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Berlin é única e inigualável, o centro do Velho Mundo

6 jul 2024 - 06h20
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Foto: Florian Wehde

Salve, salve!!! Salve-se quem puder.

Dia 14 de Julho o estádio Olímpico de Berlin irá receber a final da Eurocopa. Aproveitando o gancho, escrevo sobre a primeira cidade que conheci na Europa no longínquo ano de 2003.

Berlin é com N no original em alemão e assim escreverei.

Deixa de ser clichê dizer que Berlin é única. Diferente de Nova York, Londres, Veneza, Paris ou Istambul, a capital da Alemanha é um organismo vivo e pulsante desde sempre.

Palco de tantas mudanças na História e berço criativo das artes, merece ser visitada e explorada várias vezes e o máximo possível.

A playlist “David Bowie e Iggy Pop – Berlin 1977/78” resume bem uma época sombria e sem esperança na cidade, ainda sob o jugo soviético atrás da Cortina de Ferro.

Aumente o som e curta o camaleão britânico e seu fiel escudeiro.

Berlin são várias cidades numa só

Ku’Damm, TU Berlin, Ilha dos Museus e Alexander Platz.

Fazia tempo da minha última visita a Berlin, mas no ano passado fizemos uma road tour com sogro e sogra a tiracolo matando a saudade. O amigo irmão Dimas continua por lá e nos recebeu muito bem como sempre. Um privilegiado.

Em 2003 era para eu ter feito meu estágio profissional numa fábrica de açúcar em Prilep na Macedônia. Graças ao bendito sistema de reclassificação de vagas, no apagar das luzes do processo de seleção consegui pular da quinta pra quarta opção.

Sempre disse a mim mesmo que quando fosse visitar o Velho Mundo pela primeira vez, a capital da Alemanha seria a porta de entrada. E não é que a quarta vaga do bendito intercâmbio profissional me agraciou com um estágio justo na TU Berlin!

Na época eu trabalhava num projeto de expansão de uma mineradora e ainda cursava engenharia mecânica, já no último semestre. Pedi uma licença especial ao chefe, que gente boa ainda me aconselhou a fazer um mochilão após o estágio. Negociei o abono das ausências com o coordenador do curso e me mandei para seis semanas de estágio e outras três flanando. Livre, leve e solto no Velho Mundo.

Berlin é impactante. A primeira vez que vi o Portão de Brandenburgo tive a nítida sensação de estar vendo a História materializada em uma única construção. A Vitória Alada encarapitada lá no alto da Siegessäule, a Coluna da Vitória no coração do Tiergarten, também são marcantes. É aquela estátua dourada do filme “Asas do Desejo” do Wim Wenders e daquele clipe do U2. A banda tem história na cidade. Ainda me lembro dos Trabants com faróis acesos no palco da turnê Zooropa.

Olhei para o Reichstag, o parlamento alemão e sede do governo, imaginando-o em chamas no incêndio criminoso perpetrado pelos nazistas. Antes de passar por baixo do Portão atravessando a fronteira imaginária entre Berlin Ocidental e Oriental, vi no asfalto os tijolos marcando por onde passava o Muro. Li a plaquinha “Berliner Mauer, 1961 – 1989” e me deu um frio na espinha. O dia ficou preto e branco.

Comecei a descer a Unten den Linden em direção a Alexander Platz, principal praça do lado socialista onde fica a Rotes Rathaus, a prefeitura vermelha. Logo no início da suave descida percebi o elegante Hotel Adlon à direita, aquele onde Michael Jackson sacudiu o filho ainda bebê de uma sacada aterrorizando a todos.

No caminho cruzei a Friedrichsstraße, rua do famoso confronto entre tanques soviéticos e aliados onde fica o Checkpoint Charlie, um posto de controle pra quem queria entrar ou sair do lado Ocidental. Estampei meu passaporte com o carimbo fictício do museu e em seguida fiquei pasmo com os inúmeros inventos criados pelos berlinenses na tentativa de fugir para o outro lado.

