Nos dois primeiros meses de 2026, Veneza precisou erguer sua grande barreira móvel 30 vezes. Nos últimos cinco anos, fez isso outras 108 vezes no total. Ninguém pode dizer que a obra de € 6 bilhões, destinada a salvar a lagoa, não tenha sido necessária; o que se pode afirmar é que ela já precisa ser acionada com tanta frequência que ameaça sufocar justamente aquilo que protege.
A 2 mil quilômetros dali, na baía de Cádis, na Espanha, o mar está engolindo a maior zona úmida salina sob influência de marés do país. E a ideia da grande barreira começa a parecer atraente. Será que a salvação é copiar Veneza?
O mar avança sobre a baía há décadas. Talvez a única mudança dos últimos anos seja que salineiros, aquicultores, cientistas e ambientalistas se juntaram para pedir algo em comum: a coordenação entre as administrações competentes. É a única forma de evitar que boa parte da zona úmida salina morra.
Essa zona úmida está estruturada em torno das chamadas vueltas de afuera: diques flexíveis que contêm as marés altas e as tempestades. Não se tratam de estruturas naturais, mas do produto de séculos de trabalho humano. Enquanto há quem as mantenha, elas resistem, domam o mar e ajudam a controlar as tempestades. O problema é que já quase não há quem faça essa manutenção. Hoje, cerca de 80% das salinas estão abandonadas: das 160 salinas artesanais que existiam nos anos 1970, restam apenas quatro.
Ou seja, o que está acontecendo na baía de Cádis é um desastre rotulado como "natural", mas ...
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