trabalho que consolidou sua imagem como a "rainha da pista" brasileira, Fernanda Abreu - Da Lata 30 Anos, o Documentário funciona como um precioso documento de preservação da memória da música nacional, sem tentar reinventar a forma de contar essa história, mas compreendendo perfeitamente por que ela merece ser contada.