Com burnout, ela encontrou na corrida um espaço de autocuidado e rede de apoio entre mulheres: 'Preciso disso'
Drielly Peniche faz parte do 'Elas Que Voam', um coletivo feminino que incentiva a prática de atividade física
Escândalos políticos, casos de violência e tragédias. Para se esquivar das más notícias do dia, basta desconectar do celular e desligar a TV. Um jornalista não tem essa escolha. Em meio à rotina densa de trabalho, Drielly Peniche acumulou tanto estresse e sobrecarga que se deu conta: estava em burnout. Cansada, ela buscou refúgio nas atividades físicas até encontrar um coletivo feminino de corrida que a fez entender: “Realmente preciso disso”.
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Se hoje posa sorridente após as manhãs de corrida, há alguns anos, sua rotina estava longe disso. Como toda criança, Drielly tinha uma certa intimidade com as brincadeiras ao ar livre, como jogar futebol. A prática foi deixada de lado quando a vida adulta ‘engoliu’ o lazer.
‘Uma válvula de escape’
Sem praticar atividades físicas ou ter um momento de autocuidado, a rotina da jornalista era puxada. Todos os dias, ela chegava na redação e trabalhava imersa nas manchetes duras da rotina. As notícias ruins, claro, mexiam com ela.
“Sou jornalista e sabemos bem como é a nossa realidade, né? Muitas vezes, eu acabava absorvendo algumas notícias que eu estava acompanhando, alguns casos que eu queria mudar, mas que, infelizmente, sabemos que não conseguiremos”, lembra.
Além do impacto emocional do dia a dia na redação, a sobrecarga também estava cada vez mais insustentável. “É uma profissão em que a gente precisa se doar 100%. Então, em muitos momentos, eu estava muito sobrecarregada, lidando com um burnout”, explica.
Foi quando ela decidiu que precisava de um ‘respiro’. Algo que a deslocasse da rotina por algumas horas e a fizesse olhar para si, sem os barulhos e cobranças externas, sem precisar dar conta do que está acontecendo no mundo.
“Queria algo que eu conseguisse separar o meu ‘eu’ pessoal do meu ‘eu’ profissional. E muitas vezes isso é difícil. Falar é muito fácil, mas na hora de colocar em prática isso acaba sendo algo um pouco trabalhoso. A corrida entrou na minha vida aí. Como uma válvula de escape”, conta.
“É um compromisso meu comigo. Hoje, preciso ter o meu momento da corrida, da academia. O tempo que eu dedico para o meu eu. Eu realmente preciso disso”, faz questão de destacar.
‘Tudo doía’
A decisão de entrar no mundo das corridas, no entanto, não veio como um clique cinematográfico. Quando decidiu arriscar no esporte, Drielly chegou a pensar que a modalidade não era para ela.
“Todas as pessoas que começam a correr em algum momento, principalmente ali no início, acreditam que a corrida não é para elas. É um esporte muito injusto. Você para durante uma ou duas semanas e, quando retoma, parece que está começando do zero. Mas é muito gostoso. É sempre um desafio”, opina.
Assim como outros iniciantes, a jornalista precisou lidar com um período de adaptação que incluía dores e pensamentos de autossabotagem. “Tudo doía! As articulações, uma dor abdominal na lateral por causa da respiração… Eu sempre falava ‘não vai dar certo’.”
Foi quando uma amiga deu a injeção de ânimo que ela precisava. “A Marcela Casimiro, um dia, me parou e falou: ‘Amiga, você é capaz, você que fica se sabotando. Vamos fazer uma prova juntas’. Fizemos e foi maravilhoso. Ali foi realmente uma grande chave para minha vivência na corrida”, detalha.
Coletivo liderado por mulheres foi virada de chave
Nesse momento, tudo parecia se encaixar. A determinação em mudar de hábitos, o tempo separado só para si, a amiga que puxava pela mão e corria junto. A ‘cereja do bolo’ veio logo após, com a descoberta do Elas Que Voam.
O coletivo feminino incentiva a prática de corrida desde 2017 e apareceu como tudo que Drielly precisava naquele momento. “O Elas Que Voam entra na minha vida no momento em que eu vejo que correr em grupo é muito mais fácil do que correr sozinha”, conta.
O fato do grupo ser liderado por mulheres chamou a atenção, mas não foi a única coisa que a fez aceitar o convite para entrar.
