'É possível falar sobre menstruação com alegria', afirmam diretores de curta indicado ao Oscar

A Rolling Stone Brasil conversou com Julia Aks e Steve Pinder, dupla que dirige e escreve O Drama Menstrual de Jane Austen, curta concorrente ao Oscar deste ano

12 mar 2026 - 14h30

Concorrendo à categoria de Melhor Curta-Metragem no Oscar 2026, O Drama Menstrual de Jane Austen, disponível no catálogo da FILMICCA, questiona os estigmas da menstruação através de uma sátira do livro Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. Em entrevista exclusiva à Rolling Stone Brasil, os diretores Julia Akse Steve Pinder falam sobre a origem do projeto, o uso da comédia para abordar temas sérios, o curios o envolvimento de Emma Thompson (Razão e Sensibilidade) no projeto e as reações do público ao filme. Confira o papo a seguir:

'Podemos falar sobre menstruação com alegria', afirmam diretores de curta indicado ao Oscar (Divulgação)
'Podemos falar sobre menstruação com alegria', afirmam diretores de curta indicado ao Oscar (Divulgação)
Foto: Rolling Stone Brasil

Como nasceu a parceria de Julia Aks e Steve Pinder

Julia Aks e Steve Pinder se conheceram em 2016, quando ele ainda estava na faculdade de cinema e ela trabalhava como atriz em Los Angeles. O primeiro encontro profissional aconteceu durante o processo de elenco de um curta bastante inusitado escrito por Pinder: The Dawn of the Dumb. "Era uma paródia de A Noviça Rebelde sobre mudanças climáticas… com zumbis. Então tinha muita coisa acontecendo."

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O curta incluía canções originais e exigia uma atriz que também soubesse cantar — algo que Aks fazia muito bem, segundo Pinder. Ela chegou ao projeto por meio de uma diretora de elenco e, segundo os dois, a conexão criativa foi imediata. "Tivemos uma sinergia criativa muito forte", conta Pinder. "Não somos parceiros românticos, não somos irmãos… somos parceiros criativos."

Para Aks, já naquele primeiro trabalho ficou claro que havia algo especial na dinâmica entre os dois. "Desde aquele primeiro projeto, senti que era diferente de tudo que eu tinha feito antes", revela. "Eu entendia a escrita dele e o humor dele, e sentia que ele entendia o meu." A partir dali, passaram a colaborar com frequência, sempre explorando uma abordagem parecida: pegar referências clássicas e subvertê-las com humor. "A gente gosta de pegar coisas muito tradicionais e virar de cabeça para baixo", resume Pinder.

Criando O Drama Menstrual de Jane Austen

Em 2019, Aks começou a desenvolver projetos próprios, principalmente esquetes de comédia e números musicais para seu canal no YouTube. Ela convidou Pinder para colaborar na direção e no desenvolvimento criativo — e foi nesse contexto que surgiu a ideia de O Drama Menstrual de Jane Austen.

"No começo, a ideia era apenas mais uma esquete para o meu canal", explica Aks. "Estávamos fazendo muita comédia musical para o YouTube." Mas durante a pesquisa para o roteiro, Aks decidiu conversar com mulheres próximas e pedir histórias engraçadas sobre menstruação que pudessem inspirar a piada.

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O resultado foi muito mais complexo do que ela esperava. "Eu recebi algumas histórias engraçadas", diz ela. "Mas também ouvi muitas histórias realmente dolorosas — sobre vergonha, endometriose, síndrome dos ovários policísticos, experiências ruins com o sistema de saúde e até com familiares."

Esses relatos mudaram completamente o rumo do projeto. "O que eu senti nessas conversas foi quase um suspiro coletivo, um desejo de falar mais sobre isso", lembra Aks. "Aquilo me fez refletir também sobre minhas próprias experiências com o meu corpo." Foi nesse momento que ela e Pinder perceberam que o projeto poderia ir além de uma simplesa esquete.

"A gente já estava procurando algo que nos permitisse crescer do formato de esquete para o cinema", conta Pinder. "Queríamos algo visualmente rico, inspirador, mas que também fosse muito engraçado e tivesse o nosso estilo de comédia." Ao mesmo tempo, os dois queriam contar uma história que tivesse significado pessoal. "Também queríamos fazer algo que dissesse alguma coisa que nós dois sentimos que precisava estar mais presente no mundo", acrescenta Aks.

