"Quando eu ouço Master of Puppets (1986) agora, eu simplesmente fico ali e penso, 'Que p#rra é essa? Como a gente fez isso?'", conta Lars Ulrich, baterista do Metallica, à Rolling Stone com uma risada. "São músicas muito ousadas."
Quarenta anos se passaram desde que o baterista e seus colegas de banda do Metallica lançaram sua obra-prima de tirar o fôlego e ela ainda soa tão poderosa quanto destemida. Master of Puppets foi lançado originalmente em 3 de março de 1986 e continua sendo um marco não apenas para a banda, mas para o metal como gênero.
Suas oito músicas oferecem um mergulho visceral em todas as formas de manipulação. Graças a uma mistura de riffs e ritmos que fazem a cabeça balançar, eles nunca trocam peso por complexidade.
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O trabalho saiu apenas cinco anos após o início da carreira do Metallica. Nessa meia década o grupo já havia servido como pioneiro do thrash metal em seu álbum de estreia, Kill 'Em All (1983) e acrescentado melodias complexas e elegantes à mistura no ano seguinte com Ride the Lightning (1984).
Mas é nas idas e voltas da faixa-título de Master of Puppets, nos ritmos alucinantes e fragmentados de "Disposable Heroes" ou na força de "The Thing That Should Not Be", entre outras músicas, que a banda energizou e focou seu som novamente. É um disco com um legado do qual o Metallica, cujos membros tinham em média 23 anos na época, não poderia escapar agora mesmo se tentasse.
Nos anos desde então, a melancólica "Welcome Home (Sanitarium)" e a brutal "Battery" tornaram-se músicas essenciais no repertório, enquanto sua faixa-título - um espetáculo sofisticado sobre dependência de drogas - se tornou a música mais tocada ao vivo do Metallica. "Anos atrás, fizemos uma turnê na Europa onde deixamos os fãs escolherem as listas de músicas, e, de 20 ou 30 shows, 'Master of Puppets' foi a música mais pedida em todos eles", nos diz o baterista, em entrevista de 2016. "É loucura."
O álbum também está irrevogavelmente ligado ao baixista Cliff Burton, que cocriou quase metade das músicas e morreu em um acidente bizarro de ônibus de turnê seis meses após o lançamento do disco. Em tempos recentes, a banda começou a tocar o instrumental de oito minutos "Orion" em homenagem a Burton.
O disco por si só seria suficiente para garantir o lugar do Metallica no panteão do metal - mesmo que eles não tivessem se reunido mais tarde naquele ano e, após alguns lançamentos, seguido em frente e gravado o mega-sucesso Black Album (1991), tornando-se uma das maiores bandas do universo. Ulrich, o guitarrista Kirk Hammett e o co-produtor Flemming Rasmussen conversaram com a Rolling Stone sobre o que Master of Puppets significa para eles décadas depois.
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"Época louca"
"Foi uma época louca", lembra Ulrich do verão (inverno no hemisfério sul) de 1985. Naquela primavera (outono por aqui), os membros da banda haviam terminado meses de turnê em apoio ao álbum Ride the Lightning e voltado para casa, na área da baía de São Francisco. Hammett foi acampar e pescar, de acordo com uma entrevista de 1986 com Ulrich, enquanto Hetfield e Ulrich viajavam pelo país seguindo o Deep Purple. Quando se sentiram prontos para escrever, o vocalista e o baterista, que compartilhavam uma casa em El Cerrito, começaram a experimentar em sua garagem novo material vindo de fitas-cassete com ideias de Burton e Hammett. A banda toda se reunia para improvisar e logo gravaram com os outros membros através de um toca-fitas.
"Éramos realmente jovens, bem imaturos", diz o baterista. "Quando vejo fotos nossas daquela época, havia uma pureza. Todos nós éramos fãs de música. Tínhamos todo tipo de pôster na parede: Iron Maiden, Michael Schenker, UFO, Ritchie Blackmore. Tudo girava em torno de música. Estávamos ouvindo Deep Purple, AC/DC, Motörhead e o resto. Vivíamos e respirávamos música 24 horas por dia, sem segundas intenções."
