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Conheça Baracoa, a cidade paradisíaca que guarda a essência de Cuba

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Baracoa guarda a essência mais pura de Cuba e olha rumo o futuro apostando no turismo e tentando aproveitar a tímida abertura econômica empreendida no único país comunista da América.

Vista aérea da cidade de Baracoa, no oriente de Cuba
Vista aérea da cidade de Baracoa, no oriente de Cuba
Foto: Alejandro Ernesto / EFE

A chamada Cidade Primada, das Chuvas, das Montanhas, da Paisagem ou das Águas se localiza no extremo mais oriental da ilha, na província de Guantánamo, a cerca de mil quilômetros a leste de Havana. Cerca de 85 mil habitantes vivem atualmente neste pequeno paraíso de costa e montanha com florestas tropicais frondosas cortadas por rios de águas cristalinas e formosas desembocaduras que cativaram Cristóvão Colombo em sua primeira viagem à América.

Marca espanhola e herança indígena

"A mais formosa coisa do mundo": assim descreveu Cristóvão Colombo o que hoje é Baracoa, ao chegar com La Niña e Santa María, no dia 27 de novembro de 1492, a este ponto da maior das Antilhas. A terceira das famosas caravelas, La Pinta, tinha se separado da comitiva para ir rumo a Babeque (Bahamas).

Assim, o primeiro porto de Cuba visitado por Colombo foi a Enseada de Mel de Baracoa. Devido à chuva e as inclemências do tempo, o almirante e seus marinheiros ficaram na região quase oito dias nos quais puderam percorrer o lugar e adentrar nas várias povoações de aborígines da região.

Da passagem do navegante por este enclave atestam as versões que chegaram até nossos dias do primeiro diário de viagem do almirante junto a outro destacado testemunho: "La Cruz de la Parra", a única conservada das 29 que Colombo plantou em suas quatro viagens pela América.

Esta cruz ficou cravada em um pequeno enclave chamado Puerto Santo e passou ignorada quase duas décadas até que o espanhol Diego Velázquez a encontrou quando chegou à frente de uma expedição a Cuba para fundar Nossa Senhora da Assunção de Baracoa, em 15 de agosto de 1511.

Cinco séculos depois, a marca espanhola persiste em Baracoa, não apenas através desta relíquia, mas também do sistema para proteger a cidade dos piratas do Caribe: permanecem quase intactas as fortalezas de Matachín, La Punta e El Castillo, hoje usadas como museu, restaurante e hotel, respectivamente."Além da arquitetura, por Baracoa entrou a essência da 'criollez' e aqui se encontra a essência do cubano. Entraram os elementos hispânicos da economia, da cultura, da evangelização... Todos esses elementos que nos marcaram indiscutivelmente", segundo disse à Agência Efe Alejandro Hartmann, historiador oficial da Cidade Primada de Cuba e um apaixonado por sua terra. "Baracoa é, possivelmente, a coisa mais pura que resta de Cuba", opina Zenón Gámez, um morador da cidade, com uma frase que resume a impressão de muitos locais e estrangeiros.

E nessa pureza seguramente influi a visível herança dos indígenas que povoavam a ilha antes da chegada dos espanhois: Baracoa é dos poucos lugares de Cuba onde se encontram nitidamente em seus habitantes os traços dos taínos, o povo aborígine que habitou a região.

O próprio nome de Baracoa é uma palavra indígena que significa "existência de mar". E daqueles antigos habitantes ainda restam técnicas de construção com madeiras e fibras vegetais, o uso de alguidares feitos com casca do coco, bambu e espiga de cacau, tradições gastronômicas como o "casabe", uma espécie de torta seca feita de mandioca e as numerosas e antigas lendas que encerram cada monte, rio e caverna do local.

Paraíso natural

"Andando por ela foi coisa maravilhosa ver os arvoredos e a frescura e a água claríssima e as aves e a amenidade, que lhe parecia que não queria sair dali". Como ocorreu a Cristóvão Colombo, a primeira coisa que deslumbra o viajante que chega a Baracoa é sua paisagem de costa e montanha com vegetação abundante e paragens protegidas, muitas declaradas Reserva da Biosfera por sua abundância de flora e fauna.

A cidade fica espremida entre um estreito litoral e um relevo montanhoso onde sobressai a imponente figura de El Yunque, uma elevação "alta e quadrada que parecia ilha", segundo anotou o almirante em seu diário. Foi declarado Monumento Nacional Histórico Natural em 1979.

Parte do território de Baracoa pertence ao Parque Nacional Alejandro de Humboldt, a mais importante área protegida de Cuba que se distribui em duas das províncias mais orientais do país (Holguín e Guantánamo) e que tem uma extensão de mais de 70.000 hectares entre parte terrestre e marinha.

Florestas tropicais e pinheirais se misturam em um exuberante conjunto vegetal que reúne milhares de espécies únicas: segundo dados oficiais, o endemismo em algumas áreas alcança 70%.

Como singularidades, ali podem ser encontradas orquídeas, grandes formações de samambaias e as elegantes palmas de troncos brancos que definem o perfil de Baracoa, a maior reserva florestal de Cuba.

O "zunzunito", o menor pássaro do mundo, também habita a região, bem como a "greta cubana", uma borboleta de asas transparentes, e os protegidos polimitas, caracóis com belíssimas conchas de cores vivas.

Na Cidade Primada, a água é uma constante: ao mar se unem as constantes chuvas, assim como os vários rios que sulcam seu território, formando formosas desembocaduras.

