Documentário de Felipe Casanova ganha prêmio em festival francês; outros curtas brasileiros concorrem

O Festival de Clermont-Ferrand, vitrine mundial da produção de curtas-metragens, entra na sua reta final com a divulgação dos primeiros prêmios concedidos por parceiros do evento. Entre os títulos já anunciados, o curta "O Rio de Janeiro Continua Lindo", do cineasta suíço-brasileiro Felipe Casanova, foi escolhido como melhor documentário pelo júri da plataforma Tënk. O filme se organiza em torno da carta de uma mãe ao filho morto, ambientada durante o Carnaval carioca, e entrelaça luto, violência policial de Estado e celebração popular.

6 fev 2026 - 14h08
(atualizado às 16h08)

Adriana Moysés, enviada especial a Clermont-Ferrand

O diretor suíço-brasileiro Felipe Casanova ao lado de um painel com imagens de seu filme “O Rio de Janeiro Continua Lindo”, na área do Mercado do Filme do Festival de Clermont-Ferrand.
O diretor suíço-brasileiro Felipe Casanova ao lado de um painel com imagens de seu filme “O Rio de Janeiro Continua Lindo”, na área do Mercado do Filme do Festival de Clermont-Ferrand.
Foto: © RFI/Adriana Moysés / RFI

Nas seleções oficiais do festival, "O Rio de Janeiro Continua Lindo" concorre na mostra Labo, dedicada às obras mais inovadoras. Outros três curtas brasileiros estão na disputa: "Frutafizz", de Kauan Okuma Bueno, selecionado para a competição internacional; "Mira", de Daniella Saba, e "Samba Infinito", de Leonardo Martinelli, ambos na mostra de filmes com produção francesa. Os vencedores serão anunciados neste sábado (7).

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Casanova mudou-se para a Suíça com a família quando tinha 9 anos e estudou cinema na Bélgica. Ele contou à RFI que o filme nasceu de uma intuição inicial e de uma decisão simples: filmar o Carnaval carioca em Super 8. "Para ser sincero, eu não sabia que ia ser um filme sobre violência policial. É o primeiro filme que eu faço no Brasil. Eu tinha vontade de ir com a câmera e filmar e decidi que ia ser durante o Carnaval."

O ponto de partida dramático - a carta de uma mãe para um filho ausente - já estava nos esboços iniciais. "Eu tinha uma intuição de um filme-carta, de uma mãe que trabalha durante o Carnaval e escreve para o filho que talvez esteja festejando num bloco que a gente nunca vê. Já tinha essa ideia de ausência. Eu sabia que ia ser uma coisa social, mas não fazia ideia que ia ser sobre violência policial."

Do filme-carta ao impacto da história de Bruna

A virada surgiu quando o diretor encontrou as ambulantes Ilma e Bruna. "A Bruna me contou a história dela, falando que perdeu o filho assassinado em 2018 pela Polícia Militar. Fiquei muito tocado e chocado. Eu sabia que isso acontecia sempre, mas nunca tinha conversado com uma mãe que perdeu o filho assim", relata o cineasta. Bruna mostrou ao diretor as cartas que escrevia ao filho, assim como de outras mães, e a roupa que usou no desfile da Portela em 2024, que convidou 16 mães que perderam seus filhos para "a violência de Estado".

Filmado em Super 8 e construído como documentário, o curta articula presente e passado ao trabalhar com imagens de arquivo da ditadura militar. Para Casanova, essa ponte histórica é central: "É uma situação que é de hoje, mas também é de ontem, de 20, 30, 100 anos atrás. Uma mãe preta que perde seu filho é uma coisa que está presente há muito tempo." O uso do arquivo, explica, dá forma a uma "carta atemporal" e convoca "os fantasmas da nossa sociedade": "Essa violência policial de hoje acho que é uma herança que vem da ditadura militar." 

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O Carnaval aparece como contraponto simbólico. "O Carnaval também tem todas essas camadas da história brasileira - da colonização, do tempo dos escravos -, ele carrega tudo isso. O samba vem da tristeza", lembra o diretor, citando Vinícius de Moraes. "Um bom samba é uma forma de oração. Acho que o samba traz essa energia, essa luta. Vamos transformar isso em outra coisa, e o filme carrega essa identidade."

"Frutafizz" na competição internacional

Em seu primeiro curta-metragem profissional, "Frutafizz", Kauan Okuma Bueno narra a viagem de dois colegas pelo interior de São Paulo, explorando memória e pertencimento. Selecionado para a competição internacional de Clermont-Ferrand após vencer o Kikito de melhor curta em Gramado, o filme chega ao público francês carregado da emoção do diretor. "Me sinto muito lisonjeado, não só na parte de distribuição, mas desde sempre - como foi feito esse projeto. Significa para mim trazer um recorte da cultura brasileira para pessoas que não têm tanto acesso ou que não consomem tanto do Brasil."

Kauan destaca o caráter coletivo da obra. "É um filme que foi se moldando com o processo, a partir da memória de todo mundo que estava ali - amigos, veteranos, professores. Gosto de parafrasear o Adirley Queiroz: 'Da nossa memória, fabulamos nós mesmos'. O filme abraça muito essa ideia."

O título surge de um refrigerante da infância do protagonista. "Ele não sabe dizer o gosto porque o gosto não importa de fato. O que importa é o que aquilo representa. Nós somos feitos de histórias incompletas e a gente tenta preencher isso com sentimento e valor."

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Anthony França Brown, roteirista do curta, reforça o caráter plural da criação: "Hoje em dia, para você fazer um filme, tem que estar envolvido em todas as áreas. São recortes de memórias e experiências de várias pessoas que fazem parte desse coletivo que foi o roteiro."

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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