O verão de 1985 ainda é vívido para Ulrich, com uma memória em particular que se destaca. "Sentamos e assistimos ao Live Aid", ele diz. "Gravamos o show, ficamos lá assistindo o Black Sabbath tocar às 9 da manhã, ou seja lá que hora fosse. Tinha Status Quo e Led Zeppelin. Foi uma época louca."
A primeira música que o Metallica escreveu para o LP foi "Battery", seguida por "Disposable Heroes". Uma demo bruta que o grupo gravou naquele verão, supostamente no dia seguinte ao Live Aid, contém versões instrumentais e vocais de "Battery", "Disposable Heroes", além de "Welcome Home (Sanitarium)" e "Orion", então conhecida como "Only Thing", assim como um instrumental de "Master of Puppets".
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As únicas músicas que não estavam completas quando chegaram ao estúdio foram "The Thing That Should Not Be" e "Orion". Originalmente, eles esperavam que o cantor e baixista do Rush, Geddy Lee, produzisse o LP, mas ele estava indisponível devido a limitações de tempo. Então eles decidiram trabalhar novamente com Rasmussen, que anteriormente havia produzido Ride the Lightning.
"Metallica sempre fazia demos realmente elaboradas, realmente boas", lembra Rasmussen. "Tudo sempre estava arranjado e pronto para rock."
"Há uma faísca, espontaneidade ou impulsividade quando você está na casa dos vinte", diz Ulrich. "Escrevemos Master of Puppets provavelmente em oito semanas durante aquele verão. Hoje em dia, levo oito semanas apenas para ir até o estúdio. É tipo: 'Que diabos fizemos no verão de 85 que conseguimos simplesmente dar à luz isso da primeira à última nota em oito semanas?' Death Magnetic nos levou provavelmente 18 meses desde quando começamos a escrever até começarmos a gravar. Hardwired… To Self Destruct (2016) provavelmente nos levou cerca de nove meses. Como diabos você escreve um disco como Master of Puppets em oito semanas?"
Um mês após o Live Aid, o Metallica voou para a Inglaterra para o que seria seu maior show até então, uma aparição no meio da programação no Monsters of Rock Festival em Castle Donington. "Se você veio aqui para ver calça de lycra, maquiagem, todas essas m*rdas e as palavras 'rock & roll, baby' em todas as músicas, esta não é a banda, p*rra", disse Hetfield ao público. "Viemos aqui para detonar algumas cabeças." Um público estimado de 80 mil pessoas compareceu naquele dia para o festival, que teve ZZ Top como atração principal.
O Metallica retornou à Califórnia onde tocaram um set descontraído, regado a cerveja, anunciado como Four Horsemen no point de punk e metal da Bay Area, Ruthie's Inn, assim como um show em 31 de agosto no famoso festival Day on the Green em San Francisco. Depois, seguiram para o Sweet Silence Studios em Copenhague para se reunir com o produtor dinamarquês. Na próxima vez em que tocariam em San Francisco, na véspera de Ano Novo de 1985, iriam estrear um novo hino: "Master of Puppets".
"A gente meio que queria refazer Ride the Lightning, só que muito melhor", diz Rasmussen. "Sempre pensei que o Metallica elevava o padrão toda vez que entrava no estúdio. Eles desafiavam suas próprias habilidades técnicas o tempo todo, o que é a única forma de você melhorar."
As sessões
As primeiras músicas que o Metallica gravou para Master of Puppets nunca chegaram a ser lançadas em vinil ou qualquer outro meio. As sessões para o álbum começaram em 3 de setembro de 1985 e, segundo as anotações de gravação de Rasmussen, a banda pretendia tocar algumas músicas cover como possíveis lados B, só para se soltar. "Fizemos 'Green Hell', do Misfits, e 'The Prince' do Diamond Head", ele diz, olhando para suas anotações. "Também deveríamos ter feito algo chamado 'Money' - não sei qual música chamada 'Money' é - mas acabamos fazendo 'Green Hell' no lugar."
"Pelo menos para mim, eu descobri na gravação desses dois covers como eu deveria tocar bateria nas outras músicas, que era forma muito mais agressiva, mesmo no estúdio", disse Ulrich em 1986. "Acho que todos nós estamos tocando de forma mais agressiva. Estamos tão confiantes agora no estúdio."
