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Quem foi Shackleton, explorador que teve seu último navio encontrado, após 62 anos

É um dos mais respeitados da Idade Heroica da Exploração da Antártida [...]

17 jun 2024 - 09h06
(atualizado em 18/6/2024 às 17h13)
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Na última quarta-feira, 12 de junho, o mundo voltou a ouvir falar de um dos exploradores mais respeitados da Era Heroica da Exploração da Antártica: Sir Ernest Shackleton.

Assim como anunciou a Royal Canadian Geographical Society, a expedição liderada por essa organização canadense sem fins lucrativos localizou os destroços do Quest, conhecido como a última embarcação usada por esse explorador irlandês.

O barco foi encontrado intacto, no Mar de Labrador, entre o Canadá e a Groenlândia, a 390 metros de profundidade.

Domínio Público
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Foto: Viagem em Pauta

"É um dos capítulos finais da extraordinária história de Sir Ernest Shackleton, conhecido pela sua coragem e brilhantismo como líder em tempos de crise", avalia John Geiger, líder da expedição e CEO da Royal Canadian Geographical Society.

A expedição contou com uma equipe internacional de especialistas, como oceanógrafos, historiadores e o mundialmente famoso caçador de naufrágios, David Mearns.

Foi a bordo do Quest que Shackleton morreu na Geórgia do Sul, vítima de um enfarto, em janeiro de 1922, enquanto se dirigia, mais uma vez, à Antártica. Sua morte é considerada a linha divisória entre as eras heroica e mecânica da exploração antártica.

Já a embarcação encontrada, recentemente, considerado o capítulo final da Era Heroica da Exploração Antártica (1880-1922), seguiu em funcionamento até o dia 5 maio de 1962, quando naufragou durante uma caça às focas, na costa de Labrador.

Assim como lembra o próprio líder da expedição recente que localizou o naufrágio, a morte de Shackleton no Quest "foi a única que ocorreu em qualquer um dos navios sob seu comando direto".

Mas quem foi Shackleton, considerado um dos maiores líderes da humanidade?

Royal Canadian Geographical Society/Reprodução
Royal Canadian Geographical Society/Reprodução
Foto: Viagem em Pauta

Quem foi Shackleton

Fã de histórias de aventuras, esse explorador polar de Kilkea, na Irlanda, esteve em expedições históricas como a Discovery (1901-1904), liderada por Robert Falcon Scott, e a Nimrod (1907-09), a primeira liderança de Shackleton.

Mas sua viagem mais famosa (e dramática) foi a Expedição Transantártica Imperial, entre 1914 e 1916, considerada a última grande viagem da Era dos Descobrimentos.

Após perder para o norueguês Roald Amundsen o título de primeiro explorador a chegar ao Polo Sul, em 1911, Shackleton decidiu fazer diferente e, em 1914, quis cruzar a Antártica de ponta a ponta, entre o mar de Weddell e o Polo Sul.

Porém, o líder da expedição não contava com uma virada no tempo que causaria a movimentação de placas de gelo, que não só impediriam a continuidade da viagem como também consumiriam seu navio feito para travessias polares.

Vista noturna do Endurance, no Mar de Wedell
Vista noturna do Endurance, no Mar de Wedell
Foto: Domínio Público / Viagem em Pauta

Expedição Transantártica Imperial

A viagem começou em Londres no dia 1º de agosto de 1914 e seguiu sem grandes novidades até Buenos Aires, de onde zarpou em 26 de outubro. O último porto seguro da expedição seria a Geórgia do Sul, ilha britânica ultramarina, entre as Malvinas e Sandwich do Sul, no Atlântico.

Porém, Shackleton não esperava que a viagem no vapor Endurance chegaria ao fim, bem antes de seus homens alcançarem terras geladas do extremo sul do planeta. A navegação foi sendo alterada por imensos blocos compactos de gelo que começaram a reduzir a velocidade da embarcação, que via imensos icebergs de mais de 60 metros de altura.

No dia 20 de janeiro de 1915, a apenas 160 quilômetros da Antártica, o Endurance estava, completamente, impedido de seguir viagem.

Segundo relatos do próprio Shackleton em seu diário, embora as caldeiras ainda permanecessem ligadas por mais sete dias, era um luxo desnecessário continuar gastando combustível e carvão armazenados.

Durante 48 horas sem descanso, a tripulação trabalhou na retirada do gelo que impedia o barco de seguir viagem. Insistentes, aqueles homens esperançosos não poderiam imaginar que ficariam presos ali por sete meses, até a primavera seguinte.

No final de fevereiro de 1915, a rotina a bordo seria abandonada de vez. As opções de lazer seriam concertos de gramofone, partidas de futebol, campeonato de corte de cabelo e corridas de cachorros.

O tempo ia passando e a temperatura, lá fora, despencando.

A "batalha de gigantes", na definição do líder da expedição, começou quando o inverno chegou: temperaturas a -30 °C, dias sem luz natural e cachorros mortos por parasitas no estômago. Sobrou até para as focas antárticas que, por conta da escassez dos recursos da expedição, foram usadas para garantir combustível e alimentos.

Mas o que já estava ruim ficou pior ainda.

Domínio Público
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Foto: Viagem em Pauta

Inferno gelado na Antártica

A pressão das placas de gelo sobre a estrutura da embarcação esmagava o Endurance, cuja madeira começou a ranger com um som estridente provocado por pedaços do chão que se dobravam para cima, antes de saltarem no ar.