Cacau e coco

Baracoa cheira a chocolate. É a capital do cacau em Cuba e fornece 70% da produção nacional. Che Guevara inaugurou em 1963, após o triunfo da Revolução castrista, a fábrica de chocolate da cidade que ainda funciona e que ele mesmo concebeu, segundo os historiadores oficiais.

Em torno do chocolate os baracoanos desenvolveram toda uma filosofia: "O cacau é a planta que mais virtudes oferece à vida, tanto no campo da alimentação, da medicina, dos cosméticos e até para fazer amor prazeroso", diz Urbano Rodríguez, considerado por seus conterrâneos o "Rei dos Cacaoteros" e que aos 78 anos esbanja sabedoria e paixão pela natureza.

Urbano recomenda tomar, como ele fez durante toda sua vida, três xícaras de chocolate diárias (café da manhã, ao meio-dia e antes de se deitar) e defende que o cacau não tem contraindicação alguma.

No caso do chocolate baracoano as virtudes se acentuam porque é 100% ecológico: nos cultivos da região só se usam adubos orgânicos.

Em Baracoa, o chocolate é vendido em clássicos tabletes ou bombons, mas o típico do lugar são as bolas de cacau. São elaboradas à base de cacau tostado, secado, descascado e moído para fazer uma massa aglutinada com um pouco de farinha.

O coco é o outro produto de destaque na região. As plantações de coco de Baracoa representam 85% do total cubano. A palma de coco, seu fruto e seus derivados são onipresentes: estão no artesanato, nas construções, nas festividades e na gastronomia.

Nesta parte de Cuba, as estradas estão cheias de vendedores de cocada, o produto mais típico de Baracoa: ela é embalada com folha (yagua) da palma real o que serve de conservante natural. E seu interior contém a massa do fruto cozida e misturada, em alguns casos com banana ou com outras frutas.

O turismo, aposta de futuro

Este lugar, onde o tempo parece ter parado com seus camponeses montados a cavalo ou dirigindo carroças puxadas por bois, não é alheio à crise econômica que Cuba sofre há décadas e muitos baracoanos se somaram à febre do trabalho privado, sobretudo para abrir restaurantes e alugar quartos.

O turismo desponta como o motor de uma região atrativa não só por causa de sua natureza e de sua história, mas por sua proximidade com outros pontos do Caribe como República Dominicana, Bahamas e Jamaica, e a possibilidade de se transformar em foco "multidestino", segundo o historiador oficial de Baracoa. "Essas potencialidades se iniciarão na medida em que o país ultrapassar os desafios que tem, as limitações, os obstáculos...", disse à Efe Hartmann em relação às reformas impulsionadas pelo Governo do general Raúl Castro e que representam uma tímida abertura à iniciativa privada.

Por enquanto, a aventura do "cuentapropismo" (como se chamam em Cuba as modalidades de trabalho privado que o regime permite) encheu o centro desta pequena cidade de "paladares" (restaurantes não estatais) onde são oferecidas as delícias gastronômicas da região.

E alguns o fazem com bastante engenho, como o caso de Pablo, de 52 anos, antigo cortador de cana e com vocação de poeta. Assim se chama seu restaurante ("El Poeta") que é cheio de surpresas: Pablo mesmo improvisou o curioso "chorrito", misturando diretamente na boca do cliente um pouco de rum com o suco de uma cana-de-açúcar que ele mesmo espreme.

Outro dos negócios privados que floresceu nos últimos tempos é o aluguel de quartos em casas particulares, algumas delas de um precioso estilo colonial e primorosamente arrumadas por seus moradores.

Segundo dados oficiais, cerca de 230 casas particulares em Baracoa são autorizadas a alugar quartos, quase duplicando o número de leitos nos cinco hotéis e hospedagens estatais que há na cidade.

No entanto, os guias oficiais de turismo em Cuba ainda não incluem este tipo de negócio privado, que os visitantes estrangeiros conhecem ao chegar ao local ou pelo "boca a boca" das redes sociais na internet.

Personagens e nostalgias

Para outros baracoanos, a idade não foi impedimento para tentar aliviar a escassez econômica com o trabalho por conta própria: Carmen, descendente de indígenas, acaba de obter aos 79 anos uma licença para vender artesanato e doces que produz em sua humilde casa de madeira situada à beira do mar.

Ali, vive com seu marido Rafael, de 89 anos, descendente de espanhóis e coletor de coco: em sua idade ainda sobe nas palmeiras com uma assombrosa agilidade.

Aos quase 90 anos, Rafael não está aposentado e gosta de "lutar na vida", embora admita que nos últimos tempos Carmen e ele vivem com um pouco mais de folga e podem economizar graças à renda extra de sua mulher.

E até em Baracoa alguém pode se deparar com a nostalgia de cubanos que faz mais de meio século emigraram para os Estados Unidos após o triunfo da Revolução, sonhando com sua terra de origem.

É a história de Abilio José Legrá que partiu com 19 anos de Baracoa e que neste mês de agosto, 52 anos depois, retornou pela primeira vez a sua terra durante alguns dias para visitar tios e primos que ficaram na região.

Em conversa com a Efe, Abilio explicou que pôde visitar plantações de cacau que em outra época pertenceram a seu avô assim como compartilhar lembranças com seus familiares baracoanos e conhecer "parentes que não sabia nem que tinha", conta este cubano-americano de 70 anos.

Segundo relatou, esta viagem "emocionante" foi possível devido às medidas adotadas pelo Governo de Barack Obama para suavizar restrições das viagens de americanos a Cuba.

Assinalou que seu grande desejo é "poder pôr seu carro em um barco em Key West, vir como se fazia antes e poder retornar de novo a Miami sem problemas".

EFE   
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