"Money", no caso do Metallica por volta de 1985, teria sido a sombria "The Money Will Roll Right In" do grupo punk de San Francisco, Fang, que a banda havia tocado no show do Ruthie's e que o Nirvana faria um cover famoso no Reading Festival em 1992. O Metallica mais tarde gravaria as outras duas músicas novamente com o baixista Jason Newsted - "Green Hell" seria combinada com outra música do Misfits, "Last Caress", para o EP de 1987 $5.98: Garage Days Re-Revisited, e "The Prince" se tornaria o lado B do single "One", de 1988.
Para gravar o resto de Master of Puppets, a banda trabalhou diligentemente durante dezembro, começando as sessões por volta das 19h e indo noite adentro, terminando em qualquer horário entre 4 e 6 da manhã. "O hotel em que estavam incluía um buffet de café da manhã gratuito, então eles mais ou menos voltavam a tempo de comer", lembra Rasmussen.
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Embora tivessem aceitado o apelido de "Alcoholica" na época, as sessões eram focadas e produtivas. "Lars e eu éramos quase obsessivos sobre o quão focado tudo precisava soar", lembra o produtor. "Queríamos que fosse perfeito. Sempre falávamos sobre a vibe da música." Algumas semanas após o início das sessões, em 14 de setembro, a banda fez um show único no Metal Hammer Festival da Alemanha, onde testaram o hino anti-guerra de Master of Puppets, "Disposable Heroes".
"Essa canção tem uma das minhas letras favoritas que James escreveu", diz Ulrich. "Ele captou perfeitamente toda a irrelevância desperdiçada de um soldado indo para a guerra e da vida se desenrolando antes do seu nascimento. Musicalmente, ela tem muitos elementos clássicos do Metallica: partes rápidas, versos em tempo médio, seções em meio-tempo e muita coisa progressiva interessante que se entrelaça com toda a seção do meio. Hoje em dia, é uma faixa incrível para apresentar em shows especiais."
Evoluções
Uma forma notável em que o Metallica havia evoluído desde a gravação de Ride the Lightning foi o vocal de James Hetfield. Embora ele tenha cantado a primeira parte da quase-balada "Fade to Black" no disco de 1984, o vocalista - então com 22 anos - abordou a faixa mais leve do Master, "Welcome Home (Sanitarium)", que foi inspirada em parte pelo livro Um Estranho no Ninho, com uma confiança recém-descoberta. "Ele era mais um vocalista do tipo que gritava em Ride the Lightning", diz Rasmussen. "A melhora foi enorme. Ele ainda estava um pouco intimidado ao fazer vocais, mas fizemos algumas coisas que não teríamos sido capazes de fazer em Ride the Lightning."
Outra maneira pela qual o Metallica havia melhorado em relação ao passado era a complexidade de suas músicas. Como em "Disposable Heroes", a abertura do álbum, "Battery", ostentava um arranjo complexo que abrangia acústico, dedilhados inspirados em Ennio Morricone, riffs de thrash e um solo bluesy. "Damage Inc.", outra faixa veloz destruidora de escalas, começa com acordes expansivos que se aproximam da música sagrada de Johann Sebastian Bach "Komm, süßer Tod, komm selge Ruh" antes de acelerar para Hetfield gritando: "F#ck it all and f#cking no regrets." Eles experimentaram doom metal ao estilo Black Sabbath com H.P. Lovecraft misturado em "The Thing That Should Not Be" e atacaram televangelistas gananciosos a progressiva e imprevisível "Leper Messiah".
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A faixa-título "Master of Puppets"
Então veio a música de Hetfield sobre viciados em drogas, "Master of Puppets". "Eu simplesmente fui a uma festa em San Francisco e havia um monte de pessoas doentes se drogando e isso me deixou enjoado", disse Hetfield em 1986, explicando por que a escreveu. "Não é sobre qualquer droga em geral, mas sobre pessoas sendo controladas pelas drogas e não o contrário." Com sua linha de guitarra inicial quebrada, solo melancólico no meio e seção artística elaborada, a épica de oito minutos e meio logo se tornou a apoteose do som do Metallica.
