Pacientes com doença de Pompe, uma condição rara, lutam por acesso ao tratamento no Brasil

A doença de Pompe é uma enfermidade hereditária rara, com prevalência estimada de cerca de um caso a cada 50 mil nascimentos no Brasil. A condição afeta os músculos e apresenta sintomas que variam dependendo do paciente, o que pode dificultar o diagnóstico precoce. É causada pela ausência ou deficiência da enzima alfa-glicosidase ácida (GAA), responsável pela metabolização do glicogênio, principal reserva de energia do organismo.

18 ago 2026 - 09h23

Taíssa Stivanin, da RFI

O acúmulo de glicogênio dentro dos lisossomos das células musculares gera danos aos músculos e, às vezes, ao coração, causando perda parcial ou até total das funções motora e respiratória. Na forma infantil, a doença aparece no primeiro ano de vida e evolui rapidamente, explica a geneticista Carolina Fishinger, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Ela pode ser detectada no teste do pezinho ampliado, mas apenas Minas Gerais e o Distrito Federal incluem a doença de Pompe na triagem neonatal.

Publicidade

Os sintomas da patologia são hipotonia (diminuição do tônus muscular), fraqueza muscular, dificuldade de deglutição e de respiração e problemas cardíacos graves, com necessidade de intervenções hospitalares urgentes e precoces.

Quando a doença se manifesta na idade adulta, em geral, a atividade enzimática que provoca os sintomas pode ser um pouco mais elevada, e esse acúmulo ocorre de forma mais lenta. "Os pacientes têm fraqueza muscular, intolerância ao exercício, cãibras, mas sem problemas cardíacos. Normalmente, esses pacientes têm dificuldade para subir escadas, para levantar-se da cama e para andar", explica a geneticista.

"Eles fazem uma marcha 'dançante' para tentar adaptar a perda de força dos músculos do quadríceps. Pode ter escápula alada por causa da fraqueza dos músculos intercostais. Há dor, sofrimento e, com o passar do tempo, esse acúmulo causa também dificuldades respiratórias que, muitas vezes, levam o paciente à ventilação mecânica."

A especialista alerta para sintomas aparentemente banais, como fadiga, dificuldade muscular ou suspeita de alguma distrofia. A forma adulta muitas vezes confunde não só os pacientes, mas também os médicos. Esse foi o caso do administrador de empresas Ismael Oliveira de Lima, 38, do Rio de Janeiro. Ele conta que, aos 13 anos, começou a ter dificuldades para fazer exercícios. Na escola, jogar bola com os amigos, por exemplo, tornou-se um desafio diário.

"Toda vez que eu fazia algum esforço físico, sentia dores no abdômen e uma certa dificuldade na respiração. Isso me acendeu um alerta. Comentava isso em casa com meus pais. Até que um dia fui ao médico para falar sobre essas dificuldades e foram feitos alguns exames de sangue", conta.

Publicidade

Nos testes laboratoriais foram detectadas alterações nas enzimas hepáticas TGO e TGP e nos níveis de creatinina, o que levantou a suspeita da doença. Mas vários anos se passaram até Ismael consultar um reumatologista e descobrir, por volta de 2013, que tinha a condição. Atualmente, o diagnóstico pode ser feito por meio da dosagem enzimática ou por exames genéticos que detectam alterações no gene GAA. "Dei graças a Deus por ter descoberto e fechado o diagnóstico", conta Ismael.

Ismael Oliveira de Lima, 38, do Rio de Janeiro, demorou dez anos para descobrir que tinha a doença de Pompe.
Ismael Oliveira de Lima, 38, do Rio de Janeiro, demorou dez anos para descobrir que tinha a doença de Pompe.
Foto: RFI

Briga na Justiça

A dificuldade agora é obter o tratamento. Desde novembro, Ismael aguarda os medicamentos de reposição enzimática, que têm alto custo. Para consegui-los, precisou recorrer à Justiça contra o governo federal, mas os processos seguem suspensos. "Não só eu, mas uma grande parte desses pacientes está ficando desassistida. A partir do momento em que a gente fica sem fazer o tratamento, percebe o quanto a doença afeta o nosso dia a dia", afirma Carolina Fishinger.

O tratamento não é disponibilizado pelo SUS para pacientes adultos. Para se ter uma ideia, o custo anual da terapia, que varia de acordo com o peso do paciente, pode ultrapassar R$ 1 milhão. "Isso é um horror, porque os pacientes com a forma adulta enfrentam sofrimento e progressão da doença tão graves quanto os das crianças", lamenta a geneticista.

"Apenas os pacientes com a forma infantil têm acesso ao tratamento. Normalmente, dependendo da gravidade do quadro, é necessário adotar um protocolo de imunossupressão nos dois primeiros meses para que o organismo aceite a enzima administrada e não desenvolva uma reação contra ela", explica.

Publicidade

Segundo a especialista, a forma adulta não requer imunossupressão, apenas a terapia de reposição enzimática a cada 14 dias. "O tratamento busca reduzir o acúmulo de glicogênio dentro das células e os danos progressivos causados por ele. Com isso, é possível estabilizar e melhorar a condição clínica dos pacientes, a capacidade respiratória e o desempenho físico. Nas crianças, também há benefícios para a função cardíaca."

Carolina Fishinger destaca a importância de ampliar o conhecimento sobre a doença de Pompe e aumentar a suspeita clínica entre os profissionais de saúde. "O tratamento é fundamental e deve ser iniciado o mais cedo possível para evitar sequelas e a destruição do tecido muscular."

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
TAGS
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se