Assim, O Drama Menstrual de Jane Austen acabou reunindo todas essas intenções: humor, comentário social e uma estética cinematográfica mais ambiciosa. "Esse projeto simplesmente fez muito sentido para nós", conclui Pinder. "Foi quando decidimos colocar todos os ovos na mesma cesta e crescer com essa ideia."

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O crédito de Emma Thompson

Julia Aks e Steve Pinder também falaram sobre um dos detalhes mais curiosos do filme: o crédito de Emma Thompson como "executive menstrual advisor", algo como "consultora executiva menstrual". A participação da atriz e roteirista britânica surgiu de forma inesperada e bem-humorada.

Segundo Aks, a admiração por Thompson já existia desde o início do projeto. "Mesmo antes de pensarmos em Oscar, já queríamos que o filme chegasse até ela", conta. "Ela foi uma grande inspiração durante todo o processo."

Uma das principais referências era justamente o trabalho de Thompson em Razão e Sensibilidade, cuja sensibilidade e estilo influenciaram diretamente o tom do curta. Além disso, os diretores também se identificavam com o início de carreira da artista. "Sabíamos que ela também tinha vindo da comédia de esquetes", explica Aks. "Então, no começo, queríamos simplesmente agradecer."

O cenário mudou quando o filme começou a ganhar força no circuito de festivais. Após conquistar um prêmio que qualificava o curta para a corrida do Oscar, algumas pessoas próximas à equipe sugeriram que eles pensassem maior. "Algumas pessoas que nos apoiaram durante os festivais disseram: 'Talvez vocês possam sonhar um pouco mais alto com esse projeto'", lembra Pinder. "O público estava reagindo muito bem, e havia a possibilidade de que a Academia também gostasse."

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Foi então que decidiram entrar em contato com Thompson. A ideia inicial era convidá-la para participar da campanha do Oscar como produtora executiva — algo relativamente comum entre curtas-metragens em busca de visibilidade. "Em campanhas de curtas, às vezes você tem uma pessoa conhecida que empresta seu nome para ajudar a dar visibilidade ao projeto", explica Pinder. "Então perguntamos se ela consideraria entrar como produtora executiva."

A resposta veio rapidamente — e com muito humor. "Ela nos respondeu em cerca de três dias", conta Aks. "Disse que tinha amado o filme. A carta era muito engraçada, muito espirituosa, e ficou claro que ela tinha entendido perfeitamente o que estávamos tentando fazer."

Mas Thompson também foi direta ao recusar o título proposto. "Ela disse: 'Não vou ser produtora executiva de vocês porque não tive nada a ver com a realização do filme'", lembra Pinder. "Segundo ela, seria um pouco desonesto assumir um crédito de produção sem ter participado do processo."

Foi a própria atriz que sugeriu a solução — que acabou se tornando um dos elementos mais divertidos do projeto. "Ela disse que, se quiséssemos dar a ela um título que estivesse no espírito do filme, algo como executive menstrual advisor seria perfeito", conta Aks. A resposta da dupla foi imediata: aceitar sem hesitar. "Dissemos: 'Qualquer coisa que você quiser, Dame Emma Thompson'", brinca a diretora.

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A comédia no Oscar — e o orgulho de representá-la

Julia Aks e Steve Pinder também refletiram sobre o lugar da comédia nas premiações. Historicamente, o gênero costuma ter menos espaço nas categorias de curtas do Oscar — algo que os dois reconhecem, mas que também encaram como um desafio criativo. Para Pinder, a indicação tem um significado especial justamente porque a comédia sempre esteve no centro da parceria entre os dois.

"Significa muito para nós", afirma. "Vindo do universo das esquetes, a comédia sempre alimentou uma parte do nosso espírito — essa vontade de fazer algo divertido e engraçado." Ao mesmo tempo, os dois sentem que seu trabalho vai além da piada pura. "Também temos outra necessidade", explica. "A de falar sobre as realidades da vida."

Segundo ele, muitas das conversas que inspiram seus projetos misturam profundidade e humor — e essa combinação acabou se tornando a marca da dupla. "Sempre tivemos muitas conversas profundas que também são engraçadas", diz. "Então o que sempre quisemos fazer foi justamente combinar essas duas coisas e usar a comédia para falar de assuntos sérios."

O curta representa, segundo ele, a primeira vez em que conseguiram fazer isso de maneira mais ambiciosa. "Este foi realmente nosso primeiro grande esforço para fazer isso em uma escala maior." Por isso, o reconhecimento da Academia tem um peso simbólico. "O fato de a Academia reconhecer isso e enxergar valor na comédia como forma de comunicar temas sociais importantes é muito encorajador para nós."

