Ciclo da água está se tornando mais imprevisível, alerta ONU

Relatório da Organização Meteorológica Mundial aponta queda nas reservas de água doce e alerta para maior risco de secas e enchentes com o fenômeno climático

17 set 2026 - 11h12
Resumo
A OMM alerta que o ciclo da água está cada vez mais imprevisível e que o planeta esgota suas reservas estratégicas de longo prazo, como geleiras e aquíferos. O relatório aponta que 2025 registrou uma das maiores secas em rios em 35 anos, além de perdas recordes de gelo e quedas críticas nos níveis subterrâneos. Esse cenário de escassez e desastres hídricos tende a se agravar com a intensificação do El Niño, exigindo cooperação global e compartilhamento de dados para mitigar crises e eventos extremos.

O ciclo da água está se tornando cada vez mais imprevisível, e o fenômeno El Niño deve agravar essa tendência no longo prazo, alertou nesta quinta-feira, 17, a Organização Meteorológica Mundial (OMM), órgão ligado à ONU.

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Segundo o relatório anual sobre o Estado dos Recursos Hídricos Mundiais, 2025 foi um dos três anos mais secos para os rios em 35 anos. No mesmo período, um dos anos mais quentes já registrados, as geleiras perderam massa em todas as regiões, enquanto os níveis de água subterrânea continuaram em queda em diversas partes do mundo.

A OMM aponta que as reservas de água doce do planeta, armazenadas em aquíferos, lagos e rios, na umidade do solo, na vegetação, no gelo e na neve, seguem em declínio, prolongando uma tendência observada há uma década.

Parte dos componentes do ciclo da água responde rapidamente às condições meteorológicas. É o caso das chuvas, da vazão dos rios e da umidade do solo, que podem mudar em questão de dias ou semanas. Já as águas subterrâneas e as geleiras funcionam como reservas de longo prazo.

A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, demonstrou preocupação com a redução dessas chamadas "reservas lentas", que, segundo ela, funcionam como uma espécie de "conta poupança" do planeta.

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Essas reservas atuam como um "colchão que absorve os anos ruins, de modo que uma única seca ou uma única estação seca não se traduza diretamente em uma crise hídrica", afirmou Saulo a jornalistas. "Agora estamos esgotando a poupança", advertiu. "Estamos gastando nossas reservas."

Perda de gelo

As geleiras tiveram uma redução acelerada em 2025, quarto ano consecutivo de perda significativa de massa em todas as regiões. Entre 2023 e 2025, a perda acumulada chegou a 1400 gigatoneladas de água, volume equivalente a quase um terço da extração anual de água doce no mundo, segundo o relatório.

As águas subterrâneas também apresentam sinais de deterioração. Quase dois terços dos poços monitorados no mundo registraram condições fora da faixa considerada normal para a série histórica em 2025, de acordo com a OMM.

Ao mesmo tempo, a organização alerta para o aumento de desastres relacionados à água. Saulo citou o atual episódio de El Niño, que, segundo a OMM, deve ser o mais forte desde o início dos registros, há cerca de quatro décadas.

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O fenômeno é a fase quente de um ciclo climático natural que ocorre a cada dois a sete anos. Ele se caracteriza pelo aquecimento acima da média das águas do Oceano Pacífico e altera os padrões de ventos e precipitação em diferentes regiões do mundo.

"O fortalecimento do El Niño aumentará o risco de seca em algumas áreas e de enchentes em outras", afirmou Saulo.

Vazões fora do padrão

Mesmo antes dos efeitos do El Niño serem percebidos, os rios já apresentavam vazões fora do padrão em diferentes partes do mundo, segundo a OMM. Em 2025, o volume dos rios ficou entre os três menores registrados em 35 anos.

Pelo sétimo ano consecutivo, apenas uma parcela minoritária das bacias hidrográficas apresentou condições consideradas normais. Em 2025, esse grupo representou 36% do total monitorado.

A OMM ressaltou a necessidade de ampliar a coleta e o compartilhamento de dados para acompanhar as mudanças no ciclo da água.

"O tempo não respeita fronteiras, e isso é especialmente verdadeiro no caso da água", afirmou Saulo. Para ela, são necessários "dados compartilhados, normas compartilhadas e alertas precoces compartilhados".

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"Um desastre em um país pode provocar devastação em outro, como vimos com a recente tragédia da China e do Nepal", disse a secretária-geral da OMM. /AFP

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