Terra

Leia os textos a seguir e responda às questões de 80 a 82:

Texto I

É impossível colocar em série exata os fatos da infância porque há aqueles que já acontecem permanentes, que vêm para ficar e doer, que nunca mais serão esquecidos, que são sempre trazidos tempo afora, como se fossem dagora. É a carga. Há os outros, miúdos fatos, incolores e quase sem som − que mal se deram, a memória os atira nos abismos do esquecimento. Mesmo próximos eles viram logo passado remoto.

NAVA, Pedro. Baú de ossos. 4. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.

Texto II

A lembrança da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. (...) Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe. (...) O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção.

ROSA, G. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980.

Texto III

Memórias que ficam

A memória de longo prazo é um mistério para os neurocientistas: o que faz com que fique gravada no cérebro? O enigma está mais perto da solução, graças a pesquisadores do Brasil e da Argentina (...). Testes com ratos que guardaram más memórias de uma caixa em que levavam choques nas patas mostraram um novo papel para o c-fos, uma proteína relacionada à aquisição de memória (PNAS). Não basta entrar em ação logo após o acontecido, como de fato acontece, para que a memória se consolide no longo prazo; é preciso um segundo pico de atividade do c-fos no hipocampo, a área do cérebro mais ligada ao armazenamento de memória, 12 horas depois, seguido de síntese proteica 24 horas depois. Os pesquisadores viram que essa atividade tardia só acontece se o choque tiver sido de intensidade suficiente para gerar uma memória de longo prazo. A descoberta abre caminhos para a pesquisa sobre a persistência da memória.

Memórias que ficam. Revista Fapesp, São Paulo, n. 168, p. 41, fev. 2010.

35Os narradores do texto I, de Pedro Nava, e do texto II, de Guimarães Rosa, falam, de forma semelhante, sobre o mesmo assunto. Com isso em mente, analise as assertivas a seguir:

I. Os dois textos mostram que algumas lembranças antigas permanecem em nossa memória, como se tivessem acontecido recentemente.

II. O primeiro e o segundo texto mostram que fatos sem importância não ficam gravados de maneira intensa na memória.

III. Para os narradores do texto I e do texto II, não se consegue contar lembranças antigas de forma linear, mantendo-as na ordem em que aconteceram, já que ficam sempre apagadas na memória.

Está(ão) correta(s) a(s) afirmativa(s):

a) I e II.

b) I e III.

c) II e III.

d) I, apenas.

e) III, apenas.


36Comparando o texto IIIMemórias que ficam – com os dois textos anteriores a ele, pode-se afirmar que:

a) não pode ser relacionado com os textos I e II, por falar de ratos e não de humanos.

b) o “enigma” a que faz referência (linha 3) é a necessidade de um segundo pico de atividade do c-fos para que a memória fique guardada.

c) as conclusões do texto III não podem ser relacionadas aos dois primeiros textos, já que elas tratam apenas de “más memórias”.

d) a intenção das experiências relatadas no texto III é mostrar por que algumas narrativas literárias se estruturam baseadas na memória.

e) de forma científica, o texto III trata de questão semelhante às reflexões feitas nos textos I e II.