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Trauma herdado: Como a dor de perdas antigas na família pode afetar sua saúde mental hoje

Especialistas explicam como o luto transgeracional pode atravessar gerações e influenciar emoções, comportamentos e relações familiares

16 jun 2026 - 19h29
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No Dia Nacional do Luto, em 19 de junho, um tema ainda pouco discutido ganha espaço: o luto transgeracional. O conceito descreve situações em que perdas marcantes vividas por gerações anteriores continuam repercutindo emocionalmente nos descendentes, mesmo quando eles não presenciaram diretamente esses acontecimentos. Mortes precoces, suicídios, abortos, perdas financeiras drásticas, exílios e outras rupturas familiares frequentemente deixam marcas profundas. Além disso, essas experiências podem influenciar a forma como as famílias lidam com emoções, vínculos e conflitos ao longo dos anos. Quando ninguém elabora essas vivências ou sequer fala sobre elas, seus efeitos podem surgir de maneiras inesperadas nas gerações seguintes.

O luto transgeracional descreve o impacto emocional que perdas não elaboradas podem exercer sobre gerações futuras
O luto transgeracional descreve o impacto emocional que perdas não elaboradas podem exercer sobre gerações futuras
Foto: Canva / Bons Fluidos

O que é o luto transgeracional?

De acordo com a psicóloga Adriana Braz Oliveira, doutora em Psicologia da Saúde, o luto transgeracional surge quando uma perda significativa permanece sem acolhimento, elaboração ou espaço para diálogo dentro da família. Segundo a especialista, o sofrimento não desaparece apenas com a passagem do tempo. Pelo contrário, ele pode permanecer presente em histórias silenciadas, segredos familiares ou padrões emocionais que continuam influenciando as relações. "O luto transgeracional acontece quando uma perda significativa na família não foi chorada, integrada ou falada pelas gerações anteriores."

Como perdas antigas podem afetar os descendentes?

Embora a pessoa não tenha vivido diretamente determinado acontecimento, ela pode crescer em um ambiente impactado pelas consequências emocionais daquela perda. Consequentemente, alguns sentimentos podem surgir sem uma explicação aparente. Além disso, o silêncio em torno de certos episódios pode favorecer sensações persistentes de tristeza, culpa, medo de abandono ou dificuldade de pertencimento. Por esse motivo, diversas abordagens da Psicologia investigam como experiências familiares influenciam a construção emocional dos indivíduos ao longo da vida.

O que a pesquisa de Adriana Braz observou?

No livro PsiConstelação, resultado de sua pesquisa de doutorado, Adriana Braz reúne relatos clínicos de pacientes com quadros de ansiedade, depressão, esquizofrenia e dependência química. Ao longo da obra, a autora propõe uma reflexão sobre a importância de compreender não apenas os sintomas individuais, mas também o contexto familiar que influencia cada pessoa. Em um dos casos descritos, uma paciente identificada pelas iniciais LZ associou, durante o processo terapêutico, pensamentos recorrentes de morte e sintomas depressivos a uma história familiar marcada pela perda de um irmão na infância. Segundo o relato apresentado no livro, após o acompanhamento terapêutico, a paciente relatou melhora da autoconfiança e interrupção dos pensamentos suicidas. Além disso, o caso reforça a importância de investigar fatores emocionais que muitas vezes permanecem ocultos na história familiar.

Saúde mental vai além do diagnóstico?

A proposta apresentada por Adriana Braz sugere que profissionais e pacientes observem o sofrimento psíquico sob diferentes perspectivas. Isso não significa substituir diagnósticos ou tratamentos médicos. Pelo contrário, a proposta busca ampliar a compreensão sobre os fatores que podem contribuir para o sofrimento emocional.

"Se a Psicologia nos ensina a escutar o sujeito, a visão sistêmica amplia essa escuta para incluir o lugar do sujeito no mundo relacional que o constitui." Além disso, a pesquisa contou com o acompanhamento do psiquiatra Edson Kazuo Matsumoto, reforçando a importância do diálogo entre diferentes áreas da saúde mental. Da mesma forma, essa integração permite uma análise mais ampla da experiência humana.

Como romper ciclos emocionais familiares do luto transgeracional?

Especialistas destacam que conhecer a própria história familiar pode ajudar na compreensão de determinados comportamentos, emoções e conflitos. Além disso, esse processo favorece o autoconhecimento e amplia a percepção sobre padrões que se repetem ao longo das gerações. Da mesma forma, falar sobre perdas, acolher sentimentos e buscar apoio psicológico quando necessário pode contribuir para a elaboração de experiências dolorosas. Embora nem todo sofrimento tenha origem em eventos familiares passados, compreender o contexto em que cada pessoa está inserida amplia as possibilidades de cuidado e fortalecimento emocional.

Por que falar sobre luto ainda é tão importante?

O Dia Nacional do Luto busca incentivar conversas sobre um tema que ainda costuma enfrentar muitos tabus. Afinal, reconhecer a dor de uma perda representa um passo importante para integrar essa experiência à própria história. Assim, familiares e amigos podem construir formas mais saudáveis de lidar com a ausência e com os desafios emocionais que ela provoca. Além disso, refletir sobre o luto transgeracional ajuda a compreender como algumas marcas emocionais atravessam gerações. Muitas vezes, falar sobre essas experiências representa o primeiro passo para interromper ciclos de sofrimento que permaneceram silenciosos durante anos.

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