Um aplicativo de mensagens offline pouco conhecido, lançado pelo cofundador do Twitter, Jack Dorsey, surgiu como uma importante tábua de salvação para ugandenses que foram isolados da internet pelo governo antes de uma polêmica eleição que pode estender o governo de quatro décadas do presidente Yoweri Museveni.
O Bitchat chegou ao topo das lojas de aplicativos da Apple e do Google no país africano depois de registrar mais de 28.000 downloads este ano, de acordo com a empresa de pesquisa Apptopia. Isso representa um aumento de quase quatro vezes em relação aos dois meses anteriores combinados.
O uso do app também aumentou mais de três vezes no Irã, já que o fechamento da internet pelo governo, com o objetivo de reprimir protestos, forçou as pessoas a procurarem soluções alternativas, mostraram os dados.
Dorsey, que disse ser "parcialmente culpado" pela centralização da internet e que se arrepende disso, lançou o Bitchat no ano passado, depois do que ele disse ter sido uma semana de programação em julho.
O aplicativo tem uma interface de usuário mínima e não requer login - seu aumento de popularidade lembra o papel amplificador que o Twitter desempenhou na Primavera Árabe, permitindo que os ativistas transmitissem imagens em tempo real de protestos e brutalidade policial.
Ao contrário do Twitter, que agora se chama X e é controlado pelo bilionário Elon Musk, o Bitchat não exige conectividade com a internet ou com o celular. Ele usa a tecnologia de malha Bluetooth para criar uma rede descentralizada e desplugada da internet, na qual uma mensagem de um usuário utiliza o telefone de outra pessoa como um trampolim para fazer o texto saltar até chegar ao destino.
Embora não sejam tão populares quanto os serviços de mensagens como o WhatsApp, os serviços de mensagens baseados em Bluetooth têm se tornado, ao longo dos anos, uma opção para manifestantes, uma vez que governos impõem cada vez mais o desligamento da internet.
Ativistas durante os protestos pró-democracia de Hong Kong em 2020 recorreram a aplicativos como o Bridgefy, que utiliza a mesma tecnologia. O Bridgefy também foi baixado mais de 1 milhão de vezes em Mianmar em 2021, depois que militares do país tomaram o poder.
DESLIGAMENTOS DA INTERNET
Bobi Wine, uma estrela pop de Uganda e principal candidato da oposição, pediu às pessoas no país no final do mês passado que baixassem o Bitchat, dizendo que o governo estava planejando um desligamento da internet para garantir que os cidadãos "não organizem e verifiquem resultados eleitorais".
"VOCÊ JÁ BAIXOU O BITCHAT?", disse ele no X que foi republicada quase 2.000 vezes.
Na terça-feira, autoridades de Uganda cortaram o acesso à internet e limitaram os serviços de telefonia celular em todo o país para conter o que disseram ser "desinformação, fraude eleitoral e riscos relacionados", de acordo com comunicado visto pela Reuters.
Forças de segurança detiveram centenas de partidários da oposição antes da eleição de quinta-feira e dispararam repetidamente balas reais e gás lacrimogêneo em eventos de campanha em apoio a Wine.
Diversos especialistas e organizações de direitos humanos, incluindo a Anistia Internacional, pediram que Uganda encerre a paralisação e disseram que, em vez de conter a desinformação, os apagões da web podem aumentar a disseminação de boatos.
"Desligamentos da internet violam direitos humanos fundamentais e se tornaram uma ferramenta familiar usada por governos em momentos de estresse político ou eleitoral", disse Aditya Vashistha, professor assistente da Universidade de Cornell. "Eles reduzem principalmente a coordenação e o compartilhamento de informações, com poucas evidências confiáveis de que reduzem a desinformação ou o risco eleitoral."
Em 2024, observadores de direitos digitais Access Now e a coalizão #KeepItOn documentaram 296 desligamentos da internet em 54 países.