'A Segunda-Feira Começa no Sábado' satiriza trabalho, burocracia e método científico; conheça livro

Romance dos irmãos Strugátski, autores de 'Piquenique na Estrada', usa humor absurdo ao retratar instituto científico que pesquisa com rigor eventos mágicos. De 1965, essa comédia de ambiente de trabalho à la 'The Office' ou 'Ruptura' suscita paralelos com a cultura corporativa atual

6 abr 2026 - 18h11

A principal força do romance A Segunda-Feira Começa no Sábado, publicado originalmente em 1965 e que chega ao Brasil pela editora Aleph, é sua premissa: durante uma viagem de férias ao norte da Rússia, o jovem programador Aleksandr Priválov oferece carona a dois estranhos que o recrutam para trabalhar no Instituto de Pesquisa Científica em Magia e Bruxaria. A partir desse desvio de rota, o protagonista acaba tragado para um mundo em que lendas do folclore eslavo se unem a personagens de Gógol e Púchkin em um cenário no qual o absurdo é a única regra permanente.

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A obra foi escrita pelos irmãos Arkádi e Boris Strugátski, autores de dezenas de livros produzidos a quatro mãos, entre eles o clássico Piquenique na Estrada, que inspirou o filme Stalker, de Andrei Tarkovski. O leitor acostumado aos trabalhos mais conhecidos da ficção científica do leste europeu talvez não imagine o quanto esses autores dialogaram com o humor — um bom exemplo é o polonês Stanislaw Lem, conhecido pelo sombrio Solaris, também adaptado por Tarkovski, que destilou humor escrachado no romance O Congresso de Futurologia, ainda inédito no Brasil, que satiriza uma sociedade supostamente utópica regulada pelo uso de drogas que controlam o comportamento das pessoas.

A Segunda-Feira Começa no Sábado se inscreve ainda na tradição do absurdo que passa por Franz Kafka, Eugène Ionesco, Italo Calvino, Samuel Beckett e Campos de Carvalho, autores nada panfletários, mas que não empregaram o disparate de forma acrítica em relação a seu tempo. O programador Priválov, que vem de uma Leningrado realista, se vê em Soloviéts, uma pequena cidade em que um gato falante, um peixe que concede desejos (desde que eles não envolvam aparatos tecnológicos), um livro que muda de título a cada vez em que é observado e uma moeda "ingastável" que sempre retorna para o bolso são fenômenos corriqueiros, vistos com naturalidade pelas demais pessoas.

Ilustração de Evgeny Migunov para a edição original de 'A Segunda-Feira Começa no Sábado', lançada em 1965
Ilustração de Evgeny Migunov para a edição original de 'A Segunda-Feira Começa no Sábado', lançada em 1965
Foto: Evgeny Migunov/Reprodução / Estadão

O nome do vilarejo não é aleatório: os irmãos Strugátski retratam com corajosa ironia as instituições soviéticas no auge da Guerra Fria. O mais interessante, porém, é que essa comédia de ambiente de trabalho à la The Office ou Ruptura também suscita paralelos com a cultura corporativa atual, verticalmente oposta à realidade soviética. O romance é narrado em primeira pessoa por Priválov, que é um contraponto de sanidade e comedimento em meio a um elenco de personagens extravagantes que protagonizam cenas e diálogos exagerados e teatrais.

Ficção científica e humor nonsense

Décadas antes da ascensão do New Weird, tendência literária que mescla fantasia e ficção científica exemplificada por nomes como China Miéville e Charlie Jane Anders, os irmãos Strugátski retratam com ironia um instituto que se dedica a pesquisar com rigor científico eventos mágicos. Entre relatórios inúteis, protocolos vazios, hierarquias questionáveis e documentos tão confidenciais que devem ser queimados antes da leitura, Priválov testemunha experimentos como a criação de um homúnculo que sente apenas necessidades alimentares para investigar a natureza da felicidade e da satisfação. Departamentos como o do Sentido da Vida e o da Felicidade Linear ajudam a dar a carga nonsense ao romance. "Ele se ocupava do estudo do sentido da vida, mas não tinha avançado muito até então", comenta o narrador-protagonista.

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Certamente não escapa aos irmãos Strugátski e ao leitor atento o absurdo de aplicar à magia, cujas manifestações não são sistemáticas, o rigor do método científico, com observação de fenômenos, isolamento de variáveis, criação de experimentos replicáveis, coleta de dados, análise e elaboração de hipóteses. "A ciência, na qual acreditamos (e amiúde cegamente), já nos prepara de antemão para os milagres vindouros, e o choque psicológico só ocorre quando damos de cara com o que não foi previsto", pondera Priválov. "Eu refletia se existia ou não um limite para a capacidade de se surpreender. Pelo visto, eu tinha ido muito além desse limite. (…) Não estava gostando nada daquilo, afinal não suporto gente incapaz de se surpreender."

A ideia de um instituto que pesquisa fenômenos mágicos ressoa com a contemporaneidade, em que ferramentas de inteligência artificial generativa, cujos princípios de funcionamento escapam até mesmo aos próprios desenvolvedores, provocam frenesi entre CEOs e acirram rodadas cada vez mais surreais de aportes financeiros. O caso de empresas como a Salesforce, que demitiu quase metade de sua força de trabalho de suporte ao cliente em meados de 2025 para substitui-los por ferramentas de IA e admitiu ter se arrependido da decisão poucos meses depois por problemas de confiabilidade desses sistemas é sintomático da irracionalidade do meio corporativo retratada pelos irmãos Strugátski.

Em meio a um romance barroco de humor escrachado, talvez o slogan do Departamento de Conhecimento Absoluto seja uma boa síntese da crítica dos autores ao mundo do trabalho: "O conhecimento do infinito exige um tempo infinito. Por isso, trabalhar ou não dá na mesma."

Capa de 'A Segunda-feira começa no sábado', dos irmãos dos irmãos Boris e Arkady Strugátski
Foto: Aleph/Divulgação / Estadão

A Segunda-Feira Começa no Sábado

  • Autores: Boris e Arkady Strugastky
  • Tradução: Yuri Martins de Oliveira
  • Editora: Aleph (336 págs.; R$ 89,90; R$ 59,90 o e-book)
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