"Minha música favorita é 'Master of Puppets'", disse Burton em uma entrevista de 1986 reimpressa no livro de K.J. Doughton, Metallica Unbound. "Acho que é a melhor música do Metallica até agora."
"Essa levou algum tempo", lembra Rasmussen. "Há muitas partes e melodias diferentes, mas é uma música sensacional." Para apertar o som, o produtor lembra de ter pedido à banda para afinar seus instrumentos um pouco mais baixo do que o usual, para que pudessem mixar com as fitas rodando mais rápido, de modo que soasse afinado. "Nós gravamos algumas vezes e decidimos pela que tinha a melhor sensação, porque eles teriam que tocá-la ao vivo."
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Som focado, saudades de casa
Como conseguir um som focado era importante para o Metallica na época, eles trabalharam duro para encontrar os instrumentos certos para gravar. Hetfield e Hammett já haviam descoberto quais amplificadores funcionavam para eles no estúdio dinamarquês depois que seus equipamentos foram roubados antes da gravação de Ride the Lightning, mas Ulrich ainda queria um som de bateria diferente, especificamente o de uma caixa Ludwig Black Beauty. O único músico que ele conhecia que tinha uma na época era Rick Allen, do Def Leppard, e ele ainda estava se recuperando de um acidente de carro que lhe custou o braço esquerdo. "Então [Lars] ligou para o gerente deles e disse: 'Ei, o Rick não está usando a caixa agora. Você pode enviá-la?'", lembra Rasmussen. "No dia seguinte ela estava lá. Eles simplesmente enviaram por transporte expresso durante a noite. Então, em um dos seus dias de folga, ele foi a algumas lojas de música na Dinamarca e encontrou uma que estava na prateleira há uns 10 anos e custava o preço de 1976. Agora ele tem, tipo, 20 delas." Por sua vez, Allen faria um retorno no Monsters of Rock Festival na Inglaterra naquele verão.
Enquanto o que viria a se tornar uma sessão de três meses e meio avançava, os membros da Metallica, nascidos nos EUA, começaram a sentir gravações de casa. Hammett e Burton ficaram especialmente entediados enquanto esperavam Ulrich terminar as faixas de bateria. "Nós ficávamos acordados 24 horas seguidas e apenas saíamos para andar por Copenhague meio bêbados, fazendo qualquer coisa para passar o tempo", diz Hammett. "Lembro-me de que em um momento, encontramos uma praia no mapa. Então fomos até lá, mas estava tão frio e não havia absolutamente nenhuma onda ou qualquer coisa assim. Cliff e eu ficamos apenas agasalhados nessa praia estranha em Copenhague dizendo, 'Deus, este lugar está nos deixando loucos!'"
A outra coisa que eles faziam para passar o tempo era jogar pôquer. "Cliff era um dos que gostavam mesmo de pôquer", diz Rasmussen. "Ele era louco por chamar cartas coringas. Seriam dois e valetes de um olho só e reis pretos. Acho que ele realmente queria tirar um royal flush, mas nunca conseguiu. Ele percebeu que se houvesse oito coringas, a chance aumentava bastante." Ele ri. Na maior parte do tempo, eles estavam jogando por "quantias mínimas de dinheiro", acrescenta o produtor, como o equivalente a 10 centavos em coroas dinamarquesas.
O Metallica também relaxava durante as sessões se divertindo com seus amigos do grupo dinamarquês de metal ocultista Mercyful Fate. "A gene ia para o bar e começávamos a beber", diz Hammett. "Lembro que entramos em um enorme, enorme jogo de dados da mentira. Terminou em uma grande briga bêbada entre nós e o Mercyful Fate. Foi tão engraçado. Começamos a lutar dentro do bar e de alguma forma isso foi parar na rua. Estávamos rindo o tempo todo, apenas bêbados e sem nos machucar. Foi apenas uma forma de liberar nossa raiva e frustração e qualquer tipo de apreensão e insegurança que tínhamos", continua Hammett.
