O que funciona no combate a incêndios florestais?

27 jul 2026 - 19h26

Com o aquecimento global intensificando secas e ondas de calor, países buscam combinar prevenção, manejo do fogo e restauração de ecossistemas. Brasil é um bom exemplo mundial.Na mesma semana em que incêndios florestais devastadores na Europa e na América do Norte tomaram conta das manchetes, o Brasil foi notícia por um dado positivo: um levantamento do Mapbiomas indicou que as queimadas na Amazônia brasileira em 2025 atingiram o menor nível em 41 anos.

O contraste entre as duas notícias reforça uma questão que mobiliza especialistas em todo o mundo: quais estratégias realmente funcionam para prevenir e combater o fogo em um cenário de mudanças climáticas?

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Na Europa, combinadas com secas prolongadas, as ondas de calor intenso e persistente deste verão desencadearam mais uma temporada severa de incêndios florestais. Os maiores focos têm sido registrados em países como França, Espanha, Portugal, Itália, Reino Unido e até na Noruega.

Condições semelhantes também alimentaram incêndios nos Estados Unidos e no Canadá. Há semanas, centenas de incêndios florestais avançam pela vasta floresta boreal que se estende do Yukon, no norte, até ilha de Terra Nova, no leste. Até 24 de julho, eles haviam destruído ao menos 3,3 milhões de hectares — uma área maior que a Bélgica.

Enquanto a fumaça tóxica encobria grandes cidades, inclusive nos EUA, o presidente americano, Donald Trump, acusou o Canadá nas redes sociais de "não fazer a manutenção adequada de suas florestas" e de negligenciar deliberadamente a "gestão florestal básica e a remoção de detritos". Mas isso é verdade?

Mudanças climáticas agravam a situação

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Embora eliminar material inflamável faça parte do trabalho dos especialistas em incêndios, uma gestão eficaz vai além da simples retirada de detritos. No Canadá, por exemplo, seria impossível limpar a vegetação rasteira de uma área tão extensa e remota.

"Não existe uma solução única", afirma Amy Duchelle, especialista sênior em gestão florestal da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

"A gestão florestal e dos incêndios precisa considerar o tipo de ecossistema existente e compreender seu histórico de queimadas", explica Sophie Wilkinson, professora assistente e especialista em incêndios florestais da Simon Fraser University, na Colúmbia Britânica. "Existem muitos tipos diferentes de ecossistemas, como florestas de áreas elevadas e zonas úmidas, e cada um deles tem uma relação única com o fogo."

Apesar de as florestas boreais do Canadá terem se adaptado a conviver com incêndios, Wilkinson afirma que as ondas de calor extremo frequentes e as secas prolongadas associadas às mudanças climáticas provocadas pela ação humana estão ressecando as árvores e a vegetação rasteira, "tornando o manejo dos incêndios florestais infinitamente mais difícil".

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Incêndios de alta intensidade têm maior probabilidade de "se espalhar mais rapidamente e queimar de forma mais agressiva, dificultando tanto as opções de manejo quanto sua eficácia" — inclusive em áreas que antes eram úmidas demais para pegar fogo.

Já as florestas tropicais não evoluíram para coexistir com incêndios — elas não possuem árvores com casca espessa e resistente ao fogo nem plantas adaptadas a germinar após uma queimada. Nesses casos, é fundamental interromper o desmatamento ligado à mineração e à agricultura, preservar o dossel florestal (camada formada pelas copas das árvores mais altas de uma floresta, que se unem e criam uma espécie de "teto" vegetal) e a vegetação que criam um ambiente úmido e resistente ao fogo, além de capacitar as pessoas para responder imediatamente a qualquer risco de incêndio.

Na Europa, as florestas fragmentadas (que foram divididas em pedaços menores por atividades humanas ou fenômenos naturais, perdendo sua continuidade original) enfrentam também outros desafios que as enfraquessem, como espécies invasoras, explica Wilkinson.

Nesses casos, as soluções de manejo podem incluir monitoramento e proteção transfronteiriços, além da priorização de vegetação resistente ao fogo no lugar de coníferas altamente inflamáveis. Isso também significa reintroduzir espécies arbóreas diversificadas que contribuem para florestas mais resilientes, reduzidas ao longo dos séculos pela agricultura e pela exploração econômica.

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Combatendo fogo com fogo

Em alguns lugares, o próprio fogo é fundamental para preservar as florestas.

"Nossa floresta boreal depende do fogo — ela precisa dele para se manter saudável", destaca Amy Cardinal Christianson, indígena do povo Métis, especialista em incêndios florestais e que vive no oeste do Canadá.

Segundo ela, um certo número de incêndios faz parte do ciclo natural, criando barreiras naturais contra o fogo, estimulando o crescimento de novas plantas e restaurando ecossistemas — fatores que podem retardar a propagação dos incêndios florestais.

Pesquisas mostram que determinadas florestas evoluíram para conviver com incêndios periódicos, que funcionam como uma espécie de reset. As chamas podem abrir espaço para plantas menores que têm dificuldade para competir com a vegetação densa, por exemplo, além de liberar nutrientes que enriquecem o solo.

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Mas a temporada de incêndios no Canadá está acelerando esse ciclo natural — começando mais cedo, durando mais tempo e tornando-se mais difícil de controlar.

Ela também está contribuindo para o aumento das emissões de carbono do país: a temporada recorde de incêndios de 2023, que destruiu uma área florestal cinco vezes maior do que a média anual, elevou em 23% às emissões globais anuais provenientes de incêndios florestais. Parte dos poluentes chegou inclusive até a Europa Ocidental.

