Para Beth Goulart, "é através das histórias que o mundo ganha vida dentro de nós". Nesta quarta-feira, 5, a atriz conduziu uma mesa sobre o espaço das mulheres no teatro e na literatura, Mulheres que Contam Histórias: Carreira, Vida e Protagonismo na Arte, no Summit Mulheres nas Profissões, em São Paulo. Beth abordou a força e a importância de Clarice Lispector na sua vida - ela atualmente interpreta a escritora no teatro em Simplesmente Eu, Clarice Lispector, espetáculo cujo roteiro também assina - e a importância do teatro em uma época de proliferação da inteligência artificial.
"Em tempos de IA, temos que valorizar o ser humano. Não podemos esquecer da nossa humanidade, a nossa capacidade de sentir, de transmitir, de nos relacionar, de nos tocar, nos olhar pelos olhos, tocar nas mãos, nos abraçar, nos emocionar juntos, lembrar que estamos juntos nesta caminhada", disse a atriz.
Sobre Clarice Lispector, Beth citou que teve o primeiro contato com a escritora aos três anos de idade - e isso a possibilitou a, durante toda a vida, entender a si mesma. "Clarice não dá respostas; ela cria perguntas cada vez melhores e nos ajuda a perguntar. Nessa busca de quem ela é, ela nos provoca a questionar 'quem somos nós?', que talvez seja a pergunta mais profunda que a filosofia nos ensina a exercitar."
Mulheres na literatura
Para assumir o painel com ela, Beth convidou a também atriz Clarice Niskier, Malu Poleti, editora executiva na editora Planeta, e a professora e escritora Marcella Abboud. Marcella abordou a importância da literatura por mulheres, e não de mulheres - nomeação que pode até ganhar conotação pejorativa. Para ela, livros escritos por mulheres têm o poder de mudar a forma como meninas se enxergam na sociedade.
"A culpa nasce na gente, volta para a gente... A gente não nasceu para sentir culpa. E a culpa, enraizada culturalmente, só vai ser combatida de fato quando começarmos a ensinar às meninas que transbordar está tudo bem e que ocupar espaço está tudo bem. A literatura permite que eu ocupe um espaço que quase nunca nos foi dado, que é o espaço do saber formal", afirmou a professora.
Para Malu, a seleção editorial, base para essa força que a literatura assume, tem o poder de "construir um grupo" ou "agentes sociais". "Eu me coloco muito na posição do que a sociedade está esperando que as mulheres assumam através da leitura. É tentar identificar como essa mulher se posiciona, o que ela está querendo passar para o mundo e com o que ela quer contribuir para as outras mulheres e também para os homens", detalhou.
Mulheres no teatro
Clarice abordou a importância do teatro como uma forma de humanização e disse que "uma das únicas profissões que não vão ser substituídas pela inteligência artificial é a de ator de teatro". Para ela, o espaço do teatro é um "espaço livre, sem gênero".
"Temos que apresentar ao público sempre uma alternativa de vida. O mundo é como é, mas o teatro serve para lembrar às pessoas que tudo poderia ser diferente. Contamos histórias para que as pessoas percebam que somos todos criadores e cocriadores da nossa realidade", afirmou a atriz.
Beth fez coro às falas de Clarice e citou uma fala de Fernanda Montenegro, que diz que "conhecemos a saúde de um país pela saúde do teatro que ele produz". "Pela qualidade do teatro, entende-se a qualidade social. Nós somos um espelho dessa sociedade, que se revê através das histórias que contamos."
Ao final do painel, Beth também lembrou a influência da mãe, Nicette Bruno, para dizer que a trajetória das mulheres é resultado da trajetória das mulheres que as influenciaram.