Proibir não é proteger

Proibir é simples. Construir equilíbrio exige mais responsabilidade.

17 jun 2026 - 15h38

O vereador Cris Moraes apresentou recentemente na Câmara Municipal de Canoas um projeto de lei que pretende proibir rodeios e diversas provas tradicionalistas realizadas com animais. A proposta reacende um debate antigo no Rio Grande do Sul: até que ponto o Poder Público pode intervir para restringir manifestações culturais que fazem parte da história e da identidade do povo gaúcho?

Foto: Divulgação / Porto Alegre 24 horas

A preservação dos animais é um valor importante e deve ser observada em qualquer atividade humana. Maus-tratos devem ser investigados, fiscalizados e punidos com rigor. Sobre isso não existe divergência. O problema começa quando se tenta transformar casos isolados ou eventuais irregularidades em justificativa para extinguir uma tradição inteira.

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Os rodeios não surgiram como espetáculo. Eles nasceram da própria formação do Rio Grande do Sul. São parte da cultura campeira, da lida no campo e das tradições que ajudaram a construir a identidade do nosso Estado. Milhares de famílias participam de rodeios todos os anos. Centros de Tradições Gaúchas, entidades tradicionalistas, pequenos comerciantes, produtores rurais e artistas encontram nesses eventos uma importante fonte de integração social, geração de renda e preservação cultural.

O debate, portanto, não pode ser reduzido a uma falsa escolha entre cultura e proteção animal. A legislação já prevê mecanismos de fiscalização, acompanhamento veterinário e responsabilização para situações de abuso. Se existem falhas, elas devem ser corrigidas. Se existem excessos, devem ser punidos. O que não parece razoável é concluir que a única solução possível seja a proibição.

Como mestre em Direito e estudioso da proteção animal, sempre defendi que os animais merecem respeito e tutela jurídica adequada. Mas também aprendi que uma sociedade democrática precisa ser capaz de harmonizar valores constitucionais. De um lado está a proteção da fauna. Do outro, a proteção das manifestações culturais que compõem o patrimônio imaterial do povo brasileiro.

Quando o Estado abandona o caminho da regulamentação para adotar o da proibição, abre-se um precedente perigoso. Hoje são os rodeios. Amanhã poderá ser qualquer outra manifestação cultural que desagrade determinado grupo político ou ideológico.

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O Rio Grande do Sul não precisa escolher entre sua cultura e a proteção dos animais. Precisa garantir ambas. O verdadeiro avanço não está em apagar tradições. Está em aperfeiçoá-las, fiscalizá-las e preservá-las para as próximas gerações.

Proibir é simples. Construir equilíbrio exige mais responsabilidade.

Giuliano Tamagno

Advogado, professor e mestre em Direito.

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