A autobiografia redescoberta de Shadrack Byfield, soldado britânico da Guerra de 1812, revela detalhes inéditos sobre sua vida além dos combates, incluindo amputação, pobreza, disputas comunitárias e resiliência até sua morte aos 84 anos.
Uma autobiografia esquecida, localizada a quase 6 mil quilômetros de sua origem, está reescrevendo a trajetória de Shadrack Byfield, um veterano da Guerra de 1812. O documento, encontrado pelo historiador Eamonn O'Keeffe em uma biblioteca nos Estados Unidos, revela que a vida do soldado britânico foi muito mais longa e conturbada do que se acreditava.
A obra desmistifica a imagem de herói silencioso e expõe as batalhas reais enfrentadas pelo veterano após retornar da guerra. O exemplar único de "History and Conversion of a British Soldier", impresso em Londres em 1851, estava guardado no acervo da Western Reserve Historical Society, em Cleveland, no estado de Ohio.
A análise do material foi publicada pelo pesquisador da Universidade de Cambridge no periódico Journal of British Studies, editado pela Cambridge University Press. O documento histórico reapareceu a cerca de 5.950 quilômetros de Londres.
O que revela a autobiografia redescoberta?
O livro de memórias mostra que Byfield viveu mais de duas décadas além do ano de 1850, período em que historiadores acreditavam que ele havia morrido. O texto traz relatos sobre as dores crônicas decorrentes dos combates, a luta por benefícios militares e desavenças comunitárias ocorridas na vila de Hawkesbury Upton, no condado de Gloucestershire.
"O relato de Byfield sobre suas experiências de guerra é bastante conhecido, mas o homem por trás das memórias permaneceu esquivo. Descobrir esses novos detalhes sobre sua vida oferece uma visão notável sobre o sofrimento e a resiliência dos soldados britânicos que retornavam para casa", afirma o historiador Eamonn O'Keeffe.
Em trecho da obra de 1851, o próprio Byfield descreve o impacto físico permanente causado pelos combates no Canadá: "Aprouve ao Senhor afligir-me com uma violenta dor reumática no meu ombro direito, de onde a bala [de mosquete] foi extraída. Fiquei nesta condição por quase três anos: – muitas vezes não conseguia levantar a mão até a cabeça, nem uma xícara de chá até a boca".
Como o soldado perdeu o braço e criou uma prótese?
Shadrack Byfield nasceu em 1789 perto de Bradford-on-Avon, em Wiltshire, e ingressou no 41º Regimento de Infantaria em 1809. Durante a Guerra de 1812 entre Estados Unidos e Reino Unido, ele foi atingido por uma bala de mosquete em 1814, tendo seu antebraço esquerdo amputado sem anestesia. Diante do descarte do membro em uma pilha de esterco por um enfermeiro, o próprio soldado recolheu o braço e construiu uma caixa de madeira para sepultá-lo.
Ao retornar à Inglaterra, Byfield recebeu uma pensão de apenas nove centavos por dia no Royal Hospital Chelsea. Sem conseguir operar teares convencionais como fazia antes do alistamento militar, ele idealizou uma prótese personalizada após um sonho e contratou um ferreiro local para forjar a ferramenta de trabalho.
O dispositivo permitiu que ele voltasse a tecer e também trabalhasse como carregador de cadeiras de transporte em Bath. O veterano conseguiu uma elevação em sua pensão militar em 1836 com a ajuda de seu patrono, o oficial aposentado e historiador militar Sir William Napier.
Quais foram os conflitos enfrentados após a guerra?
A narrativa de 1851 expõe episódios omitidos na primeira memória de Byfield, lançada em 1840. No texto mais recente, ele admite ter participado de saques e deixado o acampamento sem permissão oficial durante o serviço no exército.
Em Hawkesbury Upton, Byfield participou de disputas pelo controle de uma capela batista local, que culminaram em um tumulto em junho de 1853. Acusado de ferir um opositor com o gancho de ferro de sua prótese, ele enfrentou intimações policiais entregues pelo sargento Sidney Short, mas não recebeu condenação judicial.
A crise comunitária resultou na perda de seu emprego de guardião do monumento a Lord Edward Somerset, cargo concedido pelo Duque de Beaufort que incluía moradia. Em 1856, Byfield casou-se pela segunda vez e retornou a Bradford-on-Avon, onde viveu até sua morte em janeiro de 1874, aos 84 anos.