Continuei a caminhada chegando na ilha dos museus. Talvez seja a maior concentração de obras de arte por metro quadrado do mundo. Apenas o Museu Pergamon já vale a visita na cidade. O Portão do Mercado de Mileto na Grécia Antiga, o próprio Altar Pergamon e o Portão de Ishtar da Babilônia Antiga estão ali, restaurados e ao seu dispor para você se embasbacar. Sem falar no Berliner Dom, uma das igrejas mais belas da cidade, também na ilha.

Durante minha primeira visita ao Pergamon, uma maluca conseguiu a façanha de esbarrar num vaso de três metros de altura e derrubando-o no chão espatifando a relíquia. Imediatamente os seguranças isolaram a sala com a mulher dentro e ninguém mais a viu ou ouviu falar dela. Deve ter sido jogada numa dessas picotadoras de papel para humanos e dizimada para sempre.

Aqui um guia completo pra você explorar a Ilha dos Museus ou Museumsinsel em alemão. Além do fantástico Pergamon tem o Bode Museum, o Altes (antigo) e o Neues (novo) Museum e a Alte Nationalgalerie. Uma overdose de cultura.

Mas Berlin tem ilha? Sim, ilha cercada pelas águas do Rio Spree. E sim, você pode andar de barco lá como se faz em Veneza.

Chegando na Alex, apelido carinhoso da praça mais famosa da cidade, o homem cachorro quente já estava vendendo suas Bratwurst com mostarda. Estamos em Berlin Mitte, literalmente o meio, o buxixo da cidade, hoje basicamente região para turistas.

Vi restos do Muro de Berlin pela primeira vez num quarteirao meio abandonado perto do antigo QG da temida SS, a polícia secreta nazista. Hoje só restam escombros do prédio. Logo ao lado fizeram um museu gratuito ao ar livre mostrando como operava a sede de uma das máquinas de destruição de Hitler.

A East Side Gallery, galeria de arte a céu aberto na mais extensa parte remanescente do Muro, fica pertinho da Ostbahnhof. Hoje as pinturas são protegidas e fixas, mas antes qualquer um poderia chegar ali e assinar seu nome, fazer um desenho ou mesmo um grafitti ocupando boa parte do muro.

O Trabant Safari promete te levar no famoso carrinho ícone da DDR, a República Democrática da Alemanha, pelas ruas do lado Oriental. Não andei nele, mas gostei tanto da ideia e do carro que minha mulher me deu um de presente quando fiz 40 anos. Ele ainda está aqui, firme e forte prestando seus serviços e abrindo sorrisos para quem o vê.

Charlottenburg Straße até a TU Berlin

Em 2003 morei por seis semanas num quarto alugado de um apê na Charlottenburg Straße, no lado Ocidental. A famosa KuDamm, a Kurfürstendamm, avenida mais chique do mundo capitalista, ficava a um quarteirão. É a Champs-Elysées de Berlin.

No final dela chegamos no Zoologischer Garten e na Zoo Bahnhof, a estação de trens e metrô mostrada no filme recomendado logo mais. Ali perto vemos aquela igreja cujo teto foi bombardeado durante a Segunda Guerra Mundial e nunca mais restaurado. Ficou como lembrança da destruição do nazismo e dos horrores enfrentados por Berlin. O nome dela é Kaiser Wilhelm Gedächtnis Kirche ou Igreja Memorial Imperador Guilherme, numa tradução livre, e é protestante.

Toda manhã eu atravessava a KuDamm a caminho da TU Berlin. Logo num dos primeiros dias, reparei nos senhores distintos sentados nos cafés ainda vazios com um copão de meio litro de cerveja de trigo. Cedo antes das 9h da manhã tomavam a primeira. Pensei que fossem alcoólatras, mas depois aprendi que na Alemanha a cerveja é chamada de pão líquido e sua classificação tributária é a mesma do leite. Portanto, é um alimento e não uma bebida alcóolica.

A vida noturna da cidade é para todos os gostos e idades. Entrei num After Hours na Alex às 10h da manhã de um domingo imaginando estar vazio. Lá dentro, uma espécie de porão com bar, luzes de discoteca e um trance no último volume, o couro comia sem dó. Muitos ainda ligados por ecstasy ou mesmo birita não haviam visto a luz do sol e literalmente se acabavam no recinto.

Ao sair, sol rachando, pais e mães passeando com os filhos, casais apaixonados de bike e o indefectível homem salsicha iniciando seus trabalhos. Ou encerrando, vai saber.