Quaisquer inseguranças que o Metallica tivesse, não as mostraram no disco. Uma das peças musicais mais ousadas de Master of Puppets é o instrumental de oito minutos e meio "Orion", que começa com um som de baixo cru e abafado que cresce para um jam vibrante com solos se alternando entre melancólicos e esperançosos antes de desaparecer em uma linha de guitarra base militarista. "Cliff criou essas partes melódicas realmente, realmente boas", diz Rasmussen. "As melodias são tão fortes que você não precisa de vocais ali."
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"Para mim, 'Orion' foi o canto do cisne de Cliff Burton", diz Hammett. "Era uma grande peça musical e ele havia escrito toda a parte do meio. De certa forma, isso nos deu uma visão de para onde ele estava indo. Se ele tivesse ficado conosco, acho que ele teria seguido ainda mais naquela direção. Nosso som seria diferente se ele ainda estivesse aqui."
"Ele tinha um tipo diferente de feel e abordagem comparado o resto de nós", ele continua. "Foi muito bem-vindo."
Master of Puppets muda a vida do Metallica
Quando as sessões terminaram, Rasmussen ajudou a empacotar as fitas em um estojo de bateria para que Ulrich pudesse chegar em casa na Bay Area a tempo do show da banda no Civic Auditorium, onde eles a o Metallica tocaria "Master" e "Disposable Heroes" pela primeira vez nos EUA. Na próxima vez que a banda se apresentasse, Master of Puppets teria algumas semanas de lançamento e a turnê seguinte mudaria a banda para sempre.
De março até agosto de 1986, o Metallica passou a maior parte das datas da turnê Damage Inc. abrindo shows para Ozzy Osbourne. "Eles sempre foram uma banda muito boa", Osbourne lembrou em 2009. "Sinto-me meio honrado de poder passar a tocha para uma nova geração."
A turnê seguiu tranquila até julho, quando Hetfield quebrou o braço andando de skate. O técnico de guitarra e membro do Metal Church, John Marshall, precisou tocar guitarra base, mas o Metallica continuou sem se abalar. Após a turnê com Ozzy terminar, eles tiraram um mês de folga e começaram uma etapa europeia da turnê que duraria pouco mais de duas semanas. No show da banda em Estocolmo, no dia 26 de setembro, o braço do frontman já havia se recuperado e ele tocou guitarra base ao vivo pela primeira vez em meses. Esse também seria o último show de Burton.
A morte de Cliff Burton
Após o show em Estocolmo, os membros do Metallica e sua equipe embarcaram em um ônibus de turnê para voltar a Copenhague, desta vez para um concerto. Por volta das 6h30 da manhã, o veículo derrapou para fora da estrada. Hammett, que foi arremessado de sua cama beliche, sofreu um olho roxo, enquanto Ulrich quebrou um dedo do pé. Burton foi lançado através da janela do veículo, que então tombou sobre ele, esmagando-o. Ele tinha 24 anos.
O motorista, que mais tarde foi acusado de homicídio culposo, mas não foi condenado, culpou uma placa de gelo na estrada pelo acidente. Hetfield e Hammett gritaram com ele, segundo o livro Metallica Unbound e o cantor voltou pela estrada para procurar o local da derrapagem enquanto esperavam uma grua para levantar o ônibus de cima do baixista. Hetfield posteriormente quebrou duas janelas de hotel naquela noite, enquanto Hammett dormiu com a luz acesa porque estava tão abalado pelo incidente. A Guitar World relatou que o funeral do baixista ocorreu 10 dias depois na Bay Area e "Orion" foi tocada durante o velório.
"Cliff era tão único", diz Ulrich. "Ele era muito protetor do seu próprio estilo. Um fotógrafo poderia dizer algo como, 'Cliff não deveria usar aquelas calças boca de sino largas,' mas aquilo era tão protetor de quem ele era."
"Ele diria: 'Bem, se eu usá-las tempo suficiente, elas vão voltar à moda de qualquer jeito e eu gosto disso'", diz Rasmussen. "Ele foi um dos caras mais legais que eu já conheci, um gigante gentil. Mas quem usava calças boca de sino nos anos oitenta?"