“Eu acredito que poderia ter homens ali também, mas desde que tivesse a mesma ideologia, a mesma vivência, ali os mesmos princípios, eu aceitaria. Mas é muito bacana você fazer parte de um projeto liderado por mulheres que há nove anos segue firme, consistente, cada dia alcançando um público maior”, elogia.
Hoje, ela não se vê mais fora do grupo. “É muito gostoso quando você tem gente que acredita em você para poder liderar um pelotão, passar algumas técnicas de corrida e também poder se inspirar em outras pessoas”, complementa.
Ao tentar definir a rotina no coletivo feminino, a jornalista destaca a troca genuína entre pessoas que se admiram e se colocam para cima. “A palavra já diz tudo: coletivo. Você supera tudo junto, evolui junto. O Elas Que Voam preza muito por isso”, argumenta.
Feito de maneira voluntária, o grupo é acessível para quem quiser participar. Drielly explica que os encontros acontecem todas as segundas-feiras no Parque Ibirapuera, em São Paulo, às 19h30. “A pessoa não precisa pagar nada para participar dos nossos treinos”, destaca.
‘Meu avô, no auge dos 100 anos, foi em um treino’
Os momentos bons e gratificantes na corrida foram tantos, que Drielly tem até dificuldade em eleger apenas uma lembrança marcante. No entanto, a jornalista recorda com carinho quando o avô centenário compareceu em um treino.
“No auge dos 100 anos de idade, ele marcou presença. Nesse dia, tive alguns compromissos no trabalho e não cheguei a tempo de treinar, mas cheguei a tempo de presenciar ele lá no treino. Meus pais é que levaram ele pra mim”, relembra.
Na ocasião, o avô de Drielly tinha mobilidade reduzida, mas fez questão de estar lá. “Era cadeirante, fazendo o esforço de sair da sua casa para ir prestigiar o nosso coletivo. Foi fantástico”, detalha.
A jornalista perdeu o avô em novembro de 2025, mas a cena dele tentando fazer os movimentos funcionais durante o treino a marcará para sempre. “Fico muito feliz que tenha tido a oportunidade de recebê-lo no nosso coletivo e fazer com que ele se sentisse parte”, agradece.
‘O mundo digital faz com que as pessoas achem que corrida é algo aleatório’
Com o boom da corrida nas redes sociais, é comum ver muitos conteúdos idealizados, de influenciadoras com rotinas muito diferentes da maioria das mulheres que precisam enfrentar a correria de um trabalho CLT.
Muitas acordam bem cedinho pela manhã para tomar café com calma, ler algumas páginas de livro, gravar conteúdo para a internet e, só então, vão para a prática da corrida. Enquanto isso, outras pessoas não têm esse mesmo tempo para despender.
Para Drielly, a popularização é muito positiva desde que venha com consciência. “Acaba trazendo mais pessoas para esse universo. Porém, ao mesmo tempo que é muito interessante, é também preocupante. A vida na internet é muito diferente da vida no dia a dia, na realidade. Cada um tem uma vivência, cada um tem uma rotina. Então, é não se comparar.”
Quem tem vontade de começar a praticar o esporte por ter visto nas redes sociais é bem-vindo, desde que esteja disposto a entender as técnicas e observe seu próprio corpo.
“Infelizmente o mundo digital, principalmente Instagram, faz com que as pessoas pensem que a corrida é algo totalmente aleatório, que você vai chegar ali, vai fazer dois quilômetros e amanhã você já vai correr uma maratona de quarenta e dois. Não é assim que acontece. É óbvio, você pode se inscrever, pode ir lá e correr. Só que a chance de você se lesionar é muito grande”, alerta.
Segundo a jornalista, é importante deixar de lado a afobação para se encaixar em uma ‘trend’ e se preparar com cuidado. “Tudo demanda preparo. Não é tudo na loucura.”
Mesmo com os pontos de atenção, quem quiser começar é bem-vindo, seja no coletivo ou não. O importante, para Drielly, é “jogar o corpo no mundo”, como cita uma de suas músicas favoritas, Mistério do Planeta, dos Novos Baianos.
“É na corrida que eu vou mostrando pra mim quem eu sou e como eu posso ser. Alguns dias eu gosto das descobertas e outros não. Alguns dias eu me sinto muito forte e outros não. É a realidade”, finaliza.