Christianson, ex-pesquisadora do Serviço Florestal Canadense e atualmente diretora de gestão do fogo da Indigenous Leadership Initiative, destaca que práticas antigas de manejo introduzidas por europeus para favorecer a indústria madeireira — regulação rígida, supressão total dos incêndios e foco em monoculturas de crescimento rápido — não se adequam à realidade canadense.

"Ao excluir o fogo, nós, na verdade, aceleramos esse risco", ressalta, acrescentando que queimadas controladas periódicas podem reduzir a probabilidade de incêndios devastadores e fora de controle.

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Centro global de incêndios busca compartilhar conhecimento

Duchelle conta que profissionais experientes, acostumados há décadas a lidar com incêndios florestais, agora enfrentam focos que nem eles conseguem controlar. "O fogo se move rápido demais, as chamas são altas demais, o calor é intenso demais".

Diante desses desafios, o foco deixou de ser apenas a supressão de incêndios e passou a incluir a redução de riscos, a preparação para novas condições e a construção de resiliência após os incêndios. Em 2023, a FAO criou o Global Fire Management Hub para ajudar países a enfrentar incêndios florestais por meio de treinamento, cooperação e compartilhamento de conhecimento.

Uma prioridade importante é o uso de novas tecnologias e dados para orientar o monitoramento e as respostas, juntamente com uma plataforma digital de compartilhamento de informações e o desenvolvimento de interoperabilidade internacional e gestão comunitária.

Christianson colaborou com o Fire Hub para desenvolver uma rede voltada ao conhecimento e às práticas indígenas, após criar uma rede independente com mais de 200 guardiões locais no Canadá para auxiliar na resposta a incêndios florestais.

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Isso inclui a chamada queima cultural — pequenos incêndios deliberados de baixa intensidade, adaptados a paisagens específicas, que ajudam a eliminar matéria orgânica em decomposição de forma controlada, proteger contra grandes incêndios, preservar a biodiversidade e manter culturas locais.

As queimas prescritas, geralmente realizadas por órgãos governamentais, também são benéficas e utilizadas há anos. Contudo, elas tendem a ser maiores e nem sempre consideram as características locais do ambiente. Além disso, podem ocorrer durante o verão, quando as condições estão mais secas, a fim de acelerar o processo, aumentando assim o risco de perda de controle.

A queima cultural costuma ocorrer no início da primavera ou no fim do outono no hemisfério norte, com base na neve e em outros fatores ambientais. Mas as mudanças climáticas também alteraram esse calendário, e Christianson afirma que a familiaridade com a paisagem ajuda a perceber essas mudanças. "Normalmente queimávamos em abril ou maio", comentou em relação a sua propriedade. "Este ano, fiz várias queimadas em fevereiro."

"Paisagens saudáveis" são fundamentais para conviver com o fogo

Falando à DW de sua casa em Rocky Mountain House, Alberta, Christianson afirmou que, embora as mesmas práticas de queima não possam ser aplicadas a todas as culturas, ainda assim foi possível compartilhar internacionalmente ideias e técnicas comprovadas.

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"O mais interessante das práticas indígenas de queima cultural é que existe uma série de semelhanças gerais e uma responsabilidade compartilhada de cuidar da paisagem, e o fogo é uma dessas formas importantes de fazer isso", relata Christianson, que também apresentou a prática às suas filhas.

"O objetivo geral da maioria dos povos indígenas com quem conversei é alcançar paisagens saudáveis."

Isso significa olhar para o panorama completo — restaurar áreas úmidas para tornar os ecossistemas mais resilientes ao fogo ou reintroduzir espécies nativas como o bisão no Canadá, que já existiu aos milhões e ajuda a controlar incêndios ao consumir a vegetação que avança sobre campos e florestas.

A prática também foi recentemente reintroduzida na Europa, utilizando cavalos e bisões-europeus na Espanha e em Portugal.

"Uma paisagem saudável [...] consegue se adaptar mais facilmente aos eventos de incêndio que estamos observando".

Incêndios na Amazônia atingem mínima histórica em 2025

Um dos países que obteve sucesso recente no combate aos incêndios florestais foi o Brasil.

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"O Brasil tem sido bastante eficaz na redução não apenas do desmatamento, mas também da incidência de incêndios na Amazônia", destaca Duchelle, atribuindo o resultado à cooperação entre agências estaduais, municipais e federais, além de uma política nacional de gestão integrada do fogo. "[Esse sucesso] não aconteceu por acaso."

Em 2025, os incêndios florestais em todo o país atingiram uma mínima histórica, queimando cerca de 12,7 milhões de hectares — ainda assim uma área aproximadamente equivalente ao tamanho da Grécia.

Novos dados da rede de monitoramento ambiental MapBiomas mostraram que pouco menos de um quarto da área total queimada estava na Floresta Amazônica. Isso representa uma queda de 80% em comparação a 2024 e cerca de 56% abaixo da média histórica dos últimos 40 anos.

Por outro lado, o Cerrado, onde o fogo faz parte do ecossistema, continuou a queimar em níveis semelhantes, em parte devido à seca prolongada. Especialistas alertam que o fenômeno climático El Niño pode trazer condições ainda mais secas, ampliando o risco de incêndios.

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"Embora o manejo de nossas florestas possa nos ajudar a nos adaptar ao aumento da atividade dos incêndios, enfrentar a causa principal desse aumento — as mudanças climáticas — provavelmente é a melhor estratégia de mitigação disponível", reforça Wilkinson.

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