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Festa da 1 da Sul toma rua do Capão Redondo, periferia de SP

Nos 25 anos da marca de roupa e nos 112 anos do Capão, fãs de punk e rap comemoram moda periférica

28 abr 2024 - 14h43
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Resumo
Na festa em comemoração aos 25 anos da marca de roupas 1 da Sul, fundada pelo escritor Ferréz, não houve espaço na loja para tanta gente, nem na garagem, no quintal e na calçada: o evento extrapolou para o posto de gasolina, do outro lado da rua. A marca comercializa itens de vestuário, desde bonés - produto que iniciou o negócio - até camisetas, blusas, mochilas.
Punks e manos na frente da loja da 1 da Sul, no Capão Redondo, em São Paulo. Marca faz 25 anos
Punks e manos na frente da loja da 1 da Sul, no Capão Redondo, em São Paulo. Marca faz 25 anos
Foto: Marcos Zibordi

A aglomeração da festa em comemoração aos 25 anos da marca de roupas 1 da Sul, fundada pelo escritor Ferréz, começa no final da tarde de 27 de abril e toma a loja, a garagem, o quintal, a calçada e atravessa a rua, chegando ao posto de gasolina do outro lado da Avenida Comendador Sant´Anna, a principal desta região do Capão Redondo.

Estreita para o trânsito, a avenida vai ficando ainda mais apertada com a quantidade de gente que transborda da calçada em frente à loja. Típica muvuca de quebrada.

Passam carros, motinhas a milhão, habilidosos motoristas de ônibus atravessam o mar de gente sem atropelar ninguém. As buzinas, não se sabe se comemorativas ou de reclamação.

Punks e rappers na cena

João Gordo, do Ratos do Porão, no camarim antes do show de 25 anos da 1 da Sul.
João Gordo, do Ratos do Porão, no camarim antes do show de 25 anos da 1 da Sul.
Foto: Marcos Zibordi

O público predominante, punks e fãs de rap, tem afinidades periféricas. Punks querem ouvir Invasores de Cérebros e Ratos do Porão. Manos, mais, e minas, menos, são o público de Maurício DTS e Eduardo Taddeo.

Ferréz criou a marca 1daSul no contexto do hip hop, mas inspirado no lema punk “faça você mesmo”. Por isso a presença dos estilos musicais e dos públicos da festa, juntos e misturados dos dois lados da rua.

No posto de gasolina, o rapper Eduardo Taddeu atende fãs e o Visão do Corre. Ele considera o aniversário de 25 anos da 1 da Sul “de relevância fenomenal pra quebrada, porque nós não estamos falando de tecido, nós não estamos falando de roupa, nós estamos falando de identidade cultural”.

Eduardo Taddeo: “Levar para a periferia o orgulho próprio. Não precisa consumir o produto do opressor”
Eduardo Taddeo: “Levar para a periferia o orgulho próprio. Não precisa consumir o produto do opressor”
Foto: Marcos Zibordi

Camarim, palco, técnica, tudo no quintal

A 1 da Sul está instalada em uma casa. A garagem coberta pega toda a frente. Do lado esquerdo, há um estreito corredor; do direito, onde seria a sala, funciona a loja. As paredes estão cobertas de camisetas, blusas e bonés.

A marca comercializa 89 itens pela internet, incluindo mochilas, moletons, vinis e adesivos, o segundo produto mais vendido. O primeiro, que iniciou o negócio, são os bonés. “Eu vendi mais de cem mil bonés, mano. Isso daí você pode ter certeza”.

Loja é um ponto cultural no Capão Redondo. “De cada dez que entra, só um é pra comprar”
Loja é um ponto cultural no Capão Redondo. “De cada dez que entra, só um é pra comprar”
Foto: Marcos Zibordi

Ferréz não gosta da expressão “empreendedorismo”. “Estragaram a palavra. Eu estou pegando a palavra executivo, que é o cara que executa. Eu estou tentando resgatar ela porque nós somos executivos. A gente pega e executa”.

O exemplo está na parede à frente, com tinta fresca pintada pela mulher de Ferréz, horas antes. “Tem que andar com gente que faz de verdade. Muita gente tem ideia, mas pouca gente põe em prática. Eu nunca sonhei com investidor”.