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"Ele se deleitava em ser único e autônomo. E isso é obviamente uma das mensagens maiores do Metallica", diz Ulrich. "Não havia ninguém como aquele cara. Eu disse para minha esposa outro dia, quando estávamos olhando fotos antigas: 'Ele era um cara bastante bonito na luz certa'. [Risos.] Quando lembramos dessa época, todos nós éramos desajeitados e marginalizados. Eu não sei se 'bonito' era algo que já se associava à Metallica, mas há algumas fotos em que ele é um cara muito bonito e atraente. E ele tinha uma personalidade magnética, bem charmosa quando queria."
Pouco depois da morte de Burton, o Metallica decidiu continuar e iniciou uma busca por um novo baixista. Eles testaram dezenas de possíveis substitutos, mas o trabalho acabou ficando com um músico de Phoenix de 23 anos chamado Jason Newsted, que anteriormente tinha tocado com o Flotsam and Jetsam.
Sucesso
Na primeira semana de novembro de 1986, Master of Puppets tornou-se o primeiro álbum do Metallica a receber disco de ouro. Desde então, vendeu mais de 6 milhões de cópias apenas nos EUA. Na mesma semana, o Metallica retomou a turnê Damage Inc., no dia 8 de novembro de 1986, o primeiro show oficial de Newsted. "Cliff tinha esse tipo de abordagem artística, enquanto Jason era muito técnico, tocava com perfeição", diz Rasmussen. "Cliff era mais musical."
Newsted ficou com o grupo até 2001 e, durante seu tempo na banda, a banda incorporou riffs inéditos de Burton em "To Live is to Die", do álbum …And Justice for All de 1988. Em 2003, o ex-baixista do Suicidal Tendencies e de Ozzy Osbourne, Robert Trujillo, entrou na banda. Mas não importa quem esteja na banda, Ulrich ainda valoriza o tempo que passou com Burton.
"Eu penso muito nele", diz o baterista. "Foi algo muito único que tínhamos à nossa disposição nesses três discos em termos do som daquela formação. Deus abençoe Jason Newsted e Deus abençoe Robert Trujillo por sua individualidade e pelo que trouxeram para o Metallica desde a morte dele, mas Cliff realmente era um personagem por si só. Isso não mudou nem um pouco desde então. Só se torna cada vez mais aparente."
Nos anos 2000, o Metallica começou a fazer um balanço do que haviam criado em Master of Puppets. Quando o Metallica começou a compor faixas para seu álbum mais recente, Death Magnetic, de 2008, o produtor Rick Rubin lhes pediu que pensassem nos discos que ouviam enquanto criavam Master of Puppets. "Você pode se inspirar e ser influenciado por algo sem tentar recriá-lo", disse ele, segundo Ulrich. ("O principal objetivo do nosso trabalho juntos era fazer com que eles abraçassem novamente o ser Metallica, sentindo-se bem em ser uma banda de heavy metal", disse o produtor à Rolling Stone.) Claramente inspirada, a banda decidiu apresentar Master of Puppets na íntegra ao vivo durante uma turnê europeia em 2006. Isso se tornou um ponto de virada para a banda.
"Foi muito divertido", diz Ulrich. "A gente era um pouco cauteloso com essa coisa da nostalgia, mas quando fizemos, foi realmente muito legal. Foi a primeira vez que nos permitimos olhar pelo retrovisor e nos sentirmos bem com o que fizemos no passado. Sempre tivemos medo da repetição e quase negamos nosso passado. Mas isso foi bom."
Hammett descobriu que o legado de Master of Puppets continuou a crescer de maneiras únicas. "O que mais me surpreende é quando ouço rádio e toca alguma coisa do álbum. Fico impressionado com o quanto ainda soa atual e moderno em meio a toda outra música tocada antes e depois", diz ele. "Sou grato por isso. Nem sempre acontece."
Rasmussen, que trabalhou pela última vez com o Metallica como co-produtor em seu LP de 1988, …And Justice for All, tem mais dificuldade em ouvir como Master of Puppets se mantém - literalmente. "Eu nem acho que tenho meu CD de Master of Puppets", ele diz. "Meus filhos continuam roubando. É um saco, mas é bom que eles queiram ouvir."
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