Em Sachsenhausen, ao norte da cidade, visitei um dos tantos campos de concentração nazistas hoje transformado em museu. É chocante, impactante e a energia negativa do lugar é tão ruim que o silêncio impera. Ninguém tem ânimo pra falar, só observar e refletir como o homem pode ser tão cruel com seus semelhantes.

Berlin é obrigatória pra quem habita este planeta e por vários motivos. Se quer visitar uma cidade realmente cosmopolita e multicultural vá para lá.

Até pescar você vai conseguir.

Pra ver e ler

FILME: Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada E Prostituída – Diretor: Uli Edel (1981). As crianças da Zoo Bahnhof

A história real de Christiane, uma garota de 14 anos que sonhava em frequentar a descolada discoteca Sound e ver David Bowie ao vivo, ainda permanece atual. O submundo das drogas na Berlin do final dos anos 1970 é mostrado com crueza e realismo únicos.

O epicentro das atividades ilícitas como prostituição e consumo de drogas, principalmente heroína, era na Zoo Bahnhof, estação de trem próxima ao zoológico da cidade. Baseado no best seller autobiográfico da protagonista Christiane F. vivemos o cotidiano da adolescente e sua amiga de escola pouco mais velha numa Berlin abandonada e sem esperança.

Na Sound, Christiane faz novos amigos, todos viciados, e para ser aceita começa a tomar pílulas e depois injetar heroína. Um deles chega a alertá-la dizendo que irá virar um zumbi como ele se entrar nesse submundo. Vemos sua vida sendo destruída aos poucos junto com a dos amigos.

A maioria dos jovens atores que atuaram eram amadores e muitos realmente viciados da Zoo Bahnhof. O ambiente noturno e as filmagens feitas nos próprios locais fazem o filme parecer um triste documentário.

A trilha sonora de Bowie merece destaque, principalmente o álbum Heroes da famosa trilogia de Berlin. O filme mostra uma música inteira de um show dele na cidade e também outras músicas tocadas na boate Sound.

Me lembro que o filme causava medo mesmo antes de ser visto. Era um tema proibido: drogas pesadíssimas sendo aplicadas explicitamente, prostituição e adolescentes acabando com suas próprias vidas. Não me recordo quantos anos tinha quando assisti, mas o impacto foi grande.

A verdadeira Christiane F., cujo nome completo é Vera Christiane Felscherinow, ainda está viva e hoje dá palestras sobre sua experiência alertando os jovens dos perigos das drogas. Felizmente a situação dos drogados ali na Zoo mudou bastante.

Em Viena eles viviam na Karlsplatz e o governo distribuía drogas pra evitar que crises de abstinência gerassem pequenos delitos e problemas sociais. Os viciados ficavam com a língua azul, uma espécie de marcação da polícia pra identificar quem havia consumido.

Uma jovem loira vivia por ali. Chamava a atenção pela beleza e pouca idade. Foi se acabando e infelizmente acompanhei esse processo degradante da destruição humana quando passava toda manhã saindo do metrô rumo à TU Viena. Mas isso é assunto para outro artigo.

LIVRO: O Homem que Vendeu o Mundo - Peter Doggett (2011). A reinvenção constante de um artista.

A trilogia de Berlin foi composta por David Bowie entre 1976 e 1978 quando morou na cidade. Os discos Low, Heroes e Lodge foram gravados no estúdio Hansa quando Bowie dividia um apartamento na Hauptstrasse 155, no bairro Schöneberg, com Iggy Pop.

Na playlist lá em cima tem os três discos e alguns do Iggy. Se você foi esperto e deu o play antes de começar a leitura já está curtindo.

Peter Doggett é um jornalista inglês especializado em música pop e na história cultural e social. Escreveu “A batalha pela alma dos Beatles”, um estudo sobre o traumático fim da banda que foi escolhido como um dos dez melhores livros de 2010 pelo Los Angeles Times.

(*) Pedro Silva é engenheiro mecânico, PhD em Materiais, vive em Viena na Áustria, mas Berlin continua sendo sua cidade favorita na Europa e no mundo, e escreve semanalmente a newsletter Alea Iacta Est.

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