Fertilizante estratégico: por que o Brasil precisa da ureia do Irã

A ureia ocupa um lugar central na agricultura brasileira e, por consequência, na segurança alimentar do país. Saiba por que o país precisa dessa fonte proveniente do Irã.

15 jan 2026 - 12h04

A ureia ocupa um lugar central na agricultura brasileira e, por consequência, na segurança alimentar do país. Afinal, trata-se de um fertilizante nitrogenado amplamente utilizado nas lavouras de grãos, nas pastagens e em diversas outras culturas que movimentam a economia nacional. Mesmo com forte presença no agronegócio, o Brasil depende das importações para suprir a maior parte de sua demanda, o que explica a compra de ureia de países como o Irã, mesmo em meio a cenários de instabilidade política como a que vive o país persa, com protestos em diversas cidades.

Esse cenário de dependência externa ocorre porque a capacidade de produção interna de fertilizantes nitrogenados não acompanha o ritmo de expansão agrícola. Para manter a produtividade das plantações e assegurar oferta de alimentos, o país precisa buscar ureia no mercado internacional. Dessa forma, qualquer alteração em rotas comerciais, sanções econômicas ou crises regionais pode ter efeito direto no custo de produção das safras brasileiras.

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O nitrogênio é essencial para o crescimento das folhas, para a formação de proteínas e para o desenvolvimento geral das culturas agrícolas – depositphotos.com / Focusarg
O nitrogênio é essencial para o crescimento das folhas, para a formação de proteínas e para o desenvolvimento geral das culturas agrícolas – depositphotos.com / Focusarg
Foto: Giro 10

Por que a ureia é tão importante para o Brasil?

A palavra-chave central nesse debate é ureia, pois ela é uma das principais fontes de nitrogênio para as plantas. O nitrogênio é essencial para o crescimento das folhas, para a formação de proteínas e para o desenvolvimento geral das culturas agrícolas. Em lavouras de soja, milho, trigo, arroz, café, cana-de-açúcar e em pastagens para pecuária, a ureia é um insumo quase indispensável.

Sem fertilizantes nitrogenados em quantidade adequada, a produtividade por hectare tende a cair de forma significativa. Isso impacta diretamente o custo final de alimentos e produtos agrícolas, além de reduzir a competitividade do agronegócio brasileiro no comércio internacional. Por essa razão, a ureia é tratada como um insumo estratégico, comparável a combustível para o transporte ou energia para a indústria.

Outra razão para a importância da ureia no Brasil é a extensão territorial e a diversidade de climas e solos. Muitas regiões apresentam solos pobres em nutrientes e dependem de adubação constante. A ureia, por ter alta concentração de nitrogênio, é uma opção logística e economicamente conveniente, já que permite transportar grande quantidade de nutriente em menor volume, facilitando a distribuição em um país de dimensões continentais.

Quais fatores explicam a dependência brasileira de ureia importada?

A dependência externa de ureia está ligada principalmente à estrutura da indústria de fertilizantes no Brasil. A produção de ureia exige gás natural em grande volume e unidades industriais complexas para transformar esse gás em amônia e, depois, em ureia. Ao longo dos últimos anos, parte das fábricas nacionais foi desativada, arrendada ou operou com capacidade reduzida, o que ampliou a necessidade de importações.

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Além disso, o consumo de fertilizantes cresceu em ritmo acelerado, impulsionado pela expansão da área plantada e pelo uso de tecnologias voltadas ao aumento de produtividade. Essa combinação de menor oferta interna e maior demanda fez com que o Brasil se tornasse um dos maiores importadores mundiais de ureia e outros fertilizantes NPK.

Quando países como o Irã entram na lista de fornecedores, a principal explicação está no balanço entre preço, disponibilidade de produto e condições logísticas. Mesmo em contextos de instabilidade política ou de sanções, agentes do mercado buscam rotas comerciais permitidas pelas normas internacionais para garantir o abastecimento. A prioridade, para o setor produtivo, é manter o fluxo de insumos que sustentam as safras.

Quem são os principais exportadores de ureia no mundo?

No cenário global, a produção e exportação de ureia se concentram em países com forte disponibilidade de gás natural ou com políticas voltadas à indústria de fertilizantes. Entre os principais exportadores mundiais de ureia destacam-se:

  • Rússia - grande produtora de gás natural e importante fornecedora de ureia e outros fertilizantes para diversos continentes.
  • Qatar - país que utiliza suas reservas de gás para produzir e exportar grandes volumes de ureia granulada.
  • Arábia Saudita - combina produção de gás e capacidade industrial para atender mercados da Ásia, África e Américas.
  • China - um dos maiores produtores globais; alterna entre exportar mais ou menos de acordo com políticas internas de oferta e preços.
  • Egito e outros países do Norte da África - atuam como fornecedores relevantes, especialmente para mercados próximos à região do Mediterrâneo.

O Irã também integra esse grupo de grandes produtores e exportadores de ureia, utilizando suas reservas de gás natural para abastecer mercados na Ásia, na América Latina e em outras regiões, sempre dentro das limitações impostas por sanções e restrições internacionais. Essa presença ajuda a explicar por que o Brasil recorre a esse fornecedor, buscando diversificar origens e reduzir riscos de desabastecimento.

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Quando países como o Irã entram na lista de fornecedores, a principal explicação está no balanço entre preço, disponibilidade de produto e condições logísticas – depositphotos.com / bdspn74
Foto: Giro 10

Como a ureia influencia o futuro da segurança alimentar no Brasil?

A relação entre ureia, produtividade agrícola e segurança alimentar é direta. A manutenção de altos níveis de produção de grãos, fibras e proteínas animais depende de um fornecimento estável de fertilizantes nitrogenados. Em um país que figura entre os maiores exportadores de alimentos do mundo, qualquer interrupção prolongada no suprimento de ureia pode afetar tanto o mercado interno quanto o externo.

Diante disso, têm ganhado espaço discussões sobre estratégias como:

  1. Reativação e ampliação de unidades industriais de fertilizantes no território nacional.
  2. Diversificação de fornecedores de ureia, reduzindo a concentração em poucos países.
  3. Investimentos em pesquisa para uso mais eficiente de nitrogênio, diminuindo desperdícios no campo.
  4. Desenvolvimento de alternativas, como tecnologias de liberação controlada ou fontes complementares de nitrogênio.

Esses caminhos, somados à gestão de riscos geopolíticos, tendem a influenciar a forma como o Brasil lidará, nos próximos anos, com a dependência de ureia importada. O equilíbrio entre custo, segurança de abastecimento e sustentabilidade deve continuar no centro das decisões de produtores, indústria e formuladores de políticas públicas.

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