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Aks acrescenta que essa visibilidade também abre novas possibilidades para o futuro da dupla. "Nós dois temos projetos maiores que gostaríamos muito de realizar", afirma. "Então parece que algumas portas estão começando a se abrir."

Para ela, parte do problema é a ideia equivocada de que a comédia seria menos "cinematográfica" do que o drama. "Sabemos que a comédia também pode ser extremamente cinematográfica", explica. "A linguagem do cinema se aplica a uma comédia tanto quanto a um drama."

Na visão da diretora, o que realmente define um "filme de Oscar" não é o gênero, mas a qualidade da execução. "Para mim, um filme de premiação é aquele que usa o cinema de forma muito bem pensada", diz. "Um filme que tem um ponto de vista, algo a dizer ao mundo, que é bem escrito, bem estruturado e que leva o público por uma jornada emocional."

E todos esses elementos, segundo ela, podem existir em qualquer gênero. "Se você pensar bem, tudo isso pode se aplicar tanto a dramas quanto a comédias." Por isso, Aks sente um orgulho especial pelo resultado alcançado. "O que me deixa muito orgulhosa", conclui, "é que parece que conseguimos fazer uma comédia — uma comédia mesmo, não uma dramédia ou uma comédia sombria — que ainda assim cumpre todos esses requisitos que, para mim, definem um filme de premiação."

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As reações do público nos festivais

Ao longo do circuito de festivais, Julia Aks e Steve Pinder perceberam que o curta provoca reações muito entusiasmadas do público — e, para a surpresa deles, não necessariamente divididas entre homens e mulheres. "O filme funciona muito bem com plateias em geral", afirma Pinder. "Com homens e mulheres."

Segundo Aks, existem diferenças pontuais na forma como as pessoas demonstram suas reações. "Alguns públicos são mais vocais do que outros", explica. "Às vezes há mulheres na plateia que dão aqueles gritos de gargalhada, e você ouve isso bastante."

Para ela, uma das partes mais gratificantes da experiência em festivais tem sido conversar com o público depois das sessões. "Uma das grandes bênçãos desse filme no circuito de festivais foi ver quantas mulheres vêm falar conosco depois e dizem 'obrigada'", conta. "Elas dizem que se sentiram vistas e que estão muito felizes por termos feito esse filme."

Mas não são apenas as mulheres que se identificam. "Homens também vêm falar com a gente e dizem: 'Eu também me senti representado'", relata Aks. "E muitos comentam: 'Eu não ria por 11 minutos seguidos há muito tempo'." Esse equilíbrio acabou surpreendendo a dupla. "Tem sido bastante igual", admite Aks. "Não sei se esperávamos exatamente isso."

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Outro sinal do alcance do curta é que muitas pessoas passaram a compartilhá-lo com familiares. "Já ouvimos histórias de gente que quer mostrar o filme para toda a família", revela Pinder com entusiasmo. "Para os filhos, para as irmãs, para os irmãos."

Apesar da recepção majoritariamente positiva, houve alguns momentos isolados de resistência — geralmente ligados ao próprio tema do filme. Em vários festivais, a equipe decidiu levar absorventes e tampões para distribuir gratuitamente ao público, colocando-os nos banheiros dos cinemas ou em mesas próximas à entrada. "Era só para o caso de alguém precisar", explica Aks.

Em uma ou duas ocasiões, porém, a iniciativa gerou incômodo. "Um voluntário de festival nos contou depois que um homem foi reclamar", lembra ela. "Ele disse que aquilo não deveria estar exposto numa mesa, que deveria ser guardado."

Ainda assim, essas reações foram raras. "Felizmente foram poucos casos", diz ela. "Ou talvez as pessoas que odiaram o filme simplesmente não tenham nos contado", brinca. No geral, o que mais marcou os diretores foi justamente a amplitude da resposta do público. "Tem sido maravilhoso ver quantos homens também responderam ao filme", conclui Aks.

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Do circuito de festivais à corrida pelo Oscar

Se o alcance com o público surpreendeu, a presença na corrida do Oscar foi ainda mais inesperada. "Quando decidimos fazer uma comédia sobre menstruação, o Oscar definitivamente não estava no nosso radar", admite Aks. Durante o circuito de festivais, no entanto, o filme começou a acumular prêmios do público.

Embora esse tipo de prêmio não qualifique diretamente um filme para o Oscar, eles chamaram a atenção de programadores de festivais. "Alguns programadores começaram a nos incentivar a considerar uma campanha", conta Aks. "Eles disseram que, às vezes, os votantes da Academia acabam reagindo de forma parecida com o público."