No congelante e frustrante 27 de outubro de 1915, a -18 °C, Shackleton ordenou o abandono total da embarcação agonizante. O afundamento total do Endurance aconteceria quase um mês depois, no dia 21 de novembro.

O grupo seguiu então por terra e em improvisadas embarcações até a ilha mais próxima, a Paulet. Sobre pedaços flutuantes e instáveis, a expedição passou os dois meses seguintes sobre um banco de gelo mais sólido, que ficaria conhecido como Ocean Camp.

A vida daqueles homens viraria um inferno gelado com caminhadas com gelo até os joelhos, comidas em pedaços de madeira que serviam de prato, líquidos bebidos em tampas de latas e pele de pinguim e gordura de foca usadas para fazer funcionar o fogão adaptado.

Domínio Público
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Foto: Viagem em Pauta

Em dezembro daquele mesmo ano, Shackleton tentou, sem sucesso, aproximar a tripulação à Ilha Paulet e conduziu seus homens para o oeste, em uma perigosa caminhada noturna de sete dias. No novo acampamento, o Patience Camp, uma outra placa de gelo encontrada para abrigo, a equipe ficou três meses e meio.

Foi ali que os cachorros começaram a ser sacrificados para compensar a falta de comida.

A Ilha Elefante, no arquipélago das Shetland do Sul, era a esperança seguinte, a 160 quilômetros de distância e a sete dias de remadas. Quase 500 dias depois, aquela seria a primeira vez que todos colocavam os pés em terra firme.

Pela primeira vez também, em abril de 1916, a expedição se dividiu, quando seis homens saíram no James Caird, um bote de sete metros de comprimento que seguiria para pedir socorro na Geórgia do Sul.

Constantemente molhados, durante os 17 dias seguintes, os navegadores não tiveram um minuto sequer de descanso. A bordo não se via o horizonte por conta de ondas imensas e a espuma da água congelava e fazia peso sobre o barco frágil.

Em 10 de maio de 1916, Shackleton e outros cinco homens que o acompanharam finalizavam, na Geórgia do Sul, uma das mais perigosas viagens marítimas da história.

Mas o trabalho não terminava ali.

Foto: Domínio Público / Viagem em Pauta

O resgate final

Apesar de estarem, por fim, em terra firma, ainda seria preciso encarar uma arriscada caminhada pelo interior da Geórgia do Sul, pois os postos baleeiros estavam do outro lado da ilha, após um labirinto de caminhos que seriam explorados por humanos pela primeira vez.

O grupo chegou ao Porto de Stromness, no dia 20 de maio de 1916, quase dois anos depois do Endurance deixar a Inglaterra. Parecia tudo finalizado, mas e os outros 22 tripulantes na Ilha Elefante?

O resgate demoraria ainda dez semanas, após três tentativas frustradas, devido à falta de barcos adequados para enfrentar águas furiosas.

Já sem esperanças, os homens que haviam permanecido improvisaram abrigo em botes virados para baixo, até serem resgatados pelo rebocador chileno Yelcho e pelo baleeiro britânico Southern Sky, no dia 30 de agosto de 1916.

A tripulação completa desembarcou em Punta Arenas, no Chile, no dia 3 de setembro, sem que nenhuma morte fosse registrada.

A viagem é considerada uma das mais impressionantes histórias de sobrevivência.

Domínio Público
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Foto: Viagem em Pauta

O Endurance ressurge

No dia 5 de março de 2022, após mais de duas semanas de uma complexa operação de buscas, o Endurance foi encontrado, intacto e na vertical, a 3.008 metros de profundidade, no mar de Weddell, no Oceano Antártico.

A busca do naufrágio mais desafiador da História foi organizada e financiada pela Falklands Maritime Heritage Trust (FMHT), que saiu da Cidade do Cabo, na África do Sul.

Inicialmente programado para uma viagem de 35 dias, o projeto foi realizado a bordo do quebra-gelo SA Agulhas II, um potente navio polar de 134 metros, construído na Finlândia e capaz de forçar a passagem em blocos de gelo de até um metro de espessura.

Sabertooth
Sabertooth
Foto: SAAB/Divulgação / Viagem em Pauta

Para garantir o desafio, foram usados Veículos Submarinos Autônomos (AUVs). Esses robôs aquáticos construídos na Suécia, exclusivamente, para a missão de 2022, são equipados com câmeras de alta definição e sonar de varredura lateral, capazes de enviar à superfície informações captadas a até quatro mil metros de profundidade, em tempo real.

Um dos registros mais impactantes da descoberta é o nome do Endurance que pode ser visto, claramente, na popa abaixo da grinalda, corrimão em torno da área do convés, e sobre uma estrela de cinco pontas.

Embora as pesquisas tenham continuado, nada foi tocado ou retirado daquele Sítio Histórico e Monumento, de acordo com o Tratado da Antártica.

Para John Shears, líder de expedição, a descoberta do Endurance foi um marco na história polar.

"Que novas gerações de todo o mundo se envolvam com o Endurance22 e se inspirem nas incríveis histórias da exploração polar", declarou Shears, em nota divulgada no site do projeto.

Endurance, em 2022
Endurance, em 2022
Foto: Falklands Maritime Heritage Trust e National Geographic Caption / Viagem em Pauta
Viagem em Pauta
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