O escritor Ferréz não associa a marca a violência, nem drogas. "Não é pra usar a roupa e tomar geral"
O escritor Ferréz não associa a marca a violência, nem drogas. "Não é pra usar a roupa e tomar geral"
Foto: Marcos Zibordi

Então começa a música no quintal estreito, ao lado, lotado. Artistas como Ratos do Porão e o rapper Eduardo Taddeu cantam sem palco. Tecidos e uma lâmpada no teto improvisam a cobertura.

A galera curte os shows a alguns palmos dos artistas, no quintal da casa. Na garagem, espremidos, transferem a agitação para a calçada, chegando até o outro lado da rua, no posto de gasolina.

Dois manos da Vila Kalu se trombam no posto

Na calçada do posto de gasolina estão Lucas Henrique Pascoal, 38 anos, e Thiago Rodrigues Rocha, 36. Curtem a festa com bermudas e camisetas da 1da Sul. Moradores da Vila Kalu, se conheceram ali.

A marca de roupa que Lucas e Thiago mais usam é 1 da Sul. Manos da Vila Kalu, se conheceram na festa
A marca de roupa que Lucas e Thiago mais usam é 1 da Sul. Manos da Vila Kalu, se conheceram na festa
Foto: Marcos Zibordi

Ambos têm livros de Ferréz e Eduardo Taddeu, rapper e escritor, que vieram ver rimar. “O que mais tenho é roupa da 1 da Sul”, diz Lucas. Durante a pandemia, usou a máscara da marca “nascida, criada e estabelecida pelo gueto. E o preço é acessível”.

Thiago tem quase a linha completa. “Nós têm que ter o nosso, a nossa moda, com a nossa cara. E ajudar o bairro”.

Brincadeira do dia da mentira, que virou marca

A marca 1 da Sul surgiu por acaso, em 1º de abril de 1999, com uma mentira. Ferréz, provocado por alguém sobre não acontecer nada no Capão Redondo, listou produções culturais, falou do grafite e da capoeira, e até inventou que seria lançada uma marca de roupa.

“Falei que ia chamar um da sul, todos somos um. Aí o cara falou caramba, que da hora, quando tiver alguma coisa, me fala”. Desempregado, Ferréz acabou realizando a mentira. Emprestou R$ 20 da mãe para bordar os primeiros seis bonés.

A festa da 1 da Sul é a oportunidade de ver um desfile dos vários modelos ao longo de 25 anos
A festa da 1 da Sul é a oportunidade de ver um desfile dos vários modelos ao longo de 25 anos
Foto: Marcos Zibordi

Bordou o logotipo no shopping e vendeu os bonés estilizados em uma semana. “Falei: o bagulho vira. Vou sustentar que é um movimento, não vou dizer que é mentira”.

Desenho e estética de quebrada

Há 25 anos, havia camisetas do pessoal da pichação, dos Racionais MCs, clandestinas, e do grupo de rap Consciência Humana. A marca criada por Ferréz começa nesse contexto. “Com marca organizada, de montar uma grife, nós é a primeira”.

Ferréz vendeu bonés e camisetas por três anos “explicando que é uma marca de quebrada, com desenho e estética da quebrada”. Foi crescendo e convidando costureiras do Capão Redondo, mexendo com a economia e o imaginário da região, da cidade e do país. “Foi onde o pessoal começou a pegar amor”.

Morador da Vila Kalu, Thiago Rodrigues Rocha tem quase a linha completa da 1 da Sul
Morador da Vila Kalu, Thiago Rodrigues Rocha tem quase a linha completa da 1 da Sul
Foto: Marcos Zibordi

Soulth Gama, que desenhou o logotipo da 1 da Sul, nunca cobrou pela criação. Fez de graça, para dar sorte. O mesmo artista esteve com Ferréz em outra “ação executiva”: organizar as três edições de literatura marginal publicadas pela extinta revista Caros Amigos, que completam exatos vinte anos.

São marcos históricos da safra recente de literatura periférica. Ferréz não lembrava da data e não sabia que neste mesmo 27 de abril, de 25 anos da 1 da Sul, também se comemorava o aniversário de 112 anos Capão Redondo. “Eu nunca fui convidado para o aniversário do Capão”, diz, com irônico sorriso de satisfação.

Fonte: Visão do Corre
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