Francesa que desenvolveu anorexia aos 12 anos relata combate à doença em livro

Oihana Bachelet, 25, vive em Toulouse, no sul da França, onde trabalha como tatuadora. Ela acaba de lançar o livro Des larmes et des os (Lágrimas e Ossos, em tradução livre), sobre seus oito anos de combate à anorexia nervosa, doença que afeta cerca de 1% da população feminina mundial e leva à distorção da imagem corporal.

7 abr 2026 - 12h39

Taíssa Stivanin, da RFI em Paris

A tatuadora francesa Oihana Bachelet, que teve anorexia quando tinha apenas doze anos.
A tatuadora francesa Oihana Bachelet, que teve anorexia quando tinha apenas doze anos.
Foto: © Arquivo Pessoal/Divulgação / RFI

Desde os anos 2000, a incidência de anorexia em meninas de 10 e 11 anos tem aumentado, como mostra a história de Oihana, que começou a sentir os primeiros sintomas por volta dos 12, em 2013. Foram oito anos de combate à doença, marcados por várias internações, inclusive em um hospital psiquiátrico.

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No auge da doença e praticamente sem comer, Oihana chegou a perder 18 quilos em seis meses e precisou ser alimentada por sonda. "As mulheres sofrem muita pressão em relação ao próprio corpo, e eu senti isso quando ainda era menina. Acredito que isso possa ter tido um impacto", diz Oihana.

Virginie Robert, médica dos setores de pediatria e reanimação neonatal do hospital François Mitterrand, em Pau, acompanhou a trajetória da jovem francesa. Segundo a pediatra, a puberdade é um período de transformações que favorece a fragilidade emocional. Essas mudanças, explica, podem desencadear diferentes "descompensações psiquiátricas".

No caso da anorexia nervosa, as dificuldades surgem da "perda de controle" sobre o próprio organismo. As meninas ganham formas, têm a primeira menstruação, a pele e os cabelos mudam, e os traços nem sempre são simétricos.

A perda de peso provocada pela anorexia permite às pacientes interromper esse processo: elas deixam de menstruar e com podem parar de crescer. "A puberdade e o desenvolvimento fisiológico ficam interrompidos. É uma doença que também é mais frequente entre adolescentes em busca de perfeição, controle e desafios", acrescenta a pediatra.

Em seu livro, a jovem, uma excelente aluna que nunca abandonou os estudos apesar de seu problema de saúde, descreve bem essa autoexigência. "Existe uma busca constante pelo perfeccionismo — nas notas e no esporte. Quando eu começava um regime, era a mesma coisa: ele tinha de ser perfeito", conta.

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"A anorexia foi desaparecendo aos poucos da minha vida quando passei a ter bulimia e hiperfagia. Esse outro transtorno foi diminuindo, e fui tendo cada vez menos crises. Hoje tenho uma relação muito mais tranquila com a comida e com meu corpo, mas ainda é difícil para mim ver meu reflexo em um vídeo ou no espelho. É complicado de administrar, mas às vezes me acho bonita, e isso me faz bem. No fim, foi o tempo que me curou."

Adolescência favorece distúrbio

Na adolescência, o cérebro, ainda em desenvolvimento, é mais propenso à dependência. O regime pode, desta forma, funcionar como uma forma de regular estresse e ansiedade.

"Os transtornos alimentares fazem parte de um grupo de doenças que geram dependência, com mecanismos neurobiológicos ligados à recompensa e ao sistema de dopamina. Quando tentamos perder peso e conseguimos, isso é gratificante. O cérebro do adolescente é sensível a isso", explica Virginie Robert.

Nesse contexto, é importante ajudar os adolescentes que sofrem com a doença que é preciso descobrir outras formas de administrar ansiedade, tristeza e alterações de humor.

"A psicoterapia avança a partir do momento em que o adolescente aceita que há um problema e que ele não controla mais nada. É uma doença que engana, dá a impressão de controle ao racionar a alimentação, mas na verdade há perda de controle. O jovem deve entender que é a doença que está controlando seu cérebro", afirma. Essa consciência, diz Oihana, a ajudou a lutar contra o transtorno e a prever e evitar crises. 

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Sintomas

Embora alguns sintomas — como o emagrecimento rápido — possam ser semelhantes, a pediatra lembra que cada caso é individual, envolve a história de vida do paciente e requer protocolos de tratamento distintos. A anorexia pode ser, por exemplo, secundária a uma depressão, e a trajetória pessoal e familiar é fundamental para tratá-la.

A jovem cresceu em uma família estável, sem conflitos, que sempre a apoiou, tinha amigos e nunca sofreu assédio ou violência. Em 2013, quando ficou doente, as redes sociais ainda não tinham a influência que têm hoje. Para ela, o gatilho da doença foi a pressão pelo desempenho esportivo - ela era jogadora de basquete e competia em um time local e a busca pelo perfeccionismo.

"Com frequência, traumatismos — como violência infantil — estão associados ao diagnóstico de anorexia mental. Mas não é sempre assim, e Oihana é a prova. Ela vem de uma família normal, amorosa, e isso não a impediu de ter anorexia. Os pais muitas vezes se sentem culpados, mas nem sempre é o caso", afirma a pediatra.

Oihana concorda. "Para os pais é muito difícil. Ainda hoje digo a eles que não têm culpa nenhuma."

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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