A ideia parecia distante no início, mas acabou se concretizando. "Não sei se essa teoria é totalmente verdadeira", brinca a diretora, "mas aqui estamos nós, indicados ao Oscar." A campanha, porém, foi intensa. "Agora ela já está praticamente encerrada, então estamos um pouco mais descansados", conta Pinder. "Mas foi muito intenso."

Apesar do cansaço, os dois veem a indicação como um sinal de que o filme provocou reflexões dentro da própria indústria. "Acho que o nosso filme está desafiando um pouco as pessoas a repensarem o que significa um 'filme de premiação'", afirma Aks. Um dos fatores decisivos, segundo eles, é a capacidade do curta de continuar circulando e sendo compartilhado.

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"As pessoas simplesmente querem continuar mostrando o filme para outras pessoas", diz Aks. "E isso é muito importante em Hollywood." Além disso, muitos espectadores dizem que a experiência fica com eles por muito tempo. "Ouvimos com frequência que o filme continua na cabeça das pessoas depois que termina", conta. "E isso é um enorme elogio."

No fim das contas, a dupla acredita que a força do projeto está justamente na sua capacidade de dialogar com públicos muito diferentes. "Parece que ele ressoa com muitos tipos de pessoas", reflete. "Incluindo os votantes da Academia — que, no fim das contas, também são pessoas," brinca Aks.

O curta pode virar longa? Os diretores respondem

Durante a conversa, também surgiu uma pergunta que já circula entre espectadores do filme: muita gente termina a sessão querendo ver uma versão mais longa da história. A resposta de Julia Aks à possibilidade de existir uma versão mais longa da história veio imediata — e animada. "Existe sim", disse ela. "Nós já temos um roteiro de longa-metragem."

Segundo a diretora, a indicação ao Oscar tem ajudado a abrir portas para que o projeto avance. "Felizmente, essa indicação parece estar nos aproximando de conseguir realizar a versão longa", explica.

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A ideia é expandir o universo apresentado no curta, aprofundando personagens e temas. "A história vai ainda mais longe", revela Aks. "Tem mais romance, mais personagens — e até mais nomes engraçados." O tom, no entanto, permanece o mesmo. "Continua sendo o nosso estilo", diz ela. "Ainda é uma comédia."

A diferença é que o formato maior permitirá explorar mais aspectos das questões abordadas no curta. "No longa, podemos tratar também de outros temas relacionados à saúde reprodutiva das mulheres", explica Pinder. "Não apenas a menstruação."

Para a dupla, a possibilidade de desenvolver essa versão ampliada é um passo natural após a recepção do filme. "Agora podemos explorar muito mais coisas dentro dessa história", afirma Aks. "E estamos muito empolgados com isso."

O que eles esperam que o público leve do filme

Embora o humor seja o motor da narrativa, Julia Aks e Steve Pinder esperam que o filme abra espaço para conversas mais amplas — especialmente sobre um tema que muitas vezes ainda é cercado de silêncio. "Falamos muito sobre isso", diz Pinder. "Nós acreditamos que as pessoas podem falar sobre menstruação com alegria."

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Segundo ele, essa mudança de tom é fundamental. "Queremos que as pessoas sintam que essa é uma conversa que todos podem ter e da qual todos podem participar", explica. "E que ela pode acontecer com humor e com amor." A intenção do filme, portanto, não é apenas provocar risadas, mas também normalizar o assunto. "Não precisa ser algo carregado de tensão ou vergonha", afirma o diretor.

Ao mesmo tempo, os dois reconhecem que a realidade nem sempre é simples. Para Pinder, o filme também abre espaço para que experiências difíceis sejam compartilhadas. "E tudo bem se esse tema ainda for complicado ou desconfortável para algumas pessoas", diz. O importante, segundo ele, é que o diálogo exista. "Mesmo que seja algo difícil ou carregado de vergonha, ainda precisamos falar sobre isso", conclui. "Precisamos dar voz às nossas verdades."

Qual é a história de O Drama Menstrual de Jane Austen?

Ambientada no ano de 1813, na Inglaterra, a história acompanha a Srta. Estrogenia (Julia Aks), que menstrua no momento de um pedido de casamento muito esperado. Seu pretendente, o Sr. Dickley (Lachlan Ta'imua Hannemann), confunde o sangue com um ferimento grave, dando início a uma sequência de situações engraçadas e cheias de mal-entendidos. Confira o trailer:

Rolling Stone Brasil
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